Após a coleta dos dados nos acervos e redução do corpus, o tratamento dos dados foi iniciado pela transcrição digitada e, nesse curso, ressaltamos que todas as cartas obedecem ao padrão de transcrição seguido PHPB-PE adaptado de Guedes e Berlinck (2000) para a edição e conservação dos manuscritos.
A transcrição conservadora diplomático-interpretativa – também denominada de semi- diplomática – das cartas pessoais de pernambucanos foi escolhida pelos pesquisadores do PHPB, objetivando respeitar a grafia, pontuação e demais práticas textuais que podem ser identificadas como peculiaridades das missivas produzidas nos séculos XIX e XX (RUMEU, 2013), já que “[...] a transcrição diplomático-interpretativa (ou semi-diplomática) vai mais longe na interpretação do original, pois já representa uma tentativa de melhoramento do texto, com [...] o desdobramento das abreviaturas (trazendo as letras, que não configuram no original, colocadas entre parênteses) [...] (SPINA, 1977, p. 79).” Dessa forma, a transcrição diplomático-interpretativa busca conservar a originalidade dos textos tentando, para além do que é textual, sinalizar marcas de corrosão, manchas, rasgados, como podemos observar na
36 Os knockouts referem-se a fatores com resultados categóricos para um dos valores da variável, seja esse
discriminação dos símbolos de ordem filológica realizada por Guedes e Berlinck (2000, p. 12):
Quadro 9 - Notações filológicas para transcrição retiradas de Guedes e Berlinck [ ] Indica a ausência de uma letra/sílaba na palavra ou de uma palavra dentro de um
enunciado. Ex.: a[c]eita-se pedidos; para poder continuar [ ] vender; para o verão e arti[ ]s de modas.
[[ ]] Indica que a letra/sílaba/palavra estão repetidas. Ex: dirigi[[di]]ram; dinheiro [[ a dinheiro]].
[ilegível], [furo] [corroído],
[espaço]
Indica que uma dessas situações aconteceu no texto trancrito. Ex.: assim ao modo de [ilegível] que há tempos; faz [furo] sciente ao Público; vende-se huma propriedade [corroído] de três andares; de profição agrônomo. [espaço] com boas referência.
| Na maioria dos casos, a barra simples indica mudança de linha.
|| Indica mudança de parágrafo.
Itálico Indica desenvolvimento de abreviaturas. Ex.: Senhor, réis, número, Excelentíssimo, Nossa Senhor, ReVerendíssima
Fonte: (GUEDES; BERLINCK, 2012, p. 12)
A título de exemplificação, a seguir, expomos uma figura de uma missiva transcrita seguindo as notações filológicas de Guedes e Berlinck (2012) para uma interpretação semi- diplomática. As missivas transcritas seguem o modelo de cabeçalho padronizado pelo PHPB, constando: modalidade, tipo de texto, assunto da carta, data e local de origem e de depósito do documento, identificação do autor (escritor) da carta, número de palavras, informações sobre o missivista e, por fim, nome do(s) editor(es); como na figura abaixo:
Figura 13 - Carta transcrita seguindo o modelo do PHPB-PE
Dessa maneira, a transcrição facilita não só a leitura e interpretação dos dados, como também simplifica o trabalho inicial de seleção e codificação dos dados. Para esta etapa, selecionamos apenas sentenças declarativas infinitivas e finitas, por haver um ou outro dado de sentenças exclamativas ou interrogativas com as formas Tu e Você. Embora consideremos as orações infinitivas e finitas, não foram criados grupos de fatores para elas, por entendermos que quantitativamente há mais contextos de sentenças finitas e, também, por a relevância da observação, na análise desta pesquisa, está mais imbricada com o tipo de oração na qual se apresenta o sujeito. Além disso, também não consideramos os dados de imperativo. Conforme Duarte (1993) aponta, o contexto de imperativo inflaciona as ocorrências de sujeito nulo, estas no imperativo são obrigatórias até mesmo em línguas não pro-drop, como no inglês, em “Take a break”.
