• Aucun résultat trouvé

PARTIE 1  : ÉTUDE BIBLIOGRAPHIQUE

1.2.   LE   MARINAGE

1.2.4.  Effet du marinage sur la matrice

1.2.4.1.  Effet de l’acide

Com o surgimento da internet, paralelamente surgiu uma cena ciberativista, com

grupos politicamente motivados, utilizando as redes virtuais para a produção, mobilização e divulgação de causas, incrementando adequações e aprimoramentos em softwares e fomentando a produção de softwares livres. Parte dessa atividade foi permitida e até estimulada pela própria indústria, interessada em perceber os usos e desdobramentos das novas ferramentas. Essas condições fazem emergir o fenômeno dos hackers, que invadem e se apropriam de redes.

Hacktivismo se refere a ação de invadir redes como prática de protesto no espaço virtual. Os hackers criam meios de interferir em programas originalmente fechados, possibilitando a qualquer indivíduo utilizar o programa (MALINI, ANTOUN, 2013). Também adotam ações como sobrecarregar um sistema, bloqueando um determinado espaço de forma pacífica (JORDAN, 2002).

Pasquinelli (2002) entende hacktivismo como uma guerra entre domínio e liberdade. Mazetti (2018) segue esse raciocínio ao considerar que iniciativas coletivas de comunicação alternativa não tenham como intenção principal reformar o sistema de mídia ou promover uma transformação da prática jornalística profissional, mas fomentar a apropriação coletiva da mídia. Cardon e Granjon (2010) chamam a atenção para um significado das ações hackers que convidam os indivíduos a dominarem os instrumentos de representação e simbolização: elas se constituem em uma crítica expressivista que adota caráter de tradição anarquista.

Ao defenderem o software free, os hackers não fazem necessariamente uma defesa da gratuidade, mas da liberdade. Advogam o acesso aos códigos fonte para que possam modificar um programa, adaptá-lo às necessidades do usuário e redistribuir cópias, grátis ou com pagamento de taxa, de modo que a comunidade se beneficie (MALINI, ANTOUN, 2013).

59

As comunidades de hackers se enxergam como clubes, dos quais participam de modo voluntário, em busca de difundir informações que possam contribuir com uma maior quantidade de pessoas e estabelecendo relações de reciprocidade. Stallman, programador ativista, criador do movimento software free e que popularizou o termo copyleft 41 estabeleceu: “ninguém é forçado a entrar para o nosso clube, mas aqueles que desejam participar devem nos oferecer a mesma cooperação que recebem de nós. Isso torna o sistema justo” (STALLMAN, 2002, p.1).

Os midialivristas, com influência dos movimentos hackers, desejam tornar as mídias livres não apenas de interesses políticos e econômicos, mas livres no sentido de desbloquear a palavra e multiplicar os atores no espaço público (MAZETTI, 2018). A licença livre de programas e outros softwares e conteúdos (copyleft), possibilitou tanto o uso disseminado de avançados recursos tecnológicos, que não ficaram restritos a quem podia pagar pelo acesso, como permitiu o aperfeiçoamento desses mesmos recursos antes da chegada a um mercado consumidor maior.

Ainda em 1986 a publicação do texto A consciência de um hacker,42 assinado pelo pseudônimo The Mentor e que ficou conhecido como Manifesto Hacker, é uma abordagem inicial para definir o que seria a ética hacker. O texto ajudou a moldar a opinião da comunidade de hackers sobre si mesma e até hoje é inspiração para outros manifestos que surgiram no mundo. Aquele primeiro texto fala contra as limitações das normas da sociedade e reconhece, no hacker, um potencial de domínio de tecnologias que devem ser usadas de modo livre, em favor da sociedade. O texto serviu ainda como um fundamento ético à pirataria. No Brasil, um manifesto hacker,43 produzido entre outros pelo profissional de tecnologias digitais Uirá Porã, que se apresenta como hacker da

41 Copyleft é uma licença livre, uma forma de inversão da lei de direitos autorais, conhecida pelo termo inglês copyright. O copyleft assegura o acesso de qualquer pessoa à informação. A obra copyleft pode ser reproduzida em larga escala e sem custo. A ironia com o termo copyright, altera-o para à “esquerda” (left), numa alusão a uma ação transgressiva. Left é ainda a conjugação do verbo “leave” – em português, deixar – no passado. Assim, copyleft tem um significado próximo de "cópia autorizada". O slogan do copyright,

“all rights reserved”, ou seja, "todos os direitos reservados", no copyleft transforma-se em "All rights reversed": "todos os direitos invertidos". Um exemplo clássico de utilização do copyleft é o sistema

operacional Linux, a princípio desenvolvido em grupos de entusiastas do uso do computador pessoal, ajudando a popularizar esse equipamento, e depois tendo a participação das maiores empresas de tecnologia do setor, também interessadas em popularizar os computadores pessoais. Para mais informações, disponível em: https://www.infoescola.com/comunicacao/copyleft/. Acesso em: 14 jun. 2019.

