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Zbigniew Brzezinski (1994), influente geopolítico e estrategista estadunidense, afirmou que o impulso imperial da Rússia ainda era forte e até mesmo parecia estar se fortalecendo41. Sua afirmação foi feita três anos após o colapso da URSS, em um contexto de crescimento da atuação militar russa em regiões que faziam parte do espaço soviético, como na Crimeia, na Moldávia (Transnístria), na Ossétia, na Geórgia e no Tadjiquistão. Unindo o forte sentimento nacionalista no país, em que dois terços da população ainda via a dissolução da URSS como um trágico erro, à incursão militar nos países da CEI, Brzezinski tinha certeza de que a Rússia não aceitara o destino da URSS, que transformou quinze Estados que estiveram anos – e até séculos – sob sua influência em repúblicas independentes. Para ele, o “urso russo” ainda deveria ser contido.

A proclamação da independência ucraniana, em 01 de Dezembro de 1991, provocou a mais hostil reação de Moscou dentre todas as declarações de independência até aquele momento. Os russos acreditavam que os ucranianos eram tão próximos etnicamente, historicamente e culturalmente que os dois povos pertenciam a uma mesma nação. “Era como se a independência da Ucrânia estivesse desfazendo a nação russa” (SZPORLUK, 1997, p. 92). No entanto, os russos acreditavam que “sua independência era um fenômeno temporário, uma anomalia” (TOLZ, 2002, p. 239).

Assim, antes mesmo do fim formal da URSS, em 1991, temerosa de perder a influência sobre a sua irmã eslava, a Rússia indicou o desejo de manter unidas o máximo possível de ex-repúblicas soviéticas.

Boris Yeltsin pretendia criar uma nova forma institucional que fosse similar ao bloco desfeito. A participação da Ucrânia em tal instituição era uma exigência russa, o que é sintomático da sua importância para Moscou, tanto no aspecto identitário quanto por considerações geopolíticas e econômicas. Sem a Ucrânia, o futuro da Rússia era o de um poder às margens da Europa. Em união com a Ucrânia, a Rússia se tornaria uma grande potência no coração da Europa. Dessa forma, em 08 de Dezembro de 1991, os líderes de Rússia, Ucrânia e Belarus entraram em acordo sobre a fundação de uma entidade distinta da Soviética, algo como uma Comunidade de Estados Eslavos. A organização tinha uma profundidade institucional menor do que desejava o presidente russo, mas foi o único desenlace possível frente à recusa ucraniana de formar uma nova federação (DONALDSON; NOGEE apud ADAM, 2008, p. 66).

Com a concordância de mais oito repúblicas soviéticas em se juntarem à nova organização,

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“Russia’s imperial impulse remains strong and even appears to be strengthening” foi a afirmação de Zbigniew Brzezinski, na Foreign Affairs de Março-Abril de 1994.

em 25 de Dezembro de 1991 foi criada a CEI. “A constituição da CEI foi motivada pelo desejo da Rússia de defender seus interesses e influências nas partes-chaves da antiga URSS” (MIELNICZUK, 2006, p. 237). “Ao criar a organização na qual seria o centro e a liderança incontestável, a Rússia demonstra o quão difícil era, para si, ser encarada apenas como um Estado comum, no sentido de ser desprovido de domínio formal sobre outro país” (ADAM, 2008, p. 67). A CEI previa a manutenção de um espaço econômico e militar unitário e uma política exterior comum englobando onze das quinze ex-repúblicas soviéticas.

No entanto, os planos russos foram desfeitos quando as medidas de integração militar, política e econômica propostas por Moscou não receberam aceitação por todos os países da CEI, em especial a Ucrânia. Como afirma Mielniczuk (2006), foi o princípio da transparência das fronteiras dentro da própria CEI que distanciou a Ucrânia das estruturas dessa organização, uma vez que o princípio significava, na prática, que os países da Comunidade não teriam direito ao reconhecimento de sua integridade territorial pelos outros membros.

Assim, logo no discurso de posse presidencial na Ucrânia, Leonid Kravchuk deu mostras de que buscava afastar o seu país do domínio russo. Naquela ocasião, o presidente ucraniano classificou seu país como “o mais novo Estado europeu, que busca se integrar às estruturas europeias” (TRADUÇÃO NOSSA - SOLCHANYK, 1991) e, no ano seguinte, atacou diretamente a Rússia, afirmando que “os interesses imperiais russos atingiram o ponto mais alto de desrespeito em relação a um outro Estado e a Ucrânia independente não permitirá que ninguém dite nenhum tipo de condição ao país” (TRADUÇÃO NOSSA - SOLCHANYK, 1992).