Nesse sentido, investigaremos o fenômeno da alternância de Tu e Você na posição de sujeito e, portanto, seguimos os procedimentos da Sociolinguística Quantitativa (Labov, 2008 [1972]) para obtenção dos dados estatísticos, através das rodadas do GOLDVARB X (SANKOFF; TAGLIAMONTE; SMITH, 2005). Para isso, compreendemos enquanto variação a ocorrência de duas ou mais formas linguísticas que expressem a mesma coisa ou um “estado de coisas” (LABOV, 1978, p. 2) e, por isso, elegemos como variável dependente
as formas de tratamento Tu e Você, em sua realização fonética (plena) ou não realização fonética (nula). Por conseguinte, tendo consciência de que o emprego variável das formas tratamentais não é aleatório, mas sim influenciado por grupos de fatores (ou variáveis independentes) linguísticas e extralinguísticas, codificamos os fatores que compõem cada variável para que os dados possam ser rodados no GOLDVARB X:
Quadro 10 - Codificação dos dados intra e extralinguísticos Código VARIÁVEL DEPENDENTE I. Alternância de Tu e Você T P V N TU NULO TU PLENO VOCÊ PLENO VOCÊ NULO VARIÁVEIS INDEPENDENTES
II. Concordância verbal com a forma Tu e Você
L G
[+] CV [-] CV
III. Exclusividade e não exclusividade das formas de tratamento em uma mesma missiva
U C M
Remetente com uso exclusivo de sujeito Tu Remetente com uso exclusivo de sujeito Você Remetente com o uso alternado de Tu e Você
IV. Relação hierárquica de parentesco entre os missivistas
B H A S
Simétrica (para a relação entre amigos e colegas)
Assimétrica descendente (para a relação de pai para filho) Assimétrica ascendente (para a relação de filho para pai) Simétrico-solidária (para a relação amorosa entre casais)
V. Tipo de Oração F D E O Q Oração Independente Oração principal Oração substantiva Oração adjetiva Oração adverbial
VI. Faixa etária
J K I
Jovem (de 18 a 30 anos) Adulto (de 31 a 50 anos) Idoso (a partir de 51 anos)
VII. Subgênero da carta pessoal
2 3
Família Amor
VIII. Tempo (por século)
a b c
2ª metade do século XIX 1ª metade do século XX 2ª metade do século XX
As variáveis acima foram selecionadas a partir da leitura dos trabalhos de Duarte (1995) e Lopes e Gomes (2016). Ressaltamos o grupo de fatores “tipo de oração” para apresentar evidências empíricas dos dados, a fim de salientar que entendemos como:
57. Oração independente: incluímos os dados de Tu e Você na posição de sujeito em orações absolutas, coordenadas assindéticas e sindéticas.
(a) Século XIX => Você tem a alma do povo, eu tenho a consciência (CA08)
(b) Século XX=> Recebi e Øpodes avaliar bem a minha alegria ao ler a sua cartinha (CF18)
58. Oração principal: consideramos os dados de Tu e Você na posição de sujeito das orações principais das subordinadas.
(a) Século XIX=> ØSabe muito bem a luta que tive em encontrar uma camisa branca na festa de Algisa Bastos (CF22)
(b) Século XX=> Tu pedes que eu ore por ti (CM06)
59. Oração substantiva: incluímos os dados que correspondiam às classificações das orações subordinadas substantivas (subjetiva, objetiva direta e indireta, completiva nominal, etc.).
(a) Século XIX=> disce 37elle q’ voce a muito não escreve (CF01) (b) Século XX=> peço-te que Øestejas à minha espera (CM02)
60. Oração adjetiva: incluímos nesse grupo de fator os dados de Tu e Você na posição de sujeito que dizem respeito às orações subordinadas adjetivas restritivas e explicativas.
