Chapitre 3 : Résultats et Discussions
I. Application du procédé hybride : aération / microfiltration
I.1 Effet de la concentration initiale en fer
Em um fragmento póstumo de 1885 ou 1886, que pertenceu aos planos para um livro acerca do niilismo europeu (Der europäische Nihilismus)107, Nietzsche apresenta uma reflexão
profunda acerca da emergência do niilismo. Nessa reflexão, o autor pensa que o niilismo, como consequência de um processo em curso de desvalorização da realidade, estaria estreitamente relacionado ao fato de que nossa realidade não pode ser desvinculada de nossa ótica de avaliação.
Mais do que a mera desvalorização da realidade, por conta de sua falsidade estrutural, o niilismo implicaria uma rejeição do valor de tudo aquilo que não pertenceria à realidade de maneira certa e incorruptível. Em outros termos, tudo que é acrescentado à realidade por meio da atividade humana é tomado em uma leitura niilista como contaminação. Quase como se, por meio de nossa interpretação da realidade, a destituíssemos de valor por acrescentar a ela a limitação característica de nossa ótica.
No interior da consideração nietzschiana, para nós tem valor o mundo em que vivemos, que criamos, que somos. Por outro lado, uma realidade tal como o homem a venera, em sua eternidade e veracidade, não deveria possuir valor para nós. Pois tudo que tem valor na realidade para o homem é produto de sua atividade de interpretação. Assim, o filósofo afirma que: “Ocasiona o seu ocaso a oposição do mundo que nós veneramos do mundo em que nós vivemos, que nós somos” (NF/FP; 1885; 2[131])108. Com isso, Nietzsche pretendia
106 No aforismo onze do segundo livro de Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche opõe sua concepção de moral como obediência aos instintos à concepção que equaciona felicidade com a obediência à Razão e que entende o ensinamento da subserviência à Razão como uma forma de moral do aperfeiçoamento. Já no livro sétimo da mesma obra, intitulada Os “melhoradores da humanidade”, o autor parte da compreensão da inexistência de “fatos morais” para qualifica a moral como uma má interpretação de determinados fenômenos. Nesse sentido, aquilo que os pregadores morais teriam realizado sob a prerrogativa de melhoramento da humanidade, apenas teria significado um amansamento, uma debilitação da força inerente ao homem (GD/CI; VII; §2).
107 Extraído de (eKGWB/NF-1885,2[131] — Nachgelassene Fragmente Herbst 1885 — Herbst 1886.). Exceto menção em contrário, para a tradução foram utilizadas as traduções de Marco Antônio Casanova, para o volume VI das traduções dos fragmentos póstumos, da editora Forense Universitária.
108 Segundo Araldi (ARALDI; 1998; Págs. 77), esse aforismo pertence aos planos para elaboração de A Gaia
Ciência, correspondendo ao aforismo 346, onde Nietzsche diz: “Não caímos, exatamente com isso, na suspeita
de uma oposição, uma oposição entre o mundo no qual até hoje nos sentíamos em casa com nossas venerações – em virtude das quais, talvez, suportássemos viver – e um outro mundo que somos nós mesmos: numa inexorável, radical, profunda suspeita acerca de nós mesmos, que cada vez mais e de forma cada vez pior toma conta de nós,
assinalar que, diante da iminência de uma forma radical de niilismo, teríamos duas opções: ou aboliríamos nossa adoração do mundo ideal ou a nós mesmos. Segundo sua leitura, a segunda forma seria uma expressão do niilismo, cuja emergência o autor considerava uma certeza, como expressão do desenvolvimento do pessimismo inerente à valorização da realidade segundo os juízos de valores cristãos, que eram juízos de valor moral baseado na “vontade de verdade”. O diagnóstico do filósofo é claro, se queremos superar o niilismo, temos que escolher entre uma realidade ideal e a realidade de nossas valorações, a realidade em que vivemos, que nós somos. Como forma de se contrapor ao niilismo, restaria ao homem uma valorização da realidade de nossas impressões como valor em si mesma.
