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Na presente secção, tentarei compreender as mudanças que ocorreram no período de vigência da ditadura salazarista/marcelista, estabelecendo ligação com os dias de hoje. Com este “salto” cronológico, pretendo perceber o lugar que ocupa a tradição atualmente, em plena era “moderna” / “pós-moderna” (Giddens et al., 2000; Giddens, 2002).

Como já referi anteriormente, a visão mais tradicional-conservadora do regime perdurou, sobretudo, até aos anos cinquenta, existindo uma constante tensão entre as estruturas tradicionais e modernas. A partir dos anos cinquenta novos contextos floresceram, procurando o regime dar primazia às estruturas modernas, nomeadamente ao nível tecnológico, da informação (cedida em massa, às massas) e, também, dos consumos culturais. Como constata Daniel Melo (2010: 105), nos anos cinquenta e sessenta houve uma matização da dimensão mais tradicional de cultura, em prol de uma dimensão mais modernista, “de massas e populista (assente na questão técnico- profissional, numa mundivisão mais híbrida e pragmática e na apropriação de alguns fenómenos de massas)”. Apesar de uma visão mais pragmática da dimensão cultural, conciliada com a indústria cultural massificada, nunca deixou o regime de conceder particular relevância à vertente nacionalista, reforçando a importância da manutenção da verdadeira identidade nacional.

Com o desenvolvimento dos Estados modernos, a dicotomia entre cultura popular e cultura tradicional torna-se redutora; com a “mercantilização da produção cultural” (Santos, 1988: 698) e a entrada em cena da chamada “cultura de massas” há, segundo Maria Lourdes Lima dos Santos (1988: 701), uma “mobilidade e intercomunicabilidade [entre as] diferentes formas culturais”. A autora afirma ainda que “o alargamento do público e da reprodutividade dos bens culturais, a que progressivamente se iria assistindo com o avanço da industrialização e do capitalismo, repercutir-se-ia com efeitos contraditórios sobre a inevitável reavaliação das legitimidades culturais” (idem: 700).

Neste contexto de entrada nas estruturas modernas da sociedade, a tradição ganha outro peso e valor. É sobre essa transformação que se irá refletir, tendo em conta as perspetivas de Giddens (2000 & 2002) e, também, de Ulrich Beck (2000).

Giddens, no seu livro As Consequências da Modernidade (2002), realiza uma análise institucional deste tempo. Segundo este investigador, o termo “modernidade” “refere-se a modos de vida e organização social que [emergiram] na Europa cerca do século XVII” (Giddens, 2002: 1) e que acabaram por adquirir relevância global. O autor alerta, ainda, para as transformações que ocorreram a nível mundial no século XX, e que levaram à alteração do prisma em torno da “modernidade”, então redefinida como “pós- modernidade” (Jean-François Lyotard), “pós-modernismo”, “pós-capitalismo” ou sociedade “pós-industrial”, designações que sugerem que um conjunto de coisas se aproxima do seu fim e que um novo período se inicia (idem, ibidem).

Giddens opõe-se à ideia de “pós-modernidade”, referindo antes que nos encontrámos numa época em que as consequências da modernidade se tornam preponderantes, estando a viver-se a “fase da sua radicalização” (Giddens, 2000: 35). O autor alerta, de igual modo, para o dinamismo e alcance globalizante da “modernidade”, para o seu caráter reflexivo (Giddens, 2000: 11).

No seio das sociedades modernas há um contraste direto com as sociedades tradicionais, contudo, como sublinha Giddens (2002: 27), “mesmo na mais modernizada das sociedades modernas, a tradição continua a desempenhar um papel”, ainda que menos significativo do que o era no passado. Nas sociedades tradicionais, o passado era reverentemente respeitado, bem como os seus símbolos, resguardados e transmitidos de geração em geração, sendo a tradição “um modo de integrar o controlo reflexivo da acção na organização espácio-temporal da comunidade (…) um meio de lidar com o tempo e o espaço” (Giddens, 2002: 26).

