Em sua “Introdução à Metafísica”, Heidegger afirmou categoricamente o seguinte: “Logo, a essência grega da verdade só é possível em unidade com a essência grega do ser enquanto fÊsiw.”117 Só se torna devidamente clara a relação entre duas das
111 Interessante notar que para este fragmento Heidegger traduz o verbo l°gei a partir do “desvelar”
(entbergen): “Der Hohe, dessen Ort der weisenden Sage der in Delphi ist, weder entbirgt er (nur), noch verbirgt er (nur), sondern er gibt Zeichen.” (HEIDEGGER: Heraklit, p. 177 [trad. port., p. 188]) Em outro momento, porém, ele retoma o verbo a partir do “unir” (sammeln): “Der Herrscher, dessen Wahrsagung zu Delphi geschiet, er sammelt weder, noch verbirgt er, sonsern er gibt Winke.” (HEIDEGGER: Einführung in die Metaphysik, p. 130 [trad. port., p. 187; trad. port., p. 191])
112 Assim como Zeus no fragmento 32: “O uno, único a se pensar, não se deixa e contudo se deixa chamar
pelo nome ‘Zeus’.” [“Das Eine, allein zu Denkende lässt sich nicht und lässt sich doch mit dem Namen ‘Zeus’ benennen.”] (HEIDEGGER: Heraklit, p. 177 [trad. port., p. 188]) Obs.: deve-se notar que aqui Heidegger deslocou o sofÚn (“sábio”): ©n tÚ sofÚn, moËnon l°gesyai oÈk §y°lei ka‹ §y°lei ZhnÚw ˆnoma.
113 OTTO: Os Deuses da Grécia, p. 70.
114 Zeichen geben heisst: etwas entbergen, was, indem es erscheint, in ein Verborgenes verweist und also
verbirgt und birgt und so das Bergende als ein solches aufgehen lässt. Das Wesen des Zeichens ist die entbergende Verbergung. (HEIDEGGER: Heraklit, p. 179 [trad. port., p. 189])
115 OTTO: Os Deuses da Grécia, p. 68.
116 HÖLDERLIN: Poemas. Coimbra: Atlântida, 1959, p. 210.
principais palavras fundamentais quando ambas são reconhecidas como Leitmotiv da própria dinamicidade ontológica: “ambos os termos designam a dimensão na qual se institui e rege a intimidade do que oscila entre desocultar e ocultar.”118 Contudo, este reconhecimento só pode ser construído a partir de “espaços de comum incidência” entre as mesmas. Espaços que devem ser abertos a partir de regiões de encontro situadas no delineamento gradual do contexto geral da origem. Este tópico é uma indicação direta neste sentido.
Retomemos agora o ponto de partida para destacar o lãyoi presente no fragmento 16, para que através disto desvelemos a relação essencial entre duas das mais fundamentais palavras originárias. O lãyoi revelou que “o nunca declinar é contemplado interrogativamente como aquilo que decide sobre a possibilidade e a impossibilidade de estar velado, a saber, o poder ser e não ser velado”.119 É a partir disto
que se pode afirmar que o surgir, nomeado “mais adequadamente” (gemässer), é o “desvelar”.120 Isto basicamente pelo seguinte: “devido ao fato do ser significar o manifestar do que surge, o sair do velamento, por isso pertence a ele essencialmente o velamento, a sua proveniência. Tal proveniência radica na essência do ser, do que se manifesta como tal.”121 Por conseguinte, também e sobretudo a fÊsiw deve ser pensada
originariamente como “a relação essencial entre revelamento e velamento”.122 Isto, por sua vez, implica ainda o importante reconhecimento de que a élÆyeia é “origem e fundamento da fÊsiw.”123 Acerca desta fundamental afirmação, cumpre advertir que não se trata de uma questão de “hierarquia”, pois devemos poder pressupor que a “máxima” é recíproca, dada a circularidade fundamental da relação.