42Disponível em: https://cyberculturabr.wordpress.com/2017/02/15/o-manifesto-hacker/. Acesso em: 01 jul. 2019.

43Disponível em: https://github.com/hackersBR/hackersbr.github.io/blob/master/manifesto.md. Acesso em: 01 jul. 2019.

60

Mídia NINJA e FdE (ele é entrevistado nesta pesquisa), coloca entre seus princípios “Toda informação deve ser livre” e “desconfie da autoridade - promova a descentralização”.

Mesmo que os aportes das tecnologias digitais tenham sido confiscados pelo chamado Gafam (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft), os ativistas dos movimentos sociais e os hacktivistas desempenham um papel no desenvolvimento desse campo digital, atuando no desenvolvimento de ferramentas participativas de verificação, dotando os movimentos de ferramentas de mobilização que permitem resistências, contribuindo para evitar paralisias e facilitando a disseminação de uma narrativa própria dos movimentos (TUFEKCI, 2019).

A apropriação de softwares livres permitiu o desenvolvimento e rápida ampliação de coletivos como a Mídia NINJA. É recorrente em entrevistas, palestras, oficinas dos ninjas, que eles recorram a formulação de que “uma massa de mídias estaria a substituir a mídia de massas”. A posição, tanto faz uma referência inversa ao modelo concentrado da mídia hegemônica, como aponta para a ideia de um modelo com uso livre dos softwares, acessíveis a todos.

Seguindo a ideia de liberdade de acesso defendida pelo hacktivismo, a Mídia NINJA, como os demais coletivos, disponibilizam gratuitamente o conteúdo que produzem. Também permitem o compartilhamento livre do que veiculam. Parte dos coletivos usa licença Creative Commons (CC), que permite o compartilhamento gratuito mediante citação da fonte. O livre acesso ajuda a justificar os pedidos de financiamento coletivo a que a maioria desses agentes recorre.

Segundo Malini e Antoun (2013) há na ética hacker um envolvimento menos de dever ao trabalho e mais de paixão e entusiasmo por uma atividade. Para esses autores, esse sentimento é alimentado pela referência a uma coletividade de iguais (os hackers) e reforçada pela comunicação em rede.

A ideia de coletividade de iguais e em rede faz surgir uma prática hacker: a adoção disseminada de grupos virtuais de discussão. Assim também, na Mídia NINJA, o contato é permanente via grupos de Telegram. Observando os primeiros grupos de discussão hacker, Malini e Antoun (2013) consideram que eles são necessariamente mercados, pois ali algo se trama. Eles não se referem ao sentido capitalista de mercado, mas ao etimológico: a feira, o lugar onde tudo se troca – para afirmar que nesses grupos se constrói relações pessoais, formação cultural e trocas de experiência. Logo eles contribuem com a formação de laços sociais e são espaços sujeitos a influência das

61

emoções. Esse modelo de grupos de discussão também se vê em outras comunidades virtuais e listas que emergem nos anos 1980.

Os ninjas usam com frequência a expressão hackear, com o significado de agir por dentro de estruturas já existentes, como uma estratégia de reverter o uso de espaços institucionalizados em benefício das causas que defendem. Assim, pode-se dizer que quando quatro ninjas fixas trabalharam no Ministério da Cultura (entre 2015 a 2016)44, em funções de assessoramento de mídias digitais, tinham em vista hackear essa instituição em favor da produção cultural de grupos plurais e do midialivrismo. Esse sentido de hackear dialoga com a ideia de Wright (2019) sobre estratégias para “erodir” o sistema, a partir de mecanismos de atuação em que se integram à estrutura existente, atuando de baixo para cima, na busca de reverter algumas práticas, adotando medidas que beneficiam as causas defendidas pelo grupo que hackeou aquela instituição.

Fazendo referência a ideia de que a Mídia NINJA age como simulacro de instituições existentes (SAVAZONI, 2014; BENTES, 2015), pode-se afirmar que ela se utiliza das duas formas: tanto atua como simulacro, criando novas instituições; como seus integrantes participam de instituições já existentes, tentando hackea-las, com o objetivo de reverter alguns de seus usos.

Por fim, não deixa de ser curioso e/ou significativo que o nome NINJA seja um acrônimo - uma tradição hacker para nomear grupos.

Documents relatifs