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Como acompanhar estes tempos de convulsões sociais, culturais e informativas? A quem caberá o papel de moderar a tradição e a modernidade? Quem assumirá a difícil tarefa de procurar estabelecer um equilíbrio entre o antes e o agora? As certezas os valores e encontram-se imprecisos, a infalibilidade dos dogmas é questionada, as convicções dão paulatinamente o lugar

à dúvida, ao questionamento e à reformulação de conceitos. Já nada é o que era. O que antes era uma certeza agora é uma possibilidade entre outras. As novas gerações defrontam-se com a variabilidade das coisas, com o carácter flutuante dos saberes, desorientados entre o que é e o que poderá vir a ser, entre as certezas das tradições e a dubiedade do futuro. Gerir a inconstância e a versatilidade dos acontecimentos exige uma maturidade que os mais jovens ainda não adquiriram nem desenvolveram.

À escola, a par dos outros agentes educativos, exige-se capacidade de adaptação e acompanhamento dos tempos modernos, de adequação aos novos meios de aprendizagem, de integração dos mesmos no processo educativo. E se esta necessidade de integração da grande pluralidade de visões da realidade, heterogénea e multifacetada é uma necessidade presente, já anteriormente Pretto (1996) reconhecia que a nova escola deverá “superar a actual ainda calcada nos velhos paradigmas da civilização em crise e que não conseguiu solucionar os problemas propostos pela própria modernidade.” (Pretto, 1996, p. 98).

Uma figura assume um papel fundamental nesta mudança do paradigma educativo. O professor surge como agente de mudança por excelência ao possibilitar a adequação das estruturas programáticas, emanadas pelo Ministério da Educação, às novas formas de aceder à informação e produzir conhecimento.

Dos professores espera-se sempre muito. Espera-se que seja um mediador atento à evolução e ao progresso, espera-se que estabeleça pontes estruturantes entre os saberes básicos e tradicionais, frutos da experiência humana, e a inovação e a mudança. Pede-se aos professores que melhorem “as falhas de outras instituições, também elas com responsabilidades no campo da educação e formação dos jovens”. (Delors, 2003, p. 26). Ao professor exige-se sempre mais; a par da tarefa de instruir e educar, exige-se também que domine as tecnologias, que seja um expert nas novas ferramentas educativas, que acompanhe a mudança e seja capaz de estabelecer pontes entre todos estes saberes.

Pede-se-lhes muito, agora que o mundo exterior invade cada vez mais a escola, principalmente através dos novos meios de informação e comunicação. De facto, os professores têm na sua frente jovens cada vez menos enquadrados pelas famílias (…) mas cada vez mais informados (Delors, 2003, p. 26).

Ao professor são atribuídos as mais díspares funções, a ele se exige a consecução de todas elas, de forma a transformar os alunos em indivíduos preparados para “enfrentar o mundo movediço em que terão de viver” (Bruner, 1996, p. 42), indivíduos com competências nos vários domínios do saber e das tecnologias, que permitam aos alunos tornar-se cidadãos activos e produtivos, integrados numa sociedade em permanente renovação.

O professor não é mais um agente passivo no processo de transmissão de informação. Adequações estratégicas, integração de novas formas de comunicação, actualização de saberes, aplicação dos mesmos a situações gerais e concretas passam ser aspectos que tem de considerar na sua prática profissional. Passa a assumir-se como “um centro irradiador de conhecimento”, integrando a função de “comunicador, articulador das diversas histórias, das diversas fontes de informação”. (Pretto, 1996, p. 115). Na mesma linha de pensamento, e mais recentemente, Canário refere igualmente que o professor,

além das suas várias funções (informação, supervisão, avaliação) tem como responsabilidade fundamental contribuir para oferecer aos alunos situações de aprendizagem pertinentes, em relação ao público e ao contexto; serão cada vez mais “os criadores de sentido” para um trabalho escolar que possa ser vivido pelos alunos como uma „expressão de si.‟ (2006, p. 48).

