Chapitre II: Effets de la stérilisation par électrons accélérés dans le volume du matériau 119
II.3 Effet de la stérilisation sur la création de composés de faible masse molaire (CFMM)
Parece-nos evidente o fato da inovação pela via da interação social exigir dos produtores santacruzences, habilidades para fazer alianças internas e externas à empresa, com o intuito de aumentar a oferta de confecção de acordo com a demanda da clientela. Tal estratégia resultou em significativas mudanças nas relações hierárquicas organizacionais, como já foi assinalado, sobretudo, na questão da divisão sexual do trabalho, prática facilitadora do fluxo comunicativo que permitiu facilitar o acesso e transbordamento da informação e conhecimento. Isso demonstra que na esfera da organização familiar os bens trocados não ficam limitados ao quesito material, mas, também, simbólicos.
Esta experiência nos remete ao pensamento de Claude Lévi-Strauss (1980) que chamou atenção para o complexo papel da família. De acordo com o autor, para fazer alianças, o homem precisa utilizar uma diversidade de mecanismos. Com isso, Lévi- Strauss evita dar uma explicação monocausal sobre os fenômenos sociais. Para tanto, explica que os laços realizados entre os homens na sociedade, não podem ser explicados apenas pelo viés biológico. Neste caso, a proibição do incesto teria objetivos bem mais ambiciosos; isso significa que a imposição da exogamia no intuito de prevenir os riscos da degeneração humana pela via da relações sexuais consanguíneas, não parece convincente. A questão da reciprocidade entre as famílias tem, aqui, uma interpretação
sui generis, dado seu olhar sociológico e não biologizante; o que evidencia a capacidade
do homem, seja ele primitivo ou moderno, em criar simbologias.
Lévi-Strauss defende a ideia de que a sexualidade ficando restrita aos próprios grupos de origem, incorreria no risco da família limitar as alianças e, com isso, minar sua estabilidade, pela privação de diversos bens necessários à sobrevivência. O intercâmbio ampliado permite aos homens aprender a suprir suas múltiplas necessidades: materiais, afetiva, segurança, etc. Nas trocas, há uma diversidade de bens intercambiáveis. Mais do que mulheres, troca-se palavras, defende o autor. Isso significa que os processos de trocas são mediados pela comunicação (LÉVI-STRAUSS, 2007).
O pensamento de Claude Lévi-Strauss reforça a necessidade da vida relacional ser estruturada pela comunicação. Como fica evidenciado na fala de um microempreendedor:
Não podemos rejeitar as oportunidades. Aproveitamos quem quer colaborar. As dificuldades que passamos, ajuda a entender que não é possível viver rejeitando o que temos de mais importante. Estou referindo de não poder trabalhar sem a ajuda da mulher e de quem a gente conhece e quer trabalhar (ENTREVISTA 32).
A ampliação dos laços afetivos, sob o viés da solidariedade mecânica e orgânica, serviu para maximizar os fluxos comunicacional e informacional. Neste caso, a linguagem forja uma comunidade de produtores cuja sociabilidade permite enfrentar um mercado globalizado a partir das especificidades locais. Aprender a se comunicar, primeiramente nos ambientes domésticos, tem sido um laboratório experimental para criar uma cultura democrática e dotar os produtores de um espírito comunicativo para além das esferas domésticas. Portanto, dialogar com grupos sociais diferentes – a comunidade local – torna as organizações produtivas um bem comum, na medida em que propiciam a inclusão social pelo trabalho.
Se a ideia de comunhão, como diz Strauss (1980), leva ao pensamento único, isto é, viver condicionado aos próprios valores num contexto tradicionalista, a troca mediada pela comunicação significa negociar objetivando o entendimento comum (HABERMAS, 1988); abrindo, assim, caminhos para romper com o patriarcalismo e uma organização familiar fechada pelo grau de parentesco.
O pensamento estruturalista do antropólogo francês nos permite conjeturar que a família não é uma categoria analítica biológica, nem funcionalista, mas, um veículo simbólico que passa a ter novos significados, dada a trocas mediadas pelo afeto. Gera também uma melhor compreensão de como o empreendedorismo, a partir da mediação comunicativa, fez da organização familiar uma esfera de diversas aprendizagens; o que coaduna com a perspectiva de Habermas (1988), para quem a ação comunicativa permite dar novos significados aos fenômenos sociais. Neste caso, as trocas econômicas são passíveis de resignificações, forjadas durante o processo da interação social, se considerarmos que a sociabilidade é permeada por respeito e a tolerância mútua. O Outro, a comunidade local, não é propriedade do Eu, ou seja, do gestor da organização produtiva familiar; advento que resultou num imaginário compartilhado por todos os atores locais: aprender a inovar a partir do trabalho empreendedor. A ação
comunicativa, portanto, diferentemente da comunhão, permite forjar novas identidades, pelo critério de pertencimento e reconhecimento (HONNETH, 2003).
