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Encadré : Construction d'une courbe de Farmer

3.2.2. Effets indirects et vulnérabilité

A metodologia utilizada nesta investigação é a pesquisa narrativa e autobiográfica por possibilitar que os professores pesquisados pudessem refletir sobre sua prática e expressá-la por meio da narrativa.

A pesquisa narrativa é muito utilizada na educação por dar evidência à experiência vivida pelo pesquisado e por facilitar o estreitamento do laço entre pesquisador, pesquisa e pesquisado.

Se as palavras não são apenas uma representação da realidade, mas uma forma de construir uma realidade humana, ou de humanizar a realidade transformando-a em discurso, propomo-nos a começar pela etimologia do termo experiência, que evoca sua natureza cambiante e sua estreita relação com a formação humana.

O termo experiência, como se sabe, deriva do latim experientia/ae e remete à “prova, ensaio, tentativa”,o que implica da parte do sujeito a capacidade de entendimento, julgamento, avaliação do que acontece e do que lhe acontece. (PASSEGGI, 2011, p. 148)

O conceito de experiência trazido pela autora ressoa na educação porque valoriza a história que os professores edificam ao longo da carreira docente, bem como permite refletir sobre essa história como parte integrante do sujeito.

Nesse sentido, Larrossa (2011, p. 5) ressalta a experiência com o olhar para a educação e lembra que:

A experiência é "isso que me passa". Vamos primeiro com esse isso. A experiência supõe, em primeiro lugar, um acontecimento ou, dito de outro modo, o passar de algo que não sou eu. E "algo que não sou eu" significa também algo que não depende de mim que não é uma projeção de mim mesmo, que não é resultado de minhas palavras, nem de minhas ideias, bem de minhas representações, nem de meus sentimentos, nem de meus projetos, nem de minhas intenções, que não depende nem do meu saber, nem de meu poder, nem de minha vontade. "Que não sou eu" significa que é "outra coisa que eu", outra coisa do que aquilo que eu digo, do que aquilo que eu sei, do que aquilo que eu sinto, do que aquilo que eu penso, do que eu antecipo, do que eu posso, do que eu quero.

É preciso entender a experiência pelo viés da subjetividade, evidenciando a necessidade da interpretação dessa experiência para a presente pesquisa.

A experiência pode ser expressa, de forma sintética, como aquilo que permaneceu do que foi vivido e vivenciado, aquilo que ressoou e ficou. Entretanto, ela ganha novo significado no contexto da narrativa,uma vez que permite uma reconstrução da realidade por meio da palavra.

A narrativa não consiste na busca pela fidedignidade dos fatos, como uma investigação policial ou jornalística em que são checadas fontes, documentos históricos para averiguar a cronologia e veracidade dos acontecimentos. A narrativa, por sua vez, valoriza o que é contado por aquele que viveu a experiência e, por conseguinte, o sujeito narrador da experiência. História e sujeito são os protagonistas da pesquisa narrativa e é a partir dos relatos que surgirá a investigação.

O ato de narrar a experiência dá ao sujeito a possibilidade de recriar a história, colocando ou retirando elementos da mesma. “Por meio da narrativa nós construímos, reconstruímos, e de alguma forma reinventamos o ontem e o amanhã” (BRUNER, 2014, p.103). Na reconstrução e reinvenção do passado há a renovação do vivido, os fatos passam a ganhar novos elementos de signifcação.

Ainda como ressalta o autor, construir-se por meio do narrar-se é um processo incessante, perpétuo e dialético. Apesar das resolutas homiliadas de que as pessoas nunca mudam, elas mudam sim. Elas reequilibram a sua autonomia e os seus compromissos, de forma a honrar aquilo que foram um dia (BRUNER, 2014, p. 95).

A narrativa permite voltar o olhar para trás,sem saudosismo acrítico, mas na possibilidade de fazer-se historicamente. Ao narrarem sua existência para si mesmos e outros, os entrevistados historicizam-se e contextualizam-se ressignificando seu presente.

A importância da narrativa e da biografia para a educação resultaram na escolha do método (auto)biográfico em complementariedade à pesquisa narrativa.

Conforme ressalta Azevedo (2016, p.29) atrelando à experiência, o método biográfico configura-se

como instrumento de investigação pelo fato de a narrativa ter a capacidade de transmitir significado, valor e intenção na medida em que nós, seres humanos, somos naturalmente contadores e personagens de nossas próprias histórias e das histórias dos demais. Ao contá-las, externalizamos como experimentamos o mundo e, ainda, o que nos dizem dele e de nós mesmos. É sobre a experiência de pesquisa que contempla esse duplo caráter investigativo e formativo, com a proposição de um curso de extensão no decorrer da pesquisa que este texto apresenta os resultados.

