O que era um Brasil crescente de movimentos no fim da década de setenta, se tornara um declínio em massa dos movimentos em menos de cinco anos depois. Apresentando um declínio rápido pelo próprio conflito interno dentro das dissidências dos movimentos, o Movimento homossexual perdia um número grande de organizações mobilizadoras. O II EBHO previsto para acontecer no Rio de Janeiro em 1981, somente acontece em Salvador, em 1984. Foi o encontro que obteve a melhor cobertura jornalística de todos os eventos do movimento homossexual (SILVA, 2011, p. 178). O segundo encontro teve a participação de 40 participantes entre sete grupos envolvidos. Este número cai ainda mais entre o período de 1984 e 1989.
Não resta claro o motivo da queda na organização dos movimentos nesta época, uma das razoes prováveis é que o movimento homossexual, que lutava pela redemocratização, inseria-se em outros movimentos de abertura política no Brasil, de forma que as grandes frequências dos movimentos caíssem, uma vez que um homossexual já não sofria tanto como sofrera no início de 1980. Muitos deles eram pertencentes a classe média, e assim a ilusão de mudança social era somente uma questão de tempo. Em 1982 acontece a fundação do Partido dos Trabalhadores – PT, e já existia a ideia de que a homofobia era algo que talvez se tornaria algo do passado mediante aos novos ares de liberdade. (SILVA 2011). Após a constituição de 1988, aonde se inicia uma política de concessões aonde governos criariam espaços para aqueles movimentos que antes se encontravam periféricos. A retirada da homossexualidade do código de doenças mentais em 1985 representa uma vitória das mobilizações realizadas em 1982, mas a inclusão de “orientação sexual” na nova constituição não acontece. Silva (2011) explicita que em 1987, João Antônio Mascarenhas é convidado a participar da constituinte, mas que os esforços para a inclusão de “orientação sexual” na constituição acabam sendo derrotado pelas alianças conservadoras na assembleia constituinte.
A redemocratização retirou, de uma forma, um dos motivos mais importantes quanto a mobilização, que é o cerceamento da liberdade. Apesar de se existir uma liberdade social ainda que limitada por preconceitos, a perseguição política que em tese havia acabado foi, de certa forma, uma das maiores motivações para a produção de publicações como o Lampião. Facchini (2002) relata que é possível perceber que “um jornal publicado para lutar contra a censura” teria, de qualquer modo, dificuldade para sobreviver ao fim da censura. Outro fator é o entendimento que a maioria dos grupos se encontravam dentro do eixo Rio- São Paulo, enquanto os outros grupos seguiam as propostas e agenda destes para se manterem ativos, ou seja, era necessário que houvesse um sentimento de pertencimento a um alvo/grupo maior. Facchini, apresenta um trecho de uma entrevista realizada por Silva ao qual menciona que a extinção do Lampião implicava na extinção da discussão sobre a homossexualidade. (FACCHINI 2002, p. 74 e 75)
O aparecimento da AIDS no Brasil em 1982 e 1983 causou um imenso impacto na comunidade gay. Enquanto a AIDS aumentava a discriminação pública dos homossexuais, chamando-a de peste gay (SILVA 2011, p.187). Inúmeras vítimas se fizeram nesta época, a qual ainda não se entendia tanto a forma de ação da doença quanto a sua transmissão. Entendia-se que, por ser gay, o indivíduo estava automaticamente internalizado na caracterização de “risco” por esta em um grupo ao qual agia de forma “promiscua”. Na
pratica, acabou estimulando o retorno daquela discussão de discriminação e sociabilidade que existia nos idos da “primeira onda”. O discurso de solidariedade, frente a tantos preconceitos, tanto da categoria médica, quanto da sociedade, e principalmente frente a uma doença endêmica a qual não se existia cura, trouxe para a arena de discussão instituições públicas as quais no passado seriam inimagináveis a sua participação. Para Silva, não há como separar nesta época, o movimento de luta contra a AIDS e o movimento homossexual porque são história que se cruzam permanentemente. Isso acontece pelo fato da AIDS ter atingido, em tamanha proporção a comunidade gay, de tal forma que acontece não somente um novo levante do movimento, como também uma nova forma de estrutura organizacional, dentro do que veremos como a “segunda onda”.
2.8. A “segunda onda” e as organizações pós-redemocratização
A “segunda onda” do movimento surgiu com atitudes que vieram com o aprendizado dos problemas gerado pela “primeira onda”, e também foi o momento em que as organizações passam a testar a estrutura democrática. Nesta época duas organizações se destacam: a GGB e a Triangulo Rosa. Um fato é que eles não necessariamente surgiram depois da desmobilização dos movimentos, pelo contrário, estas organizações já se encontravam ativas. As propostas da GGB e do Triangulo Rosa já haviam sido encaminhadas da I e II EBHO (FACCHINI,2002, p.80). Entretanto, os dois grupos tinham direcionamentos diferentes daquelas organizações que compuseram a “primeira onda”. Primeiramente, eles seguiam o movimento internacional, se distanciando um tanto das discussões politizadas que haviam dentro da SOMOS por exemplo. Isso fez com que os dois movimentos tivessem direcionamento maior com a “causa homossexual”.
Havia, por exemplo, uma necessidade de adquirir uma sede fixa e registrar civilmente os grupos, motivo este que foi fundamental na dispersão de diversas organizações. Um exemplo é a GGB, a qual procurou uma sede própria em Salvador de forma a criar um espaço para o diálogo e atividades. Já o Triangulo Rosa foi oficializado, no Registro Civil de Pessoa Jurídica, em 27 de fevereiro de 1985. Ambas as ações de sede própria e registro civil são “contra posturas” aprendidas pela história formada na “primeira onda”. Uma outra postura eram a ênfase dos debates mais politizados e com menos conflitos internos ou posturas de auto-ajuda4. A política tem uma forma de abordagem por estes grupos mais pragmáticas, e menos ancorado nas experiências pessoais.
4 Auto-ajuda era o trocadilho utilizado para relatar os conflitos internos condicionados ao relacionamento