Chapitre 3 Effet de la stratégie de mise en œuvre sur les grandeurs d’influence
3.3. Effet de la température et des contraintes
da audiência. Como refere I. Gómez Acebo: «Diante da palavra de Jesus, não se coloca a possibilidade de permanecer neutro»391. Esta divisão é destacada pelo narrador ao contra- por todos os adversários a toda a multidão392.
Desde logo, o leitor fica a saber que o chefe da sinagoga não era o único oponente na sinagoga393. O particípio ἀντικείμενοι, que deriva do verbo depoente ἀντίκειμαι (opor-se), manifesta precisamente essa dinâmica de oposição a Jesus. Se vimos que o argumento do chefe da sinagoga era de teor farisaico, Lucas destaca agora a dinâmica da oposição em si, sem identificar os grupos e/ou personagens que a perpetram.
Neste sentido, é bastante significativo que, na obra lucana, o particípio substantivado
ἀντικείμενοι só reapareça uma vez mais, em Lc 21,15, quando Jesus alerta os seus discípu-
los para as perseguições vindouras: Eu próprio vos darei palavras de sabedoria, a que não
poderão resistir ou contradizer os vossos adversários (ἀντικείμενοι). Jesus, que é posto
(κεῖται) como sinal de contradição (cf. Lc 2,34), não abandonará os seus discípulos, os quais não estarão livres dos que são o-postos (ἀντι-κείμενοι) a Jesus e ao Reino de Deus.
Ora, a dinâmica de oposição, tão presente na secção da Viagem394, acaba aqui enver- gonhada – todos os adversários se envergonhavam com ele. Aludindo a Is 45,16 (LXX), que refere todos os adversários (πάντες οἱ ἀντικείμενοι) de Deus e fala da vergonha (αἰσχύνη), Lucas indica que assim como os fabricantes de ídolos serão envergonhados (αἰσχυνθήσοντα) diante de Deus, assim também aqueles que se idolatram sob a égide de uma pretensa religião são envergonhados diante do Senhor. Além disso, estando irredutí-
390 G. ROUILLER, “La femme dans l’Evangile selon S. Luc”, Echos de Saint-Maurice 78 (1975), p. 135. 391 I. GÓMEZ ACEBO, Lucas, p. 386. Cf. G. ROSSÉ, Il Vangelo di Luca, p. 542.
392 Cf. J. A. FITZMYER,The Gospel, II, p. 1014. 393 Cf. R. C. TANNEHILL, The Narrative Unity, p. 182. 394 Cf. pp. 30-31 do presente trabalho.
105 veis nas suas hipocrisias, diante da Palavra (Dizendo isto), não têm outra opção que não assumir a sua vergonha, a sua humilhação395.
Em contrapartida, toda a multidão alegrava-se. Como já dissemos, a multidão não se situa propriamente no grupo dos discípulos de Jesus, mas a sua reacção surge aqui como a antítese da reacção dos adversários.
O regozijo com que se manifesta a multidão evoca o tema da alegria, tão caro a Lucas396. No terceiro Evangelho, é o sentimento próprio daqueles que reconhecem e expe- rimentam a acção salvífica de Deus nas suas vidas, tal como Zacarias e os que escutam João Baptista (cf. 1,14), Maria (cf. 1,28) e os pastores (cf. 2,10). É ainda o sentimento inte- rior para o qual Jesus apela aos bem-aventurados (μακάριοι) perseguidos por causa do
Filho do Homem (cf. 6,22): Alegrai-vos (χάρητε) e exultai (σκιρτήσατε) nesse dia, pois a vossa recompensa será grande no Céu (6,23). Mas é também a alegria dos discípulos em
missão (cf. 10,17-20), a alegria da conversão (cf. 15,5.32), a alegria de receber Jesus (cf. 19,6.37) e, por fim, a alegria da ressurreição (cf. 24.41.52)397. Nos Actos, em primeiro lugar, é o sentimento que os Apóstolos experimentam por sofrerem em nome de Cristo (cf. 5,41). Depois, é um fruto do Espírito Santo (cf. 13,52). Em terceiro lugar, é o sentimento que invade os Apóstolos e as comunidades por testemunharem a expansão da Palavra (cf. 11,23; 13,48; 15,3). Por fim, é o efeito da pregação aos gentios e do baptismo (cf. 8,8.39; 15,31)398.
