3.4. Impact de la formulation sur le procédé de fabrication
3.4.2. Effet de la concentration en polymère dans l’huile
Como foi dito anteriormente, Bolshakov e Soushchevski defendem que a emergência de um Estado centralizado e a criação da instituição faraónica no Antigo Egipto tiveram como resultado o fim da existência de heróis neste território.163 Desta
forma, os autores acreditam que antes de existir um Estado se teria verificado a presença de heróis no Egipto.164
Por outras palavras, a presença da figura do herói no Egipto ter-se-ia concentrado, principalmente, na época Pré-Dinástica, quando a civilização egípcia propriamente dita estava ainda a ganhar forma. Os dois Egiptólogos admitem inclusivamente que, na fase inicial da História do Antigo Egipto, possam ter existido contos épicos que relatassem as aventuras e peripécias de heróis, que, no entanto, não sobreviveram à passagem do tempo.165 Mencionam o exemplo do mito de Hórus, o Behdetite166 – que embora só tenha
163 Apresentámos as principais ideias defendidas por estes dois Egiptólogos no seu artigo acerca do herói no Antigo Egipto no ponto 1.5 do presente trabalho.
164 “(…) before the final unification of the country and centralization of the state, there had existed some idea of a hero (although we cannot properly reconstruct it) and, consequently, the earliest Egypt followed the universal cultural paradigm with heroism as a compulsory element.” BOLSHAKOV, A. & SOUSHCHEVSKI, A., “Hero and society in Ancient Egypt (I)” in GM 163, p. 12.
165 Vd. Idem, p. 16.
166 Hórus, o Behdetite é uma das manifestações do deus Hórus, que apresenta uma ligação muito próxima com a instituição real e com o faraó. Para mais informações acerca desta divindade veja-se, por exemplo, GARDINER, A., “Horus the Behdetite” in JEA 30, 1940, pp. 23-60 e SHONKWILLER, R., The Behdetite: A study of Horus the Behdetite from the Old Kingdom to the conquest of Alexander [PhD Thesis], Chicago, University of Chicago, 2014.
45
chegado até ao presente em inscrições provenientes do templo de Edfu, datadas do Período Ptolomaico – tem a sua origem, provavelmente, na passagem da Era Pré- Dinástica para a Era Dinástica e retrata o que na opinião dos estudiosos russos é um herói guerreiro.167
Os grupos humanos começam a praticar uma economia de cultivo no Vale do Nilo em cerca de 6000-5000 a.C. Nesta altura, alterações climatéricas pressionam as populações dos desertos ocidental e oriental para a região do Vale. Progressivamente, os homens começam a fixar-se nesta faixa de território fértil, aplicando técnicas e práticas, bem como culturas próprias do Próximo Oriente e do deserto do Saara.168 A primeira
cultura material do Antigo Egipto é denominada “Faium A” e situa-se no Baixo Egipto (c. 5300-4000 a.C.)169 Na cultura de Nagada I (c. 4000-3500 a.C.), o desenvolvimento
das trocas comerciais vai provocar uma paulatina estratificação social e o surgimento de elites locais.170 O Período de Nagada II (c. 3500-3200 a.C.) é considerado uma
continuação do primeiro, com um alargamento da abrangência espacial da sua cultura material. É neste momento que se verifica a unificação cultural do Egipto, que é também caracterizada pela acentuação da estratificação social e pelo surgimento de centros de poder locais.171
Tal como tivemos já oportunidade de mencionar, segundo Juan José Castillos, durante a Era Pré-Dinástica é possível detectar a existência de heróis semi-mitológicos, que surgem em representações gravadas na rocha ou pintadas em cerâmica.172 O autor
defende que se tratam de figuras históricas cuja importância lhes valeu o registo das suas capacidades como sendo extraordinárias e, até, sobre-humanas. Algumas destas representações foram interpretadas por Egiptólogos como tratando-se de cenas de caça mas poderão pretender retratar um ser com capacidades excepcionais a exercer domínio
