O problema não reside em criticar uma Psiquiatria reputada de clássica, denunciando o coisismo e as reificações, para, em seguida, a reformar ou revolucionar fenomenologicamente - mas, sim, o de descrever o seu aparecer, os seus modos de constituição e a estrutura do seu campo: trata- se menos de uma Psiquiatria que seria fenomenológica em vez de ser organicista ou psicanalítica, do que de uma fenomenologia da Psiquiatria, descrição que não cria nem critica o seu objeto, antes o deixa aparecer tal como ele se manifesta. Noutros termos, diríamos que a única questão puramente fenomenológica, neste domínio, é a da essência da Psiquiatria. (Lanteri-Laura, 1983)
O grande valor dado à produção e ao domínio do conhecimento técnico- científico acaba por vezes soterrando a reflexão necessária sobre a importância do psiquiatra como um sujeito da sociedade e agente de conhecimento na prática clínica. Por vezes em situações corriqueiras da clínica fica menos evidente a limitação que uma prática exclusivamente baseada em protocolos genéricos do conhecimento científico traz para a intervenção. Nessas situações também são apagados com facilidade o valor do saber prático e a virtuosidade que reside em seu apelo e no apelo à reflexão ética na tomada de decisão. Por isso mesmo, aqui se buscou aquelas situações-limite. Em razão de sua tragicidade (Freitag e Ricoeur), tais situações tornaram claras as limitações ao revelarem imediatamente a complexidade da tomada de decisão em Psiquiatria.
As internações involuntárias revelam as tensões da especialidade em seus diversos ângulos: histórico, epistemológico e nosológico. Considerada outrora a mais sombria das práticas psiquiátricas, em especial pelos disparates feitos em nome de uma ciência de ambições positivistas, a privação de liberdade de um indivíduo em nome do bem-estar social e da própria saúde do sujeito é uma decisão-limite que expõe os diferentes conflitos da especialidade.
demanda social pelo conhecimento e controle dos comportamentos anormais. E a ciência psicopatológica desenvolvida a partir daí não pôde mais ser separada desse imperativo ético. As internações psiquiátricas, por exemplo, resultam não somente do zelo pela saúde do enfermo, mas principalmente para proteger a sociedade dele. Não se pode, assim, pensar e exercer a Psiquiatria sem considerar o ambiente normativo e cultural no qual ela está exercida, bem como os valores implícitos de quem a exerce. Estudar essa prática de forma sistematizada e continuada é, e deve ser, um compromisso dos psiquiatras com a sociedade.
O que a presente pesquisa revelou foi que a prática psiquiátrica é e será influenciada, ao menos nos casos difíceis, pelos aspectos subjetivos do psiquiatra. A personalidade, as experiências de vida, as crenças e valores são coadunados, por meio do habitus, a diferentes matrizes teóricas no momento da decisão do profissional. Pode-se assim dizer que a complexidade da prática psiquiátrica em sua abordagem e tratamento dos transtornos mentais é devida à dependência da mesma em relação aos valores e virtudes dos psiquiatras. Juntos, valores e virtudes compõem os elementos subjetivos presentes na situação e necessários para uma ação prudente e racional.
Essa subjetividade é um tema espinhoso, complexo e, na maior parte das vezes, relegado ao segundo plano na formação dos psiquiatras. Apesar da Psicologia médica eventualmente trazer para o debate a subjetividade do paciente em sua experiência singular de sofrimento, as experiências subjetivas do médico são tomadas ora como esgotamento (quando poderá receber o diagnóstico de síndrome de burnout), ora como temática individual diante das dificuldades da profissão (o que poderá ser tratado individualmente em sessões de análise). Claro que tais situações
podem ensejar um cuidado individual, o qual é da maior importância para amparar o psiquiatra em seu desenvolvimento pessoal e profissional. Mas o que foi trazido à tona aqui é que na Psiquiatria as vivencias subjetivas estão imbricadas na atividade clínica de forma enredada, ou seja, que as questões relativas às dificuldades do ofício têm impacto direto e tácito no exercício do mesmo.
Esse estado de coisas da Psiquiatria remonta à sua constituição enquanto especialidade da Medicina dentro de uma espécie de encruzilhada epistemológica: de um lado, a metodologia própria das ciências naturais que permitia a descrição e categorização dos transtornos mentais; de outro, os limites do conhecimento biológico e a dimensão valorativa do próprio sofrimento que recrutava o apoio das chamadas ciências humanas e que se tornou indispensável para a compreensão e intervenções sobre os transtornos mentais. A Psiquiatria constituía-se, assim, como uma especialidade híbrida, característica essa que persiste até os dias de hoje.
Jaspers já apontava para isso em O médico na era da técnica. Dizia ele que “no fim do século XVIII, a Psiquiatria foi aceita no círculo das disciplinas médicas científico-naturais. Mas permaneceu uma disciplina estranha. Pertence tanto às ciências do espírito como da natureza” (Jaspers, 1998, p. 47). O psiquiatra, então, registraria, em sua transição para a filosofia, os limites científicos da especialidade. Nas palavras do autor, “a Psiquiatria, tal como a psicologia, é uma ciência apenas na medida em que algo, no tocante à alma, a determina objetivamente, algo distinguível, identificável objetivamente e, por isso, pesquisável”. E concluía ele, indicando a relevância da experiência nessa cientificidade: “de mais a mais, só é ciência graças à experiência – que impele a uma concreção concludente – quer seja experimental,
estatística ou biográfica, quer seja na observação de movimento formas, figuras ou no trato com o homem” (Jaspers, 1998, p. 47).
A experiência da qual fala Jaspers só se transformará em conhecimento à medida que puder ser ouvida, reconhecida e examinada. Foi o que se fez aqui ao analisar os depoimentos de jovens psiquiatras quando confrontados pelos desafios do seu cotidiano profissional. Nas palavras de Habermas (1989),
Erraríamos a constituição de um mundo da experiência se elegêssemos como paradigma o âmbito objetual do conhecimento científico e não percebêssemos que a ciência está enraizada no mundo da vida e de que este mundo da vida constitui o fundamento de sentido da realidade cientificamente objetivada. À teoria da constituição do conhecimento da natureza tem que anteceder, portanto, uma teoria do mundo da vida [...] (p. 40, tradução livre).
O modo singular como cada um dos residentes tomou suas decisões diante dos casos difíceis demonstrou que os fatos científicos, os valores sociais e as virtudes do psiquiatra são inseparáveis na clínica psiquiátrica, e revelou o que pode ser considerado a essência da especialidade enquanto prática médica: o inextricável amálgama entre o mundo da vida e a ciência aplicada pelo psiquiatra.