Estas são as consequências que se pode extrair da reflexão nietzschiana acerca da relação entre a vida e a verdade. Ou seja, se nessa leitura a vida apenas pode prosperar no que é perspetivo, se a vida depende fundamentalmente de falsidade, a realidade ideal seria um símbolo para nossa extinção. Assim, ao homem interessaria, sobretudo, abrir mão de uma realidade ideal em prol da realidade de suas próprias avaliações. No entanto, a ideia de uma realidade ideal apenas é operante na filosofia da antiguidade. Ao converte a ideia de um colapso da realidade ideal na ideia da morte de Deus, o filósofo nada mais faria do que traduzir este problema para sua época.
O Deus veraz, que é traduzido na filosofia moderna como o grande garantidor da verdade, substitui na filosofia contemporânea a ideia de uma realidade ideal. Com o anúncio da morte de Deus, que aparece no fim do período intermediário da obra nietzschiana109, o
filósofo identifica o estado geral do homem moderno com a ausência do valor supremo da vida, considerado até então como única garantia de felicidade para o homem num além- mundo.
A passagem em que a morte de Deus é revelada na obra nietzschiana de forma mais expressiva e rica de sentido é o aforismo 125 de A Gaia Ciência. Nesta passagem, que ocupa um lugar estratégico no livro três daquela obra, logo após o louvor do horizonte aberto às novas descobertas e antes de uma série de explicações acerca das superstições religiosas110, o
europeus, e facilmente poderia colocar as gerações vindouras ante essa terrível alternativa: ‘ou suprimir suas venerações ou – a si mesmos!’ esta seria niilismo; mas aquela não seria também – niilismo? Eis a nossa
interrogação.” (FW/GC; V; §346).
109 Pela primeira vez em A Gaia Ciência e novamente em Assim Falou Zaratustra.
110 Para efeito de compreensão, o título dos aforismos que se seguem ao 125 são: 126 Explicações místicas, 127
Efeito posterior da antiga religiosidade, 128 O valor da oração, 129 As condições para Deus, 130 Uma decisão perigosa, breve reflexão acerca do fato da decisão cristã de achar o mundo feio e ruim, que acaba por tornar o
mundo feio e ruim, 131 o cristianismo e o suicídio, 132 contra o cristianismo e outros que apresentam sempre a ideia de uma crítica às crenças religiosas, inclusive às do cristianismo, como superstições mal fundadas. Isto até o 145, que apresenta uma variação do tema na crítica ao vegetarianismo. Após este, o autor apresenta uma crítica ao nacionalismo alemão e a seguir volta a atacar o cristianismo.
autor nos põe diante do evento decisivo da morte de Deus:
O louco saltou no meio deles e os transpassou com os olhos. “Onde está Deus? ele chorou, eu quero te dizer! Nós o matamos – você e eu! Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos beber o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte inteiro? O que fizemos ao desatar a terra do seu sol? Onde eles estão se movendo agora? Para onde vamos? Longe de todos os sóis? Não estamos mergulhando continuamente? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Existe ainda algum em cima ou para baixo? Não estamos vagando como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não ficou mais frio? Não permanece sempre a noite e mais noite? Não se tem que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho da cova de Deus sendo cavada? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? - Deuses, também, decompõem-se! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como havemos de nos consolar, os assassinos de todos os assassinos? O santo e mais poderoso que o mundo até então possuía, ele sangrou até a morte em nossas facas - quem vai limpar o este sangue de nós? Com que água poderíamos nos purificar? A expiação, que jogos sagrados teremos de inventar? não a magnitude desta obra muito grande para nós? Não devemos nos tornar Deuses simplesmente para aparecer digno? Nunca houve uma maior ação – e quem é nascido depois de nós pertence a este ato de amor de uma maior história de toda a história até aqui. (FW/GC; Livro III; §125).