Diante disso, não negamos a existência de conflitos; argumentamos, outrossim, que há um tentativa de negociá-los, e, com isso, semelhantes e diferentes identificam-se a partir do conflito negociado. Assim sendo, entendemos que comunhão significa a permanência do mesmo, enquanto a comunicação contempla a dialética, ou seja, a permanência das contradições, da alteridade (DUVEEN, 1998). Entretanto, a vivência dos produtores do Pólo de Santa Cruz, assinala para a solução dos conflitos pela via da negociação.
A sociabilidade ampliada no Pólo de Confecção de Santa Cruz do Capibaribe, enquanto estratégia de sobrevivência, aumentou a participação no mercado econômico de um grande contingente populacional. Ao contrário do modo-de-produção fordista- taylorista, estas unidades produtivas permitem ao empregado – representado pela comunidade de vizinhos e amigos – ter a expectativa de um futuro melhor. Seja pela conquista do emprego e renda – amizade de curta duração –, seja pela esperança de ser também um empreendedor – alcançada pela amizade de longa duração. Tal pragmatismo norteia que a experiência do presente, possa tornar o empregado de hoje, um homem com projeto para o futuro; sem, em contrapartida, estar condicionado às tradições excludentes. A partir de tais práticas, a organização do trabalho e a organização produtiva em vez de buscar o desenvolvimento priorizando a troca de bens econômicos, privilegia a troca de bens afetivos, a fim de gerar afinidades seletivas entre os atores sociais e torne a vida mais emancipada. Conforme a fala de um pequeno empreendedor:
A família é importante. Mas não se quer dizer que ela somente se une para fabricar confecção de roupa. Eu mesmo, sou casado há uns 15 anos. E conheci minha mulher antes de querer viver disso. E se trabalho nesse ramo, é porque existe muita força de vontade de nós dois. Se não fosse assim, já teria largado a profissão. Junto com a família, a gente tem esperança de ter dias melhores. E se um dia crescer como o dono da Rota do Mar conseguiu, melhor ainda (ENTREVISTA 33).
Nesse sentido, podemos dizer que a organização familiar santacruzence não é necessariamente um comércio, pois o comércio aí existente não existiria sem as organizações familiares estruturadas pela sociabilidade dos sentimentos morais. Os empreendedores tiveram competências necessárias para, a partir das alianças mediadas pela linguagem, enfrentarem os riscos inerentes a esta atividade. A interdependência
entre os profissionais que atuam na comunidade, isto é, o empreendedor e o empregado, fica evidenciada no dizer do empreendedor acima citado.
Sei que se eu levar vantagem, talvez possa ser desacreditado. Vou ficar com a fama que passo todo mundo pra trás. E sem alguém que faça as máquinas funcionar, não se vai pra frente. E em Santa Cruz, temos um grande problema que é falta no trabalho. Temos que cativar o empregado para que não falte muito. Incentivo ele falando que a sina daqui, é um dia cada um ter sua própria facção. Eu e muitos começaram trabalhando para em outras fábricas; e agora tenho o que é meu. É uma forma de incentivar e cativar o trabalhador (ENTREVISTA 33).
O empreendedorismo estruturado pela organização familiar santacruzence nos permite conjeturar que o trabalhado é constituído sob a ética do cuidado, em vez da ética do mercado. Numa relação de emprego informal, a confiança na amizade formada na comunidade é um dos fatores necessários para que a cooperação mútua propicie a continuidade do empreendimento. Fato relevante porque privilegiar a lógica do mercado – lucro a qualquer preço – implica na perda de um dos insumos mais valorizados na sociedade pós-industrial: a conjugação em um só profissional – força produtiva braçal e intelectual. Este dado parece estar arraigado na mentalidade entre os produtores deste Pólo; é o que se pode notar no depoimento de outro empregado, atuante numa empresa de micro porte:
Dizer que está tudo bem, é dizer mentira. É chato, porque nem sempre ganha o suficiente. Mas, sem esse trabalho não vou ter oportunidade nunca. Na cidade, ou trabalha ou deve esquecer de ter o que é seu. O objetivo é trabalhar, trabalhar, até conseguir ter e aprender o suficiente para abrir um fabrico. É o sonho de qualquer um. Quem tem juízo, aprende a ver o quanto é trabalhoso conseguir ter sucesso. Tanto pra quem trabalha, como para o patrão (ENTREVISTA 34).
Assim, a organização produtiva, em sua maioria, é sustentável, porque nela permeia uma ética-prática de não fazer da informalidade um jeitinho brasileiro (DAMATA, 2004; BARBOSA, 2006), ou seja, o não cumprimento das leis trabalhistas, de modo a beneficiar o empreendedor; anulando, assim, quaisquer direitos empregatícios. Embora seja estruturado pela informalidade e a evidência dos conflitos entre empregador e empregado, foram desenvolvidas estratégias próprias, isto é, derivadas da cultura local, para resolver os possíveis dissensos.