Devido a sua grave crise econômica e ao fracasso da CEI, a Rússia ficou cada vez mais fragilizada no sistema internacional. De acordo com Adam (2008), a única solução para seus problemas internos, portanto, foi procurar a colaboração das potências ocidentais. Para o Kremlin, a ajuda apenas seria concedida se a Rússia mostrasse que não intencionava restaurar o poderio soviético. Dessa forma, Yeltsin e Andrei Kosyrev, seu Ministro das Relações Exteriores, implementaram uma forma de isolamento em relação aos Estados do CRS Pós-Soviético. Todavia, essa política isolacionista em relação aos países da CEI foi repelida internamente. Os milhões de russos associavam as dificuldade econômicas e a perda do poderio internacional russo à figura de Yeltsin que, cercado por uma equipe pró-Ocidente liderada por Kosyrev, promoveu reformas democráticas e passou a criticar o passado czarista e soviético da nação, associando o modelo ocidental como o ideal.

Foi só a partir de 1996, quando da queda de Kosyrev, que ocorreram mudanças profundas na política externa russa em relação aos vizinhos da CEI. Yevgeny Primakov foi escolhido como Ministro das Relações Exteriores, rompendo definitivamente com o isolacionismo e atestando a

relevância que os vizinhos tinham para a Rússia. Como consequência, “as lideranças políticas russas procuraram, de uma forma ou de outra, mediante um elemento de poder ou outro (político, econômico e cultural, etc.), manter a Rússia como ator hegemônico do CRS Pós-Soviético” (ADAM, 2008, p. 68-69).

Esse curto intervalo de tempo em que a Rússia desviou do seu curso natural de afirmação de seu poder imperial gerou intenso descontentamento popular. Interessante análise é feita por O'Loughlin e Talbot (2005) sobre os motivos para a insatisfação:

We hypothesize that the territorial reconfiguration of the Russian state has affected ordinary Russians’ sense of national identity (both positively and negatively), and that this, in turn, has influenced public opinion across a wide range of political, economic, and social issues. The collapse of the Soviet Union generated new mental maps for Russians, maps that do not always match the contemporary political map of state borders. Such imaginings of Russia are frequently connected to beliefs about what sort of country Russia is and should be, how Russia is viewed by the rest of the world, and how it is shaped by Russian foreign policy objectives (O'LOUGHLIN E TALBOT, 2005, p. 24).

Dessa forma, entende-se que a perda territorial da Rússia com a desintegração da URSS e o consequente isolacionismo de Yeltsin levaram o país a uma crise de identidade. Os russos, nesse período, tiveram não só que lidar com uma tumultuada transição econômica e política, mas também com a re-conceitualização de seu país dentro de um território no qual eles tinham poucos antecedentes históricos. O problema se assentava na dificuldade em definir o que era “russo” e o que era a “identidade russa”, pois ambos não se limitavam ao espaço da União Soviética. Assim, para eles, o desmantelamento da URSS não era apenas o colapso do regime comunista, mas também representava a dissolução do império. Novamente, O'Loughlin e Talbot (2005) trazem um interessante diagnóstico a respeito da auto-percepção dos russos:

This peculiarity of Russia developed because the nation never had to “choose” what or who is “Russian”—a concept never clearly defined. All peoples residing within the state’s borders were Russian (Rossiyskiy/Rossiyskaya) regardless of whether or not they were ethnically Russian (Russkiy/Russkaya)42, simply by virtue of being subjects of the Tsar

(O'LOUGHLIN E TALBOT, 2005, p. 29).

Uma pesquisa foi conduzida pela Fond Obshchestvonnoye (Fundação para a Opinião Pública da Rússia), em 2003, com o objetivo de investigar as preferências e as percepções dos russos quanto a assuntos culturais e geopolíticos relacionados aos países que fizeram parte da URSS. Os

42 Angelo Segrillo (2012) explica a diferença entre Ruskiy e Rossiyskiy. Os primeiros são conhecidos como russos

étnicos, por serem filhos de pai e mãe russos. O segundo tipo se refere aos nascidos no território russo ou que vivem por lá. Essa diferenciação está relacionada à forma como a nacionalidade é definida na Rússia, que é feita pelo “direito de sangue”, ou jus sanguinis. Essa forma de definição da nacionalidade tem eternizado as diferenças étnicas no país há séculos, afinal, todos são considerados russos igualmente, não importa se sejam nascidos de pai e mãe russa ou se sejam filhos de brasileiros que tenham nascido em Moscou.