O clima geral de dúvida em torno do anúncio da morte de Deus, parece tornar clara a ideia fundamental de que, com a extinção deste fundamento último da veracidade, todo posicionar-se é determinantemente abalado. Por isso o texto faz menção à concepções científicas como a ideia da gravitação da terra em torno do sol. Estratagema que buscaria aproximar as concepções tomadas como científicas de uma concepção teológica, posto que aquelas ainda se viam presas da confiança na veracidade. Por outro lado, esta imagem também estaria relacionada com a crítica nietzschiana à concepção platônica de bem, que é representada como o sol que ilumina a verdade. Desta forma, a apresentação do grande evento em A Gaia Ciência reforça a ideia de que o racionalismo da ciência se relaciona com a crise da verdade representada pela morte de Deus, como símbolo de uma realidade ideal inexistente que chega a seu colapso na filosofia Nietzschiana.
Isto significa neste contexto que toda a busca por certezas, ou a vontade de verdade própria da ciência, são interpretadas nesta leitura como oriundos de um empreendimento desprovido de sentido, pois, na medida em que o processo mesmo de desenvolvimento das ciências foi guiado por uma vontade de verdade, sobretudo a partir do século XIX, então o que condiciona seu desenvolvimento é uma lógica interna de autossupressão. Dado que é o próprio avanço da moralidade cristã que condiciona esta vontade de verdade, e que o ápice do desenvolvimento desta moralidade cristã é a consciência da falta de sentido da própria vontade de verdade. Diante da necessidade que a moralidade cristã acarreta de efetuar sua própria crítica, o colapso do edifício teórico criado pela racionalidade ocidental já estava
determinado desde a fundação de seus alicerces.
É a própria exigência de rigor da ciência, que é uma consequência da moralidade cristã presente neste empreendimento teórico, que gera as condições para o colapso de seu fundamentos. Este colapso tem sua expressão mais clara na filosofia nietzschiana na ideia da morte de Deus, no colapso da própria moralidade cristã por conta de suas próprias exigências. Por sua vez a ciência, que se deixa determinar por essa moralidade, encontra seu colapso no colapso da ideia de um fundamento último para a verdade, representado aqui na ideia de Deus.
A destituição de validade de um sistema de crenças e conhecimento, a ciência mesma, perece por força das contradições internas da moralidade a partir da qual se desenvolveu. Atinge seu ponto de validade mais baixo por determinação de seus próprios fundamentos morais. Ou seja, na medida em que o mundo ideal, pensado por Nietzsche como sendo a própria expressão de nosso ponto mais baixo em termos de vitalidade, corresponderia em sua época à ideia de Deus, o filósofo concebe a morte de Deus como correlato à supressão da realidade ideal. De maneira que, o “maior de todos os eventos”, é percebido em sua filosofia como evento marcante no processo de desenvolvimento do niilismo:
2) O cristianismo perecendo de sua moral. “Deus é a verdade”, “Deus é o amor”, “o Deus justo” – o maior de todos os eventos – “Deus está morto” – sentido de maneira grosseira. A tentativa alemã de transformar o cris[tianismo] em uma gnose é recusada por uma desconfiança profunda: o “inverídico” aí é experimentado da maneira mais forte o possível (contra Schelling, por exemplo). (NF/FP; 1885; 2[131]).
Nietzsche analisa a pouca influência desse evento ainda em sua época e conclui que este evento ainda era sentido de forma grosseira, em contraposição, por exemplo, a uma tentativa de se reorganizar o cristianismo decadente, transformando-o em uma expressão da ciência. Em um outro fragmento póstumo de 1886 ou 1887111, outro plano para o trabalho
intitulado O Niilismo Europeu, Nietzsche reflete sobre o niilismo ativo e sua expressão na moral cristã. Em sua leitura, o fato dessa moral não haver ocasionado um aumento na indigência, ou seja, uma intensificação no empobrecimento intelectual da Europa, favorece sua crença de que tal seria consequência de uma aliança entre a intelectualidade e a moral cristã. Nesse sentido, os eruditos, como manifestações do niilismo ativo, teriam mesmo se utilizado dos artifícios da moral cristã como meios para sua conservação.