(a) Século XIX=> “Felismente com a carta em que Ø me dizias estar doente dos olhos” (CF04)
(b) Século XX => “a carta que Você mandou para sua mamãe” (CM35)
61. Oração adverbial: consideramos os dados de Tu e Você na posição de sujeito nas classificações das orações subordinadas adverbiais.
(a) Século XIX =>“ Vi portanto porque Ø saudaste essa que não chegou aqui.” (CF04)
(b) Século XX =>“encanto Você dorme eu | penço em Você” (CM35)
Além disso, precisamos destacar também que o nosso quadro de codificação abrangia mais dois fatores, a saber: a referência semântica do sujeito ([±]definido, [±] indefinido, [±] específico, [±] humano) e o sexo (masculino e feminino), este foi retirado das rodadas devido haver uma quantidade muito desigual de homens e mulheres se correspondendo. Esse fato se deve, sobretudo, por haver mais homens escolarizados na 2ª metade do XIX. Portanto, isso geraria Knockouts que podem ser evitados e, segundo Guy e Zilles (2007), essas categorizações geram um problema analítico no programa de dados quantitativos, porque
[...]num dado momento, se procede a uma divisão pela fração de aplicações e, noutro, de não-aplicações. Se uma dessas frações é equivalente a zero cria-se a violação de um princípio básico da matemática de números reais: não se pode dividir por zero. Portanto, qualquer nocaute dos dados tem que ser excluído dos pesos relativos. Ademais, o valor do peso de um nocaute não precisa ser calculado: se a percentagem de aplicações em tal contexto é 0%, o peso desse fator é 0, e se a percentagem é 100%, o peso é 1, e nada mais importa, a não ser o efeito do fator em questão (mais uma vez, cabe lembrar que dados categóricos devem ser relatados, e seu papel em processos de mudança, especialização de significado ou de função merece ser discutido) (GUY; ZILLES, 2007, p. 158).
Sendo assim, não consideramos a referência semântica do sujeito na codificação dos dados por ele ser categoricamente [+] definido, [+] específico e [+] humano quanto ao uso das formas Tu e Você. Portanto, acreditamos na hipótese, em conformidade com as pesquisas de Duarte (1995) e Rumeu (2013), de que, na escrita de pernambucanos do século XIX e XX a forma Você ainda conserva o seu caráter referencial [+]humano, [+] específico e [+] definido. O Você tem ocupado produtivamente a posição de realização fonética do sujeito. Desconsideramos também o fator sexo, pois as cartas são majoritariamente escritas por homens jovens e com escolaridade avançada. No século XIX, isso ocorre devido ao contexto histórico de produção dessas cartas, uma época em que as mulheres adultas e idosas,
predominantemente,cuidadoras do lar, tinham pouco ou nenhum grau de instrução. No século XX, encontramos um maior quantitativo de cartas escritas por mulheres jovens e adultas, ainda que não superem nem se iguale ao quantitativo masculino. Lembramos também que todas as missivas são de correspondentes pernambucanos e, por ser categórico, não precisamos incluir na codificação.
Ademais, os pesos relativos são extremamente relevantes para sabermos quais variáveis são significativas e quais não, pois isso irá nos mostrar as variáveis que mais atuam no fenômeno da alternância de Tu e Você como pronomes nulos ou plenos, indicando quais fatores devem ser considerados nesse quesito. Desse modo, para evitar knockouts, a opção em realizar rodadas por século nos pareceu mais eficiente; Por isso, dividimos o capítulo de análise, no primeiro momento, com o enfoque nas cartas de amigo e família no século XIX; e, no segundo momento, com ênfase nos três subgêneros da carta pessoal: amor, amigo e família, século XX, com o intuito de ressaltar sempre as decisões metodológicas com base nos resultados dos dados. Sendo assim, é necessário enfatizarmos os procedimentos de análise quantitativa e qualitativa que realizamos a partir dos dados obtidos pelo GOLDVARB X.