resultados são interessantes. Somente 45% dos entrevistados responderam que aceitavam as atuais fronteiras da Rússia como as “verdadeiras” fronteiras do país, indicando que a maioria dos russos não consentiam com o desmembramento da URSS. No entanto, quando perguntados como desejavam que a reunificação com as ex-repúblicas soviéticas fosse feita, o resultado surpreendeu, pois apenas 37% dos entrevistados afirmaram que a Rússia poderia utilizar todos os meios possíveis para conquistar suas “verdadeiras” fronteiras. O resultado era a indicação de um pragmatismo da população no que tange aos custos que envolviam tal projeto (O'LOUGHLIN E TALBOT, 2005, p. 46).

A transformação da mentalidade russa – trazendo maior auto-estima e um sentimento coletivo de renascimento da grande potência adormecida – se materializou na figura de um homem: Vladimir Putin. No “manifesto” de Putin, publicado no dia 30 de Dezembro de 1999, um dia antes de assumir a presidência, o futuro presidente da Rússia já deixava claro que ser uma grande potência era um dos valores tradicionais da Rússia:

Belief in the greatness of Russia. Russia was and will remain a great power. It is preconditioned by the inseparable characteristics of its geopolitical, economic and cultural existence. They determined the mentality of Russians and the policy of the government throughout the history of Russia and they cannot but do so at present (PUTIN, 1999, p. 09).

O discurso de Putin satisfazia os desejos de uma população de 146,3 milhões de pessoas43 que, há anos, clamava pela recuperação do prestígio internacional do país. A noção de que a Rússia sempre foi uma grande potência imperial está arraigada na sociedade, de forma que, em 1999, o instituto Yuri Levada Analytical Center realizou uma pesquisa que perguntava se os russos apoiavam a ideia de a Rússia recuperar seu status de superpotência. O resultado impressionou: 59% das pessoas responderam “definitivamente sim”. No ano seguinte, o mesmo instituto perguntou o que esperavam do novo presidente e 55% dos entrevistados responderam que, em primeiro lugar, desejavam que a Rússia recuperasse seu status de superpotência. Ressalta-se que os russos somente tinham uma expectativa maior do que essa: o fim da guerra na Chechênia e da tensão no norte do Cáucaso, que recebeu 56% dos votos positivos dos entrevistados44.

No final de seu primeiro mandato como presidente, em 2008, Putin já havia solucionado a crise identitária russa, restaurando símbolos das eras czarista e soviética45, além de ter recuperado o

43 Essa era a população russa em 2001, de acordo com o censo do país, publicado pelo Serviço de Estatísticas da

Federação Russa (Rosstat). Disponível em: http://www.gks.ru/wps/wcm/connect/rosstat_main/rosstat/en/main/. Só para curiosidade: a população da Rússia, segundo estimativas de julho de 2014, encolheu e é, hoje, de 142.470.272 pessoas.

44 Essas e outras estatísticas do Instituto Levada podem ser acompanhadas pelo link

http://en.d7154.agava.net/sites/en.d7154.agava.net/files/Levada2011Eng.pdf.

prestígio internacional da Igreja Ortodoxa russa46. Ademais, a política externa russa passou por uma evolução surpreendente, com mais assertividade em seu “Exterior Próximo”, em especial no que tange à Ucrânia. Como consequência, Putin terminou 2008 com 83% de aprovação popular47.

A Rússia de Putin seguiu uma política mais sistemática e diferenciada no tocante aos demais países do CRS Pós-Soviético. Por se considerar uma superpotência regional, Putin lutou para reconstruir sua posição na periferia pós-soviética durante os anos de seu governo, através de instrumentos econômicos, políticos e até mesmo militares. Como a predominância regional era considerada vital para manter seu status de grande potência no mundo, os países da CEI se tornaram a prioridade máxima da política externa multivetorial da Rússia. Entendia-se que, se os ideais de política externa fossem bem implementados, essa estratégia preparia a restauração das posições de poder da Rússia além do Exterior Próximo no longo prazo. Para Secrieru (2006):

In the core of the “CIS project” there is an assumption that even if Russia is poor and underdeveloped according to Western standards, it remains the metropolitan power of Eurasia; and as the leading power of the region, it is committed to a strategy that prevents any outside actor from undermining Russian interests. That is why Russia behaved simultaneously as an old colonial power in retreat and as a young expansionist state, as a guardian of the status quo and as a dynamic predator, while its policy style betrayed a fusion of superiority and inferiority (SECRIERU, 2006, p. 293).

