«De forma controlada ou automática, e consciente ou não consciente, um grande número dos nossos comportamentos corresponde às nossas representações.» (Vala,1993:366)
As representações sociais revelam-se orientadores da acção na medida em que têm a função de esquema prévio de interpretação, de atribuição de sentido que estabelece a relação do objecto da representação com o contexto da acção e com o procedimento de decisão inerente à própria acção.
As investigações realizadas mostraram que a representação social e a conduta surgem indissociavelmente ligados. Estes estudos, contudo, centraram-se no estudo do discurso como modo de análise do impacto directo da representação na conduta. Ou seja, o estudo desta correlação entre representação social e conduta tem de ser abordado pela perspectiva da experimentação laboratorial, onde se criam situações em que a manipulação controlada de uma representação terá um efeito observável sobre a conduta. Muitos destes estudos experimentais procuram manipular a imagem que o sujeito possa ter de determinados elementos da situação e observar como isso condiciona a conduta do sujeito, por exemplo, em situação de jogo.
Representação social e conduta
A representação do parceiro em situação de jogo tem sido o objecto de estudo mais frequente. Contudo, estudou-se também a influência que outros elementos como a representação da tarefa, de si mesmo, do outro e do grupo podem ter no desempenho em situação de jogo. Mas, em todos os casos, a finalidade do estudo é expressa aproximadamente da mesma maneira: estudar o impacto das representações na conduta, ou seja, mostrar que diferentes representações do mesmo objecto (tarefa, parceiro, situação) correspondem a condutas diferentes. A representação é tratada então como variável independente determinante, em larga medida, da conduta.
A representação definida para cada contexto engloba simultaneamente os protagonistas, a acção e o objectivo em jogo bem como os tipos de escolhas a realizar.
Segundo Herzlich (1972:320) estas manipulações conduzem à criação de um campo de representação, mais ou menos rico ou
Campo de representação
diversificado segundo os casos. Campo de representação que terá por função integrar as informações ulteriores fornecidas ao sujeito e de influenciar a sua organização. É por este mecanismo que se opera o impacto da representação na conduta. O caso da representação do parceiro de interacção é acompanhado de uma modificação (de acordo com o conteúdo do campo de representação induzido) das antecipações quanto ao
comportamento do parceiro. Os autores estabelecem, portanto, de modo
mais ou menos explícito, uma cadeia contendo as seguintes etapas: indução de uma representação ? organização cognitiva das representações respeitantes aos elementos da situação no seu conjunto ? antecipação do comportamento do parceiro ? ajustamento da sua própria atitude e da sua resposta em função desta antecipação.
Nas experiência realizadas por E. Apfelbaum (1967) em que todos os elementos desta cadeia são o mais claramente manipulados: o autor mostra bem como as atitudes próprias do sujeito e a representação que ele tem do outro, se influenciam reciprocamente.
Estas situações experimentais são criticadas por alguns autores que afirmam que nestas circunstâncias a introdução de uma representação identifica-se com a introdução de uma variável puramente cognitiva, contudo, esta crítica poderá ser rebatida dado que a representação ao desempenhar um papel integrador e organizador da informação ultrapassa o plano puramente cognitivo.
Deve-se sublinhar a dimensão, simultaneamente, cognitiva e social da representação, sem esquecer de investigar a origem e as suas condições de emergência.
Apesar das críticas que se possam fazer aos trabalhos experimentais em que se tomou a representação como simples variável, é de considerar que os diferentes comportamentos obtidos pela indução de diferentes representações são a maior parte das vezes significativos. Eles são particularmente surpreendentes se se tiver em consideração a «ligeireza» – algumas palavras ou frases – dos meios usados para se obter o resultado. Deste modo, pode-se ver a importância desta «actividade representacional» sempre pronta a investir a situação aparentemente mais depurada.
Mas qual é a natureza exacta dos laços assim postos em evidência entre a representação e a conduta? A maior parte dos autores interessaram- se pela orientação das condutas pela representação. Eles mostraram que no conjunto, as condutas, se modelavam pelas representações. A análise da representação social conduziu à ideia de que a orientação das condutas constitui, com efeito, uma das suas funções essenciais e específicas. Contudo, é necessário não dar à noção de orientação o sentido de um laço simples e directo, manifestando um impacto unívoco da representação sobre a conduta. Alguns resultados mostram isso bem: deste modo, nas experiências de Apfelbaum uma mesma representação do parceiro pode conduzir a diferenças de actuação, em função das orientações próprias de cada sujeito.
Função de orientação das condutas
De acordo com a distinção analítica proposta por Nuttin (1972) entre
comportamentos situacionais e comportamentos representacionais66: «Quando se fala da funcionalidade das representações enquanto orientadoras dos comportamentos, estamos a referirmo-nos aos comportamentos representacionais. Especificamente, referimo-nos ao nível de análise da acção que põe em evidência o facto de as representações: a) incluírem modos desejáveis de acção; b ) proporcionarem a constituição de significado do objecto estímulo e da situação no seu conjunto; e c) permitirem dar um sentido ao próprio comportamento, facultar a sua leitura à luz de uma representação, escondendo muitas vezes a possibilidade de leitura da acção
66
«comportamentos situacionais, em que o papel das mediações cognitivo-avaliativas é mínimo e o papel dos factores situacionais se encontra maximizado; e comportamentos representacionais, determinados no mínimo pela situação concreta na qual ocorrem e no máximo por factores pré- situacionais, que relevam do nível das atitudes e das representações.» (Vala,1993:366)
enquanto acção situacional, para a tornar um reflexo ou manifestação de uma representação.» (Vala,1993:366)
Se as representações sociais são esquemas a priori que condicionam a acção, por vezes elas interferem como instância a posteriori para o sujeito justificar perante si próprio e/ou perante os outros o seu comportamento.
«se a especificidade da situação de cada grupo social contribui para a especificidade das suas representações, a especificidade das representações contribui, por sua vez, para a diferenciação dos grupos sociais.» (Vala,1993:367)
Representações sociais e
diferenciação social
Existe uma relação dialéctica entre a dinâmica intra e inter grupal e a constituição das representações sendo que as representações se estruturam de acordo com as estratégias grupais e, por outro lado, as representações exercem a função de legitimação e justificação dos comportamentos e das avaliações realizadas.
Existe uma inter-relação entre o sistema social e o sistema cognitivo o que faz com que a diversidade social se reflicta nas representações fazendo com que não exista uniformidade, mas sim, pluralidade que advém das expressões individuais de uma representação. A influência das representações sociais nas condutas pode, portanto, ser observada à luz do enraizamento social do sujeito.