Um ponto que deve ser ressalvado é o de que, mesmo nas sociedades/culturas tradicionais, a tradição não tem um caráter estático, mas dinâmico, sendo reinventada por cada geração. Além disto, não assume uma resistência face às mutações por que vai passando a sociedade ao longo dos tempos, sendo readaptada às diferentes estruturas e contextos (Giddens, 2002).

Na perspetiva de Giddens, a reflexividade é um ponto capital, tanto nas sociedades “pré-modernas”, como nas sociedades “modernas”. Segundo o autor, nas sociedades “pré-modernas”, a reflexividade era marcada pela constante reinterpretação e clarificação da tradição, sendo esta considerada a “cola que une as ordens pré-modernas” (Giddens, 2000: 59). Por sua vez, nas sociedades “modernas”, a reflexividade está intimamente ligada com as práticas sociais, que em todas as culturas se vão modificando “à luz de descobertas progressivas” (Giddens, 2002: 27).

A modernidade está intrinsecamente ligada à globalização, sendo definida pela “intensificação das relações sociais de escala mundial” (Giddens, 2000: 45), permitindo a conexão de realidades distantes que se vão influenciando mutuamente, tornando-se as relações sociais significativamente distendidas. Como Giddens (2002: 76) afirma, “o local e o global tornaram-se inextricavelmente interligados”. Além disto, esta extensa e significativa amplitude das relações sociais faz refletir sobre outra característica fundamental da modernidade: a deslocalização. Segundo Giddens (2002: 98), esta permite uma maior abertura e inserção dos indivíduos em diversos “cenários culturais e de informação globalizados”, levando a um menor grau de familiaridade e intimidade tão características dos “cenários culturais” do passado.

Beck (2000) atenta noutra característica muito presente nas sociedades modernas: a individualização. Nas sociedades “pré-modernas” o sentido de comunidade e de partilha era muito forte, ao invés das sociedades “modernas”, em que o indivíduo é muito mais fechado sobre si mesmo, provocando-se um esbatimento nas vivências coletivas, tão características, por exemplo, das pequenas sociedades rurais.

Giddens (2000: 53) refere mais um aspeto particular, o da utilização e recriação da tradição por parte dos poderes políticos, como instrumento útil para a sua legitimação, como tenho vindo a referir ao abordar o contexto português do Estado Novo. Segundo o autor, “a tradição mantinha em statis alguns aspectos centrais da vida social (incluindo a família e a identidade sexual)”.

Além do exposto, é importante referir algumas características que são atribuídas à tradição nas sociedades modernas. A tradição continua a ser considerada como uma

orientação para o tempo pretérito; o seu caráter moral confere segurança ontológica, exercendo influência no presente e no futuro; além disto, a tradição também é considerada orgânica, porque, segundo Giddens (2000: 60), pode desenvolver-se e amadurecer, mas também enfraquecer e desaparecer. A tradição é ainda repetição, de práticas, rituais e saberes, sendo encarada como um “meio de identidade” (Giddens, 2000: 77), coletiva e individual, por estar “enraizada em contextos locais” (idem: 78). Por fim, também é um importante veículo de organização da memória coletiva, encarnada na figura dos guardiães (Giddens, 2000: 60), que transmitem os saberes às gerações mais novas, assumindo um papel de mediadores entre o tempo passado e presente.

Em suma, ainda que nas sociedades denominadas por Giddens também como “pós- tradicionais” (2000: 103) o lugar da tradição não seja tão relevante, pela globalidade e pluralidade cultural que nela estão incorporadas, esta não deixa de ter a sua relevância, assumindo novas formas nesta sociedade preenchida por espaços e tempos indefinidos e por uma nova ordem social. Uma sociedade em que “os laços sociais têm de ser construídos, ao invés de herdados do passado” (idem, ibidem). Esta é uma premissa importante que permitirá compreender as transfigurações culturais observadas na sociedade em estudo.

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