De acordo com Secrieru (2006), o projeto de Putin para restauração de sua influência nos países do CRS Pós-Soviético incluía uma base institucional multinível, com o estabelecimento de novos tratados de cooperação, cúpulas de chefes de Estado e de Governo e acordos bilaterais. Como exemplo, em 2003 foi criado Espaço Econômico Único pelos presidentes da Rússia, Ucrânia, Belarus e Cazaquistão com objetivo de estabelecer, de forma gradual, uma estrutura integrada que promoveria uma política macroeconômica comum, a harmonização da legislação sobre comércio, competição e monopólios naturais, além de promover a livre circulação da mão-de-obra, bens, serviços e capitais. Os líderes russos vislumbravam a criação até mesmo de uma união monetária no futuro.

É necessário salientar, também, que a política de restauração de sua influência sobre os países da CEI passava pela boa relação da Rússia com os vários enclaves separatistas do CRS Pós- Soviético. Nesse cenário estão incluídas as regiões da Transnístria, do Nagorno-Karabakh, da soviético como o hino do país (com uma nova letra, no entanto) e abandonou o feriado nacional de 07 de Novembro (da época bolchevique) para substitui-lo pelo 04 de Novembro, que comemora a derrota dos poloneses, ocorrida em 1612 (STENT, 2008, p. 1091).

46 Em 2007, Putin apoiou a reconciliação entre o Patriarcado de Moscou e o líder da Igreja Ortodoxa russa no exterior,

pondo um fim no racha que já durava 80 anos que dividiu os cristãos ortodoxos russos após a revolução bolchevique (STENT, 2008, p. 1091).

47 O Instituto Levada Center também tem conduzido a pesquisa a respeito da popularidade de Putin desde 1999. Fonte:

Abecásia e da Ossétia do Sul. De forma a ampliar seu domínio sobre esses territórios, foram organizadas mini cúpulas da CEI com o apoio de Moscou para ações de resistência contra os países do qual faziam parte. Além disso, os líderes separatistas tinham total acesso às autoridades centrais russas para troca de opinião e solicitação de apoio material para suas ações (SECRIERU, 2006, p. 295-296).

Apesar de a política russa de retorno do status grande potência ser direcionada a todos os Estados do CRS Pós-Soviético, alguns aspectos tornam a Ucrânia o país de maior destaque dentro do conjunto da CEI. A Concepção de Política Externa48, aprovada por Putin em 2013, dá uma indicação do papel singular que a Ucrânia tem para a Rússia quando afirma que, entre as prioridades regionais da política externa russa está “construir relações com a Ucrânia como um parceiro prioritário dentro da CEI” (RÚSSIA, 2013, p. 13).

Essa determinação, somada à disposição de “assegurar uma proteção abrangente dos direitos e interesses legítimos dos cidadãos russos e compatriotas residindo no exterior” (RÚSSIA, 2013, p. 02) explicam a atuação russa na crise ucraniana de 2014, que culminou na anexação da península da Crimeia pela Rússia, região com maioria da população russa.

É importante ressaltar que a classificação da Ucrânia como parceira estratégica da Rússia encontra consonância dentro da sociedade russa. Novamente, O'Loughlin e Talbot (2005) trazem o resultado de uma pesquisa, feita em 2003, que demonstra o papel que tem a Ucrânia na consciência dos entrevistados. Quando perguntados “qual país da ex-URSS você considera mais próximo culturalmente da Rússia?”, mais de 86% dos entrevistados afirmaram ser Ucrânia e Belarus (O'LOUGHLIN E TALBOT, 2005, p. 36). Esse resultado não causa surpresa, pois apenas atesta que o longo passado compartilhado, a semelhança cultural e linguística e os laços econômicos entre os três países eslavos promoveram vínculos que vão além de um interesse apenas político e estratégico do governo russo.

Assim, somando a identidade comum aos interesses geopolíticos e à importância econômica destacada da Ucrânia para a Rússia, esse Estado eslavo fica no centro do componente imperial da Rússia, conforme será demonstrado no próximo tópico.

3.2 A IDENTIDADE COMO FATOR DETERMINANTE DA RELAÇÃO ENTRE RÚSSIA

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