O método biográfico não corresponde somente à narrativa que o sujeito traz de si isoladamente, mas considera as questões sociais, emocionais, históricas, dentre outras presentes na narração.

A experiência narrada é forjada no cotidiano, assim como as experiências presentes se tornarão memória e poderão ser narradas no futuro. Experiências essas que estão marcadas em um tempo histórico, por um contexto.

A atividade biográfica [...] uma atividade mental e comportamental, a uma forma de compreensão e de estruturação da experiência e da ação, exercendo-se de forma constante na relação do homem com sua vivência e com o mundo que o rodeia. A utilização dos termos biografia e biográfico para designar não a realidade fatual do vivido, e sim o campo de representações de construções segundo as quais os seres humanos percebem sua existência. (DELORY-MOMBERGER, 2012, p. 525).

Não se trata de imergir na realidade da história narrada, mas na realidade do campo das representações construídas pelos sujeitos que narram sua própria experiência e ainda entender a realidade baseada na continuidade – passado, presente, futuro (CLANDININ; CONNELLY, 2011, p. 84).

As características da metodologia supracitada encontram grande receptividade no campo das ciências humanas por favorecerem a experiência do sujeito, marcando assim o sentido da presença e da realidade vivida para constituição dos dados de pesquisa.

O objeto da pesquisa biográfica é explorar os processos de gênese e de devir dos indivíduos no seio do espaço social, de mostrar como eles dão forma a suas experiências, como fazem significar as situações e os acontecimentos de sua existência (DELORY- MOMBERGER, 2012, p. 524).

Ao se tratar a formação pedagógica, verifica-se que “[...] o método biográfico constitui uma abordagem que possibilita ir mais longe na investigação e na compreensão dos processos de formação e dos subprocessos que o compõem” (NÓVOA; FINGER, 2010, p. 25). Tal abordagem encontra receptividade no processo de formação pedagógica porque, ao relatar as experiências práticas e relacioná-las à formação, os sujeitos estabelecem relações entre as experiências vividas na sua própria formação e como as mesmas contribuem ou não na sua atuação docente.

Como ressaltado por Nóvoa e Finger (2010) os processos formativos encontram bases no método biográfico por facilitarem a compreensão de que educadores tendem a repetir a educação que tiveram e também a formação contínua após a formação inicial.

O método de narrativa com a perspectiva da (auto)biografia e suas características guarda relações com a necessidade e o interesse de investigação desta pesquisa.

É preciso considerar que nem toda pesquisa narrativa trabalha com o método (auto)biográfico; essa escolha se deu por corresponder à temática pesquisada, bem como por permitir confirmar ou refutar as hipóteses levantadas a partir do problema de pesquisa.

[...] o método (auto)biográfico é uma via passível de produzir conhecimentos que favoreçam o aprofundamento teórico sobre a formação do humano e, enquanto prática de formação, conduzir o diálogo de modo mais proveitoso consigo mesmo, com o outro e com a vida (NÓVOA; FINGER, 2010, p. 16).

Tendo como base a conceituação das narrativas (auto)biográficas, foram convidados sujeitos com vivência da tecnologia em sala de aula para que pudessem relatar uma experiência.

Foram coletadas narrativas de seis professores, dos quais cinco tiveram entrevistas realizadas online, por meio do aplicativo móvel WhatsApp e por e-mail; uma narrativa foi feita pessoalmente, utilizando-se de câmera de vídeo e gravador para registro. As transcrições integrais das narrativas encontram-se no apêndice 2 deste trabalho.

O registro pelo aplicativo whatsapp se deu por troca de mensagem de texto. Embora o aplicativo permita uma comunicação assíncrona, as narrativas realizadas pelos participantes se deram em uma comunicação síncrona que permitiu verificar possíveis dúvidas no momento em que as narrativas eram escritas. O que fugiu à essa possibilidade foi apenas a comunicação por e-mail.

O registro digital e o relato possibilitaram aos sujeitos revisitarem suas práticas relatadas de forma a repensar em que medida a formação inicial contribuiu para a prática realizada em sala de aula, tema base desta pesquisa. Durante o relato, algumas vezes houve necessidade de maior aprofundamento e, ainda, verificação da compreensão das experiências narradas, transformando o momento do relato em um diálogo, em especial quando utilizado o WhatsApp.

Assim, assume-se nesta pesquisa o caráter qualitativo e investigativo que se desenvolverá na metodologia da pesquisa narrativa (auto)biográfica e com a abordagem hermenêutico-fenomenológica para a análise das narrativas dos sujeitos pesquisados. Mais informações sobre ambas estarão disponíveis nos itens que se seguem.