O trabalho do docente surge assim como um trabalho de criação, num contínuo processo de despertar os discentes para o “carácter mutável” dos saberes e “torná-los permeáveis à ideia de que o conhecimento não se esgota nos conteúdos dos programas escolares.” (Santos, 2000, p. 67). Delors fala mesmo de uma passagem do docente de „solista‟ a „acompanhante‟. De único detentor do saber, ser omnisciente, arauto do conhecimento e da sapiência, o professor passa a ser aquele que ajuda os seus alunos a encontrar, organizar e gerir o saber. E se o saber se pode adquirir de várias maneiras e se as novas tecnologias no contexto escolar se têm revelado eficazes, Delors salienta que para “quase todos os alunos, em especial os que não dominam ainda os processos de reflexão e de aprendizagem, o professor continua indispensável.” (2003, p. 156). Carlos Reis refere-se ao professor de Português como “agente do desenvolvimento curricular” (2008, p. 9).

Ele poderá contribuir de forma extraordinariamente profícua para uma melhor inserção dos jovens e adolescentes no mundo da informação e da sociedade do conhecimento. O professor

constitui um apoio indispensável na orientação, pesquisa, selecção, reflexão e produção de conhecimentos. Antes de mais, é um guia e orientador das aprendizagens, peça fundamental na regulação das interacções dos trabalhos dos alunos. Cabe-lhe a tarefa de promover competências de pesquisa e de autonomia nos discentes, orientando-os nesse processo, aconselhando-os, elucidando-os, esclarecendo dúvidas e dando sugestões. Deverá sobretudo “explicar-lhes que informação não é conhecimento e que este exige esforço, atenção, rigor e vontade”. (Delors, 2003, p. 26). Algo que os tempos actuais não contemplam nesta ânsia de produzir, informar e divulgar. As transformações são complexas e não há tempo para uma análise reflectida e rigorosa. Os alunos recusam as tradicionais metodologias passivas de memorização e repetição, e exigem, em contrapartida, toda uma dinâmica que lhes suscite interesse e os leve a aderir às matérias e aos conteúdos. Teresa Calçada refere que a rápida alteração dos sistemas de informação e comunicação mudaram “de forma radical as necessidades sociais da informação e de conhecimento, com repercussões inevitáveis na aquisição de outras competências, designadamente nas formas de apropriação da leitura, da escrita da comunicação.” (2010, p. 33).

Afigura-se, assim, importante e necessária uma alteração da relação pedagógica. A relação passiva emissor-destinatário, centrada no docente e dirigida ao discente, não tem espaço dentro da escola do século XXI sob o risco de desmotivar e afastar progressivamente as novas gerações do fascínio de aprender e descobrir. Um saber orientado e elucidativo, com a exigência de uma atitude proactiva por parte dos alunos e não apenas como meros consumidores da informação. Transformar os alunos de consumidores em produtores é algo que se deseja e ambiciona mas sozinhos os discentes terão dificuldades em contextualizar, seleccionar, integrar e renovar os conhecimentos adquiridos. O trabalho colaborativo assume um papel fundamental neste processo de aprender.

É preciso (re)novar – e em alguns aspectos substituir uma escola que tem sempre a tendência de dar respostas, de apresentar proposições, conclusões, por uma escola que mobilize verbos formativos: agir, pensar, (re)inventar, interagir, relacionar, aprender, conviver numa aventura de ser… (Medeiros, 2006, p. 100).

E tudo isto passa, inegavelmente, pela pessoa do docente, primeiro responsável pela formação dos alunos no espaço escola. Alunos competentes na compreensão, interpretação, apropriação, reflexão e expressão de conhecimentos; alunos com capacidade de compreender o mundo que os rodeia, com habilidades científicas, técnicas e tecnológicas que lhes possibilitem encarar os

desafios da actualidade, com aptidões para que possam vencer nesta era da aprendizagem contínua e sempre inovadora. Cabe pois ao professor a “difícil tarefa de educar onde tantos falham”. Cabe-lhes, além disso, a difícil tarefa de encontrar “o justo equilíbrio entre a tradição e a modernidade, entre as ideias e as atitudes próprias da criança e o conteúdo dos programas” (Delors, 2003, p. 153).