A evidência textual aponta para a conclusão de que o que Nietzsche considerava o
111 Idem (eKGWB/NF-1886,5[71]) — Nachgelassene Fragmente Sommer 1886 — Herbst 1887, citado no capítulo anterior, pág. 138.
maior de todos os eventos pertencia aos seus planos de análise do fenômeno niilismo. No entanto, as apresentações da morte de Deus que encontramos em sua obra foram publicados antes de que o autor encontrasse uma expressão adequada para suas conclusões acerca do niilismo. O que, de resto, não impede que pensemos uma relação recíproca entre estas concepções, pois, na medida em que o niilismo, enquanto movimento histórico de desvalorização dos valores, relaciona-se com o conceito de Deus, enquanto fundamento último da verdade, o niilismo mais extremo adquire sentido positivo a partir da queda do último e mais elevado dos valores que fundamentam a concepção filosófica ocidental.
Para Nietzsche, o niilismo apenas se torna expressão de um grande risco na Europa por conta de sua associação com os valores inerentes a uma concepção moral da realidade, notadamente, a concepção de um mundo do além apartado do mundo dos fenômenos. É esta mesma forma de moralidade que, culminando no sentido de uma necessária veracidade, conduz ao colapso das considerações advindas da forma cristã de consideração da realidade, como diz Araldi:
A moral cristã é o evento determinante do Ocidente. No cristianismo a interpretação moral da existência e do mundo se impõe em todo o seu significado e com pretensão absoluta de domínio. A vontade de verdade, ou a ambição metafísica de certeza, tem sua gênese já em Sócrates e Platão, mas é no cristianismo que ela desdobra a amplitude de seu sentido e de seu caráter problemático e ambíguo. A vontade de verdade, que nasce da moral cristã, volta-se contra a moral, contra a necessidade de mentira e falsificação do mundo que ela comporta. (ARALDI; 1998; Págs. 79).
A vontade de verdade, impulsionada pela consideração cristã da realidade, aponta para uma crítica da consideração falsa do mundo que é inerente à moral cristã, torna-se eminente a crise da própria concepção de veracidade e do fundamento último dessa veracidade segundo uma consideração moral cristã. Nesse sentido, o avanço do niilismo nos meios intelectuais da Europa estaria vinculado a outro evento histórico de importância igualmente significativa, a morte de Deus.
A partir da aproximação entre a moral cristã e o niilismo, que é típica do último período de produção da filosofia nietzschiana, o filósofo concebe uma possibilidade de superação do niilismo no esgotamento vital da concepção cristã. Com base na afirmação de Dostoiévski, “Se Deus não existe, tudo é permitido”112, Nietzsche vislumbra não o terror do
relativismo moral, que parece motivar o romancista russo, mas a liberdade de atuação teórica, independente da necessidade de verdade, da vontade de verdade própria do pensamento
112 Expressão utilizada por Dostoiévski, em sua famosa obra Irmãos Karamazov, e que impactou profundamente a reflexão nietzschiana, não apenas em seu desenvolvimento da ideia da morte de Deus, mas ainda na reflexão em torno das consequências morais da ausência da crença na verdade.
racionalista. É nesse sentido, por exemplo, que o filósofo relaciona a ideia da queda dos fundamentos, da necessidade de se crer na verdade, com a ideia de uma liberdade de atuação, imprópria de homens acostumados com os valores cristãos, e com a qual estes teriam entrado em contato, pela primeira vez, quando adentram os segredos da seita oriental dos assassinos:
Quando os cruzados cristãos no Oriente depararam com aquela invencível Ordem dos Assassinos, aquela ordem de espíritos livres par excellence, cujos graus inferiores viviam numa obediência que nenhuma ordem monástica alcançou igual, obtiveram de algum modo informação sobre aquele símbolo e senha, reservado aos graus superiores como seu secretum: “Nada é verdadeiro, tudo é permitido..." (GM/ GM; III; §24).