167 Cf. BOLSHAKOV, A. & SOUSHCHEVSKI, A., op. cit., p. 11. 168 Vd. CIALOWICZ, K., op. cit., pp. 61-62.
169 Cf. Idem, p. 62. 170 Cf. Idem, p. 63.
171 Vd. Idem, p. 64 e LANKESTER, F., Predynastic & Pharaonic Era rock-art in Egypt’s central eastern desert: Distribution, dating and interpreting, Durham Theses, Durham University, 2012, p. 266. O recorte cronológico, bem como o enfoque em fontes escritas da nossa dissertação, impedem-nos de desenvolver esta temática. Ao leitor interessado em aprofundar os conhecimentos sobre o Neolítico egípcio ou em melhor compreender o contexto cronológico e cultural a que aqui brevemente nos reportamos, aconselhamos a consulta das seguintes obras de referência: KEMP, B., Ancient Egypt. Anatomy of a civilization, 2nd edition, New York, Routledge, 2006; MIDANT-REYNES, B., Préhistoire de l’Égypte. Des premiers hommes aux premiers pharaons, Paris, Armand Colin, 1992; HOFFMAN, M., Egypt before the pharaohs. The Prehistoric foundations of Egyptian civilization, revised edition, Austin, University of Texas Press, 1991; ADAMS, B., Predynastic Egypt, Shire Egyptology 7, Ayelsbury, Shire Publications, 1988. 172 Cf. CASTILLOS, J. J., op. cit., p. 2.
46
sobre a Natureza.173 Com o desenvolvimento do urbanismo e a complexificação da
organização social surge a necessidade de expressar o controlo do Homem sobre a Natureza, bem como sobre o “Outro”, que se concretiza em representações iconográficas de figuras heróicas que surgem a dominar animais ou pessoas. Estes motivos iconográficos neolíticos não são exclusivos do Egipto, estando os vestígios mais antigos atestados, datados do IV milénio a.C., localizados na actual Síria.174
Para fundamentar esta teoria, Castillos baseia-se, por um lado, nos instrumentos utilizados pelas figuras antropomórficas nestas representações, como cordas e varas e, por outro, nas proporções exageradas da figura, quando comparada com os restantes elementos da composição pictórica.175
Esta interpretação não reúne, contudo, consenso no seio da comunidade egiptológica. Francis Lankester, por exemplo, ao analisar um vasto corpus documental composto por petróglifos (imagens gravadas ou esculpidas na rocha) localizados no deserto oriental, conclui que as representações de figuras humanas a dominar animais – selvagens ou domésticos – parecem ter como função fixar um acontecimento ou evento banal. Para este autor, estes petróglifos não se revestem de simbolismo nem pretendem representar um ritual de domínio dos elementos da Natureza.176 Da mesma forma, as
cenas de caça tratam-se de isso mesmo, não almejando retratar os poderes extraordinários de um determinado indivíduo. Não obstante, refere diversas vezes que esta se afirmava como uma actividade reservada às elites desde o Período de Nagada I, o que deixa em aberto a possibilidade de as figuras que ali se encontram representadas gozarem de algum destaque na sociedade em que se inseriam.177
Embora com alguns cuidados, podemos admitir que estas cenas Pré-Dinásticas tinham como protagonistas líderes locais, sendo que um dos seus objectivos seria demonstrar como o seu poder trazia Ordem à comunidade, que antes vivia desordenada, no Caos. Os líderes teriam sido escolhidos pelos deuses para levar a cabo esta missão, daí serem dotados de um poder e força extraordinários.
Este tipo de representações, com este quadro de significâncias, parece perdurar na Era Dinástica, através do tema do Hórus menino sobre os crocodilos e da cena da
173 Cf. Idem, ibidem.
174 Cf. DUBCOVÁ, V., op. cit., p. 222. 175 Cf. CASTILLOS, J. J., op. cit., pp. 2-6. 176 Cf. LANKESTER, F., op. cit., p. 166. 177 Vd. Idem, p. 266.
47
subjugação dos inimigos pelo faraó. O primeiro exemplo reporta-se a uma representação do deus Hórus que segue o motivo Neolítico do “Mestre dos Animais” (Master of Animals). O motivo caracteriza-se por uma representação antropomórfica ladeada de dois animais ou criaturas fantásticas que se encontram sob o seu controlo ou que estão a adorá- lo/protegê-lo, de forma a demonstrar a sua essência sobrenatural.178 O segundo exemplo
consiste numa figura humana de grandes dimensões – o faraó – a exercer o seu domínio, de forma violenta, sobre uma ou mais figuras humanas de menores dimensões – os inimigos subjugados.179
Este tipo de representações parece constituir o protótipo daquilo que, mais tarde, viriam a ser as representações do faraó enquanto figura dotada de poderes extraordinários.180 De igual forma, nas paletas proto-históricas, encontram-se esculpidas
figuras humanas, com uma força sobrenatural, lutando com animais ferozes e de grandes dimensões. Estas imagens representariam os líderes locais e, mais tarde, o faraó.181