A relação especial com os ACP sofreu grandes pressões devido a uma série de factores, entre os quais: menos interesses comuns e atenuação da influência dos laços, nomeadamente linguísticos, culturais e outros, à medida que se consolida a independência das antigas colónias (quando Lomé I foi assinada existiam laços históricos fortes e uma interdependência mútua entre a Europa e os Estados ACP, mas hoje estes países não constituem uma prioridade para a UE em termos geopolíticos, económicos ou de segurança); questões políticas; liberalização do comércio (o regime comercial de Lomé foi posto em questão, quer por razões de eficácia, quer de aceitabilidade política, visto que apesar do acesso preferencial aos mercados europeus, as exportações dos países ACP têm vindo a diminuir nas últimas décadas, não havendo tão pouco uma efectiva diversificação das exportações, para além das disposições
comerciais de Lomé serem consideradas “incompatíveis” com as novas regras internacionais acordadas no seio da OMC); complexidade e impacto questionável sobre o desenvolvimento (se em teoria, Lomé pode ter sido considerada como o mais completo quadro de cooperação Norte-Sul, porém, na prática, tornou-se, uma ferramenta bastante complexa, com demasiados objectivos, instrumentos e procedimentos, resultando muitas vezes em atrasos na execução da ajuda, burocratização e pouca eficácia).
É necessário ter também em atenção as condições externas em que Lomé se inseriu, nada propícias ao desenvolvimento económico ou à expansão das exportações dos ACP, tais como a estagnação da procura mundial, os custos da energia, a degradação dos termos de troca para alguns países e o estrangulamento provocado pelos pagamentos da dívida externa, problemas da oferta, isto é, o próprio comportamento evolutivo das economias dos ACP e das estratégias económicas que adoptaram.
Portanto, a geometria variável do delineamento sócio-económico dos Estados ACP (factores de instabilidade política; flutuações do mercado de produtos de base; fardo das dívidas externas; falta de transparência da gestão do Estado; clientelismo das elites; deterioração das infra-estruturas, etc.), o limitado impacto das “preferências Lomé”, a erosão previsível das margens preferenciais, bem como a necessidade de prever disposições compatíveis com as novas regras da OMC, exigiam uma análise das diferentes opções que se colocavam à UE e aos países ACP na definição de novos regimes comerciais, visando contribuir para uma melhor inserção deste grupo de países no sistema económico internacional, no sentido de os ajudar a tirar melhor partido das possibilidades de desenvolvimento que lhe eram oferecidas e a eliminar os riscos de uma marginalização crescente.
Efectivamente, a plena integração dos países ACP na economia mundial e, em particular, a definição do seu papel na rede de relações económicas externas da UE, em constante evolução, representavam o grande desafio a enfrentar na perspectiva das novas relações UE-ACP, após o ano 2000. A inexistência de um enquadramento adequado poderia conduzir à dispersão do grupo ACP, ao enfraquecimento dos laços que uniam certos países e regiões ACP e a UE, bem como a uma maior marginalização dos países ACP mais pobres.
Daí a estratégia dos ACP no limiar do século XXI se basear na redução da marginalização, a qual só poderia ser superada através de uma estratégia inovadora direccionada para a melhoria do enquadramento económico e para a criação de medidas de incentivo propensas a estimular investimentos e a iniciativa privada, desejando uma maior e melhor integração na economia mundial.
Um dos elementos-chave a esse processo de inserção progressiva consistia no facto de, em muitos países, os operadores privados não terem confiança devido à falta de um quadro político estável e transparente. A reduzida dimensão dos mercados internos, a debilidade das infra-estruturas, os progressos insuficientes na integração económica e regional e a insegurança dos investimentos devido à instabilidade da situação económica, impediam o desenvolvimento de novas capacidades de produção e atrasavam o desenvolvimento local das indústrias de serviços.
Por conseguinte, era necessário um forte sinal da vontade política de todas as partes em estabelecer laços económicos e comerciais mais estreitos, em assumir compromissos firmes e transparentes e em criar um clima de credibilidade e de confiança indispensável ao desenvolvimento económico.
Deste modo, neste período, apresentavam-se numerosas alternativas para as futuras relações comerciais UE-ACP, podendo ser identificadas, sobretudo, quatro (SGL e ISCSP, 1999; Medeiros, 1998), as quais deveriam contemplar as vertentes do princípio de parceria subjacente a essas mesmas relações, a saber: a manutenção do status quo ou via da não-reciprocidade; a aplicação do SPG da Comunidade, numa base bilateral ou multilateral; a reciprocidade uniforme ou via da reciprocidade Sul-Sul; a reciprocidade diferenciada ou via combinatória Norte-Sul.
De salientar que estas diferentes opções não se excluíam mutuamente, podendo também ser combinadas, de modo a permitir uma adaptação do regime comercial, em função do nível de desenvolvimento dos diferentes países em causa e da sua vontade política de aprofundar as relações.
É, por isso, que as propostas da Comissão Europeia apontavam no sentido de um reforço da dimensão política (Pinheiro, 1998) das relações UE-ACP, uma vez que as condições políticas de determinado país poderiam ter um impacto positivo nas medidas de cooperação e desenvolvimento.
A promoção de um quadro político e democrático estável, propício às liberdades fundamentais, ao Estado de direito e à «boa governação», representava uma condição prévia para o êxito das políticas de desenvolvimento, devendo também ser considerada prioritária a prevenção dos conflitos, e quer os países ACP quer a UE, deviam procurar formas de sanar as causas subjacentes aos conflitos violentos.
A UE e os países ACP estabeleceram, a 3 de Fevereiro de 2000, as primeiras conclusões para um novo acordo de parceria, detentor, se possível, de uma forte componente política, no sentido de promover a redução da pobreza, a «boa governação» e a luta contra a corrupção. Novamente se defendia que deveria ser observado o respeito
pelos direitos humanos, os princípios democráticos (para reforço do envolvimento da sociedade civil e de organizações não governamentais) e a aplicação de um Estado de direito, sendo igualmente necessária uma compatibilização com as regras da OMC, de forma a permitir a integração dos países ACP na economia mundial.