As questões levantadas pela passagem em questão, dizem respeito ao verdadeiro sentido de espírito livre. Se considerarmos verdadeiro o que Nietzsche nos diz nessa passagem, em contraposição aos cientistas, os membros da seita dos assassinos seriam verdadeiros modelos de espíritos livres. Para o filósofo isso se deveria sobretudo a sua libertação do último dos entraves ao espírito, a crença na verdade. A suprema sabedoria, expressa na renúncia de toda forma de verdade, aparece nessa leitura como traço característico de uma vivência da realidade superior a toda forma de sabedoria advinda do método científico.
A ênfase nietzschiana na expressão “nada é verdadeiro, tudo é permitido” é bastante expressiva. Ela atua no sentido de realçar uma revelação fundamental, uma sabedoria superior reservada apenas aos graus mais elevados da seita dos assassinos. Esta sabedoria ganha sentido na contraposição desta com aquilo que era considerado sabedoria pelos autoproclamados últimos idealistas, os cientistas de sua época. Se estes se consideravam espíritos livres, na medida em que pensavam terem conquistado independência para com toda forma de dogmatismo, o filósofo lhes apresenta ainda uma última crença da qual teriam esquecido de se desvencilhar. Seria, portanto, a partir de sua compreensão do que significa ser um espírito livre, que Nietzsche descreve a distância entre os cientistas e os membros da seita dos assassinos.
Diante da imagem dos membros da seita dos assassinos, os quais se libertaram até mesmo da ideia de verdade, algo que os cientistas estariam longe de alcançar, Nietzsche estabelece como critério último de libertação da metafísica a renúncia da crença na verdade. É a partir da compreensão de que os cientistas, ao permanecerem presos à verdade, não poderiam reclamar para si o título de espíritos livres, que é posta em dúvida o caráter antimetafísico e ateu da ciência de sua época. Ao confrontar os cientistas modernos com sua crença na verdade, a qual o autor relaciona como uma última expressão do idealismo, os
pretensos espíritos livres são tomados como aqueles que não compreendem até que ponto ainda permanecem presas de uma crença ancestral na verdade, apesar de sua profissão de fé contra a autoridade teológica.
De modo geral, sem ferir o sentido do texto nietzschiano, podemos considerar que nessa passagem Nietzsche efetua uma reformulação da expressão de Dostoiévski, ao substituir o termo “Deus” pelo termo “verdade”, que para o autor poderia ser tomado como uma tradução literal do sentido de Deus. Com isso nos aproximamos da grande significância de sua concepção da morte de Deus, que entendemos como querendo significar, principalmente, crise da concepção de verdade. A morte de Deus, como ápice da desvalorização da crença em um mundo verdadeiro, traz consigo o reconhecimento de que a abdicação da crença na verdade traz de volta a liberdade de atuação necessária aos espíritos livres. Pois, em sentido amplo, a morte de Deus, enquanto o maior evento da história humana, leva consigo todas as certezas.
É assim, por exemplo, que Heidegger, em sua avaliação crítica da filosofia nietzschiana, interpreta a morte de Deus como um ponto central do niilismo nietzschiano, articulando este conceito com a ideia da caducidade do sentido113. Para o filósofo, em uma
leitura que privilegia a originalidade do pensamento nietzschiano e sua relação com os desdobramentos do niilismo, esta concepção, compreendida como momento histórico singular, poderia mesmo ser resumida na expressão nietzschiana “Deus está morto”, que marca um ponto de viragem entre o desenvolvimento posterior e a culminância e extrema significação que o niilismo viria a obter no século vindouro. Para Heidegger, se o Deus Cristão ocupa para a época de Nietzsche o lugar de principal representação do suprassensível, a denúncia da caducidade dessa representação carrega o sentido de uma crise na credibilidade do próprio suprassensível, que é o traço fundamental do niilismo:
Nietzsche emprega a palavra “niilismo” como o nome para o movimento histórico por ele reconhecido pela primeira vez que já transpassava de maneira determinante os séculos precedentes e que determina o seu próximo século, um movimento cuja interpretação essencial ele concentra na sentença “Deus está morto.” essa sentença quer dizer: o “Deus cristão” perdeu o seu poder sobre o ente e sobre a definição do homem. O “Deus cristão” é ao mesmo tempo a representação diretriz para o