Tudo o que é, na medida em que esteja sendo, só pode ser tão logo esteja comprometido com o surgir, isto é, tão logo esteja revelado pelo ser. Logo, desde a origem, todo ente só pode estar a ser em relação essencial com a fÊsiw, tanto quanto postado na “clareira do ser”. Desta maneira, podemos dizer que estar na “clareira” é surgir pelo ser. Isto é “¶k-stasiw - ‘eksistent’ no sentido aqui referido;”124
118 HEIDEGGER: Vorträge und Aufsätze, p. 264 [trad. port., p. 240].
119 HEIDEGGER: Heraklit, p. 172 [trad. port., p. ]. “O fragmento pergunta por esta relação.”
(HEIDEGGER: Heraklit, p. 172 [trad. port., p. 183])
120 Cf. HEIDEGGER: Heraklit, p. 160 [trad. port., p. 171].
121 HEIDEGGER: Einführung in die Metaphysik, p. 87 [trad. port., pp. 126-27; trad. bras., p. 140]. 122 HEIDEGGER: Heraklit, p. 171 [trad. port., p. 182].
123
Die élÆyeia als Wesensanfang und –grund der fÊsiw. (HEIDEGGER: Heraklit, p. 171 [trad. port., p. 182])
Aquilo que de maneira extremamente sucinta está sendo apontado aqui deve ao menos poder levar já ao reconhecimento de que “a élÆyeia, a desocultação no revelamento [die Entbergung in die Unverborgenheit], é a essência da fÊsiw, do surgir, e é igualmente o traço fundamental do modo como alguém que é, deus e homem, se relaciona com a élÆyeia, na medida em que ele próprio não seja um lay≈n”.125
Assim, se pensarmos radicalmente o primeiro fragmento considerado (fragmento 16) na perspectiva originária do revelamento, “então mostra-se que na essência da fÊsiw, e na essência do que lhe corresponde em desvelamento, a élÆyeia reina como fundamento propriamente originário.”126 Por isto dizíamos antecipadamente ser a élÆyeia o ponto de coesão. Mas para entendermos de maneira conclusiva este ponto de interseção fundamental, devemos sempre voltar a lembrar que aqui não se trata de uma relação de subordinação, mas antes, de condição mútua de possibilidade: “Se porém a élÆyeia é o fundamento essencial da fÊsiw, então somente agora compreendemos o nome élÆyeia - ‘re-velamento’ [Un-verborgenheit], ‘des-ocultação’ [Ent-bergung].”127
4.2 LÒgow
A tarefa básica a ser empreendida aqui depende inicialmente em contrariar o estabelecido para poder pressupor que “a palavra grega lÒgow, naquilo que ela propriamente significa, de imediato nada tem a ver com linguagem e discurso.”128 Isto desde que saibamos distinguir que aqui Heidegger alude à linguagem no sentido tradicional da “capacidade de enunciar”.129 Não obstante, mesmo o “enunciar” (Aussagen), em sua radicalidade, remete ao “essencial no lÒgow”, desde que se contemple “o dizer no sentido de tornar manifesto.”130 Por isto não pode ser tomado
125 HEIDEGGER: Heraklit, pp. 173-74 [trad. port., p. 184]. 126 HEIDEGGER: Heraklit, p. 174 [trad. port., p. 184]. 127 HEIDEGGER: Heraklit, p. 175 [trad. port., p. 185].
