Chapitre II. Charge et transport des particules diélectriques dans un champ
II.3. Résultats et discussion
II.3.1. Effet de la tension
O processo de constituição da identidade metamorfose evidencia os alicerces deformação das sociedades sociedade. Então, na realidade latino americana na qual impera a pobreza como elemento constituinte, a identidade tem seu processo de desenvolvimento específico. No entanto, antes de haver o debruçamento sobre essa relação identidade e pobreza, é necessário entender como ocorre o processo de formação da identidade metamorfose. Assim, é apresentado as bases em que esse conceito está assentado.
Ciampa (1987) apresenta a identidade metamorfose como um conceito central para a Psicologia. Ela é abordada como unidade da atividade e da consciência a partir de papéis, de personagens e de formas de reconhecimento; da igualdade e da diferença; da objetividade e da subjetividade, abrangendo a estrutura da realidade social em sua constituição. Lane (1984a) corrobora essa última afirmação evidenciando que o ser humano é ativo e constituído por uma infraestrutura histórica e social, enfatizando igualmente a atividade humana como central na constituição do indivíduo.
O homem, segundo Sawaia (2007), é abordado a partir de uma perspectiva materialista histórica e dialética. Dessa maneira, além da identidade ser compreendida nesses aspectos sociais,Góis (2012) acrescenta uma base biológica e primitiva, formando o alicerce para inovação e constante movimento da identidade metamorfose. Iguamente, esse último autor evidencia que a realidade pode oprimir e enfraquecer os potenciais positivos da identidade, mas a devastação total somente ocorre com a morte biológica em virtude da força lantente que possui a identidade. Esse autor denota que a vivência visceral de estar vivo deste contato com o orgânico e o primitivo são promotores de uma maior integraçãobio-psíquico- sócio-cultural-espiritual e de uma maior possibilidade de efetivação dessa metamorfose.
Ciampa (1987) utiliza Stanislavski para explicar essa força positiva subjacente à constituição humana a qual proporciona a manifestação da identidade como movimento. É
“algo que emerge do ‘fundo do manancial da natureza orgânica’, por certo está falando de vida” (CIAMPA, 1987, p. 191). Em um âmbito vinculado à sociogênese, esse último autor
afirma que a identidade é portadora da invencibilidade da substância humana que representa a História e a humanidade presentes no homem:
A História, então, é a história de autoprodução humana, o que faz do Homem um ser de possibilidades, que compõem sua essência histórica. Diferentes movimentos históricos podem favorecer ou dificultar o desenvolvimento dessas possibilidades de humanização do Homem, mas é certo que a continuidade desse desenvolvimento constitui a substância histórica dele, que só deixara de existir se não mais existir nem História, nem Humanidade (CIAMPA, 1987, p. 172).
Esse último autor também abordaas possibilidades de constante mudança da identidade, como primordialmente verbo, ou seja, atividade. A pessoa se torna algo, pelo seu agir e pelo seu fazer em interação social. É a partir da atividade que o ser humano se reconhece e é reconhecido em um determinado grupo social. Vygotsky (2004) afirma que o ser humano é constituído a partir das interações sociais com outros seres humanos, evidenciando a necessidade dos outros para desenvolvimento do psiquismo. Lane (1981) corrobora com essa afirmação concebendo que os seres humanos são formados a partir dos grupamentos e dos contextos que fazem parte.
Então, a pessoa é um ser de possibilidades apesar de não estar totalmente livre das condições históricas que está imersa. Essas condições servem tanto para serem potenciais de libertação, como de opressão. Dessa maneira, não se pode desvincular o estudo da identidadee da sociedade segundo Ciampa (1987). As diferentes estruturações da sociedade repercutem em formas específicas de identidade. Assim, nas sociedades capitalistas, o capital é o único autor da história, enquanto o homem é seu suporte, sendo alienado, personagem fetichizado
gerado e controlado por sua força de trabalho que “é encarnada pelos sujeitos que não tem
meios de produção, então o capital tem que produzir despossuídos de meios de produção. A riqueza tem que gerar miséria para que ela cresça: a única forma de produção capitalista é
através da produção da miséria” (CARONE, 20-?, p.8).
Nesse sistema, a própria identidade humana, que é metamorfose em sua constituição, torna-se produto, sendo reposta constantemente pelo sistema de produção que a imputa uma falsa compreensão de permanência. A sociedade capitalista pode funcionar como um sistema opressor da libertação da identidade humana. A opressão é abordada, segundo Guzzo (2010), como psicossocial e produtora de diversas formas de violência e de sofrimento em perspectivas individuais e coletivas. Moura Jr. e Ximenes (2012) concebem a pobreza como um mecanismo de opressão, violando simbolicamente, socialmente e concretamente a vida das pessoas pobres.