Assim sendo, o sentimento que o narrador evoca não é meramente manifestação de um estado de espírito momentâneo, mas fruto de uma relação – com o divino, com Jesus, com a Igreja – e da contemplação dos mistérios que perpassam a própria história daqueles que
395 Cf. F. BOVON, El Evangelio, II, p. 490.
396 O tema da alegria na obra lucana não se restringe ao verbo χαίρω. A este respeito, J. Navone elenca os
vários termos, sendo eles: μακάριος (bem-aventurado, feliz, abençoado) e μακαρίζω (abençoar); χαρά (ale- gria) e χαίρω (alegrar-se); δόξα (glória) e δοξάζω (glorificar); ἀγαλλίασις (exuberância) e ἀγαλλιάω (exube- rar); αἰνέω (exultar); εὐλογέω (abençoar); εἰρήνη (paz); εὐφραίνω (alegrar, deleitar, festejar); μεγαλύνω (cele- brar); σκιρτάω (exultar). Tendo em conta o teor da nossa abordagem, restringimo-nos essencialmente às ocor- rências do verbo χαίρω, referindo uma ou outra passagem onde surge o adjectivo χαρά, que partilha o mesmo radical do verbo χαίρω. Cf. J. NAVONE, Themes of St. Luke, Gregorian University Press, Rome 1970, p. 71.
397 J. NAVONE, Themes of St. Luke, p. 73.
106 os contemplam. É a «[a]legria religiosa, escatológica, diante daquilo que assinala a irrup- ção do Reino, do qual irá falar a parábola seguinte (v.18-21)»399.
Por isso, as causas da alegria são pormenorizadamente indicadas: todos os feitos glo-
riosos realizados por ele. Mais uma vez, Lucas recorre ao AT para descrever a acção de
Jesus, nomeadamente a Ex 34,10 (LXX), onde se lê:
E o Senhor disse a Moisés: «Eis que vou fazer uma aliança contigo: diante de todo o teu povo, produzirei feitos gloriosos (ἔνδοξα), que não se realizaram (γέγονεν) em toda a terra e em toda a nação; e todo o povo, no meio do qual tu estás, verá as obras do Senhor, porque espantosas são as coisas que farei por ti.
Desta forma, o narrador manifesta uma sintonia com aquilo que Jesus havia revelado sobre si próprio na resposta ao chefe da sinagoga: tal como Deus realizara feitos gloriosos ao libertar o povo de Israel da escravidão do Egipto, assim também a glória de Deus se revela nas palavras e nos gestos de Jesus. Consequentemente, ao destacar Jesus como agente (τοῖς γινομένοις ὑπ᾽ αὐτου), Lucas indica ao leitor, mais uma vez, que os desígnios de Deus se realizam efectivamente por meio d’Ele400.
Isto não significa, porém, que a multidão se converta, na medida em que, enquanto a mulher glorificava (ἐδόξαζεν) a Deus, a multidão rejubila com todos os feitos gloriosos (πᾶσιν τοῖς ἐνδόξοις) de Jesus, sem chegar a Deus. O próprio adjectivo πᾶσιν (todos) alude a outros feitos de Jesus que haviam firmado a sua fama. E a referência à fama de Jesus não é inusitada neste contexto, na medida em que, ao longo do seu ministério público, o narra- dor indica estrategicamente a sua propagação, até chegar ao ponto de a assumir como dado adquirido, tal como acontece no nosso texto.
Em primeiro lugar, Lucas começa por declarar explicitamente a propagação da fama de Jesus depois de narrar o exorcismo na sinagoga de Cafarnaum (cf. 4,37) e a cura de um leproso (cf. 5,15), ao mesmo tempo que dá conta da reacção de Jesus, retirando-se para lugares desertos (cf. 5,16). Esta fama espalha-se de tal maneira que surgem fariseus e dou- tores da Lei, vindos de todas as localidades da Galileia, da Judeia e de Jerusalém (5,17),
399 F. BOVON, El Evangelio, II, p. 490. 400 Cf. F. BOVON, El Evangelio, II, p. 491.
107 bem como multidões de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon (6,17). Depois da cura do filho da viúva de Naim, a sua fama alastra-se definitivamente por toda a Palestina: E esta palavra acerca d’Ele espalhou-se pela Judeia inteira e por toda a vizi-
nhança (7,17)401. Daqui em diante, o narrador não mais refere a propagação da fama de Jesus, referindo antes a resposta dos vários personagens a todos (πᾶς) os feitos de Jesus (cf. 7,18; 9,43; 13,17; 19,37), de modo que a sua fama se torna uma das características de Jesus a partir de 7,17 em diante402.
Logo, ainda que Lucas aluda a uma ‘alegria religiosa’, a multidão não adere plena- mente ao Senhor, i.e., não se converte403, ficando-se pela exterioridade da acção de Jesus. No entanto, a sua reacção contrasta claramente com a reacção dos adversários, facto que não passará despercebido ao leitor404.