128 HEIDEGGER: Heraklit, p. 215 [trad. port., p. 226]. “Assim encontramos em Parmênides a aguda
oposição entre lÒgow e gl«ssa (frag. VII, v. 3 ss.).” (HEIDEGGER: Einführung in die Metaphysik, p. 132 [trad. port., p. 190; trad. bras., p. 194])
129 “O lÒgow foi romana e medievalmente apreendido como enuntiatio, enunciado; igualmente como
propositio, proposição, colocação, e isto significa então, como recta determinatio iustorum, a correta determinação da justiça, iudicium, juízo; lÒgow é enunciar, é judicar. Os elementos dos juízos são os conceitos. Os próprios juízos se conjugam entre si na forma de seqüências conclusivas (‘sentenças’).” (HEIDEGGER: Heraklit, p. 222 [trad. port., p. 233]) Em contrapartida, o lÒgow será linguagem “onde o enunciado topa com o indizível.” (HEIDEGGER: Heraklit, p. 216 [trad. port., p. 227])
como contraditória a seguinte admissão: “por outro lado, está livre de dúvidas que lÒgow, e o seu verbo l°gein, já cedo entre os gregos significa tanto ‘falar’ quanto ‘dizer’.”131 Pois basta entender que a busca pela significação originária não visa anular as determinações metafísicas, mas antes as remeter ao seu fundamento encoberto. Neste caso, “a essência do dizer, em sua experiência grega, repousa no l°gein.”132 Para aquém desta distinção, este sentido originário do LÒgow, no que tange à fenomenologia de Heidegger, é fundamental condição de entendimento para a mesma. É o que já transparece desde o §7 de “Sein und Zeit”.133
Por conseguinte, o que se buscará é tratar da “necessidade de uma questão renovada da significação originária do LÒgow”134, dado que nas modulações históricas de sua conceptualidade metafísica o lógos sofreu excessivas apropriações que contribuíram substancialmente para que o mesmo permanecesse soterrado em sua abertura de significação originária.135 Por conseguinte, urge perguntar por aquilo que “acerca do lÒgow permaneceu impensado no pensamento dos gregos e por que deveria permanecer impensado na medida em que este impensado ainda permaneça conservado para o pensamento ocidental como o que deve ser primeiramente pensado.”136 Isto significa que devemos perguntar aqui pela “amplitude de oscilação” desta palavra originária essencialmente fundamental. Inclusive, será por isto então que em relação a Heráclito o lÒgow “é o que há de mais obscuro na obscuridade deste pensador.”137
Acerca disto deve-se ressaltar que o mais obscuro é o mais rico em possibilidades. O respeito (resguardo) por esta mesma obscuridade, preservada como tal, é condição para que antes mesmo que empreendamos a análise que percorrerá os fragmentos de Heráclito que façam alusão ao lÒgow nos resignemos em saber que Heráclito, em nenhum de todos os seus fragmentos legados, diz explicitamente o que é o lÒgow. Ao menos, não “ao modo de um esclarecimento e de uma determinação conceitual.”138 Será justamente este não dizer que abrirá para nossa ausculta. Assim sendo, o que devemos conquistar é a essencial polissemia originária do lÒgow que não deverá ser
131 HEIDEGGER: Heraklit, p. 239 [trad. port., p. 252].
132 HEIDEGGER: Vorträge und Aufsätze, p. 235 [trad. port., p. 216]. Cf. tb. HEIDEGGER: Einführung in
die Metaphysik, p. 130 [trad. port., p. 188; trad. bras., p. 192].
133 Cf. HEIDEGGER: Sein und Zeit, pp. 32-34 [trad. port., vol. I, pp. 62-65]. 134 HEIDEGGER: Heraklit, p. 238 [trad. port., p. 251].
135 “O lÒgow é o fundamento velado da história ocidental.” (HEIDEGGER: Heraklit, p. 240 [trad. port.,
p. 253])
136 HEIDEGGER: Heraklit, p. 240 [trad. port., p. 253]. 137 HEIDEGGER: Heraklit, p. 242 [trad. port., p. 255]. 138 HEIDEGGER: Heraklit, p. 247 [trad. port., p. 259].
univocamente reduzida, mas preservada como tal, para que através desta sua multivocidade alcancemos uma abertura de sentido que acolha as possibilidades de significações radicadas no lÒgow.