Góis (2012) afirma que a pobreza reflete em formas específicas de estruturação da identidade, fomentando formas de vida oprimidas e balisadas por sofrimento psíquico,
estresse, anomia, violência, desvinculação familiar e comunitária, drogadição e transtornos mentais. A partir dessa visão, a identidade torna-se prementemente um projeto político. Principalmente, na contemporaneidade, em que há uma variedade de forças antagônicas reprodutoras de formas específicas de identidade, o indivíduo “é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganha ou perdida. Ela tornou-se politizada” (HALL, 2006, p. 21).
Assm, Ciampa (1987) concebe que sua teoria da identidade tem um interesse prático e teórico. Este se refere a necessidade de compreensão da situação social que as pessoas estão
imersas. O interesse prático está baseado na “transformação social, interesse pela libertação da coerção” (p. 216). É seguida, então, segundo Ximenes e Góis (2010), uma Ética da
Libertação20 em que “tem como horizonte a libertação do ser humano” (p. 57) inserido em contextos sociais de pobreza e de opressão. Guareschi (2009) afirma que a libertação é embasada por práticas concretas, sendo fruto de uma necessidade de mudança significativas na sociedade, na Igreja e na Ciência a partir da segunda metade do século XX.
Para esse último autor, a Libertação incorpora os princípios da criticidade, da ética, do caráter histórico da sociedade, da dialética e de aspectos relacionais entre individual e social como constituintes de sua práxis. Góis (2005) afirma que não utiliza o conceito liberdade para referenciar libertação, porque essa primeira palavra baseia-se em um princípio burguês ausente de um comprometimento político e ético com a população oprimida. Então, segundo Ciampa (1987), as questões identitárias são voltadas para construção de projetos de vida democráticos e coletivos, distantes de verdades totalitárias e universalizantes.
Portanto, observo, junto com Ciampa (1987) e Góis (2008) que o capitalismo pode estruturar a identidade de forma opressora. No entanto, essas questões serão melhores apresentadas no capítulo seguinte sobre a vivência em da situação de rua a partir do processo de constituição identitária. Dessa maneira, para ilustrar a categoria identidade metamorfose, a história de vida de Francisco será a referência neste atual capítulo. Francisco tem 23 anos e uma filha. No momento de realização da Entrevista Narrativa (EN), estava vivendo no Abrigo Provisório para as pessoas em situação de rua removidas da Praça da Bandeira. Estava há 4 anos em total situação de rua. O início da história de vida de Francisco auxilia na compreensão da centralidade da realidade social na constituição identitária, construindo tramas específicas na sua vida:
20Ciampa (1984) e Lima (2010) utilizam em suas produções o termo emancipação. No entanto, neste trabalho,
opto pelo conceito de libertação a partir de Guareschi (2009) por configurar uma categoria criada em solo latino americano como forma de resistência e de transformação de uma realidade opressora a partir da superação da dicotomia do individual e do social e da teoria com a prática a partir de um valor ético humanista e comunitário.
Então, assim, desde o início da minha vida, eu não tive, assim, digamos... uma infância, como eu pensei em ter, né? Foi infância complicada. Muito cedo eu comecei a trabalharno centro da cidade como vendedor de sacolas. [...] Aí no decorrer do tempo, eu faltava muitas aulas por conta disso. [...] Porque teve uma época que meu pai tavadesempregado. Minha mãe passando um momento difícil lá em casa com os seis filhos. E eu era o terceiro dos seis. Aí, ao passar do tempo, já não vendia mais sacola. E, minha mãe comprou um carro de mão onde eu e meu outro irmão passamos a catar papelão, materiais de reciclagem. Aí complicou mais os meus estudos. Chegou um certo tempo que eu desisti dos estudos na sexta série. Aí passei a ver, a conviver na rua e tudo. Aí deixei também de catar reciclagem e passei a frenquentar a Aldeota e pastorar carro. Passei um tempo pastorando carro. Passei a ver como que era o mundo da pessoa adulta, e passei a simplesmente curtir. Aí na Beira-mar rola tudo. Aí conheci a instituição, a droga. Várias coisas que não era para uma pessoa da minha idade ter conhecido (EN FRANCISCO, p. 1 e 2).
Francisco teve sua vida marcada pela pobreza em condições concretas, fornecendo diretrizes para sua constituição identitária. Observo que as conseqüências no psiquismo ocasionadas por uma vivência de pobreza representam as estratégias de sobrevivência encontradas pelos pobres, pois a realidade apresenta-se geralmente como concreta e imutável a partir da estruturação de ideologias, de crenças e práticas mantenedoras do status quo. Assim, a realidade social de privação monetária e de falta de oportunidades de trabalho para sua família acarretaram o aparecimento do personagem que-trabalha21. Este impede o desenvolvimento do personagem que-estuda e, posteriormente, repercute na criação do personagem-usa-droga. Assim, Gonçalves Neto e Lima (2011a) observam que a identidade
humana está ligada “as qualidades, as habilidades, ou as atividades sociais dos indivíduos, ora
as suas raízes e seus vínculos, ora ainda suas características pessoais, seus modos particulares
de agir” (p. 2), constituindo os aspectos pessoais e sociais da identidade.