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1. Introduction

1.2. Présentation de la petite GTPase Rab11

1.2.3. Effecteurs de Rab11

Nem exaltado, nem humilhado, o Cogito de Ricoeur é “ferido”. Entre dois pólos extremos, Ricoeur busca construir uma hermenêutica do si que quer “se manter à igual distância do Cogito exaltado por Descartes e o Cogito proclamado decaído por Nietzsche.” (SA35). Jean Greisch chama a atenção para o fato de que esta “igual distância” não constitui de modo algum uma média medíocre:

“É preciso aplicar à hermenêutica do si o que Ricoeur nos diz da idéia aristotélica da ‘justa medida’: longe de representar um compromisso bastardo, que teria sua fonte numa falta de audácia, a capacidade de superar os radicalismos ‘extremistas’ é a expressão da ‘força tranqüila’ de um pensamento cuja preocupação primeira é a de ‘salvar os fenômenos’. É nesse sentido que a hermenêutica do si se encontra ‘à igual distância’ das duas posições antagônicas; ela consegue ocupar um lugar epistêmico e ontológico ‘situado para além desta alternativa’(SA27)”31

Para além desta alternativa cogito e anti-cogito, Ricoeur, a partir das três intenções filosóficas, que encontram apoio na gramática, propõe uma hermenêutica do si que ponha em relevo:

“os três traços gramaticais evocados acima, a saber: o uso do se e do si em casos oblíquos, o desdobramento do mesmo segundo o regime do idem e do ipse e, a correlação entre si e outro que si. A estes três traços gramaticais correspondem os três traços maiores da hermenêutica do si, a saber, o desvio da reflexão pela análise, a dialética da ipseidade e da mesmidade, e enfim a da ipseidade e da alteridade.” (SA28)32

Estes três traços estão presentes nos estudos que compõem Soi-même comme un

Autre: 10 estudos subdivididos em quatro conjuntos, cada um dos quais corresponde a um modo da questão quem? cuja resposta é si, a saber: Quem fala? Quem age? Quem se narra? Quem é o sujeito moral da imputação?

31 Jean Greisch. Paul Ricoeur. L´Itinérance du Sens. Paris: Millon, 2001, p.380: “Il faut appliquer à

l´herméneutique du soi ce que Ricoeur nous dit de l´idée aristotélicienne du ‘juste milieu’: loin de représenter um compromis bâtard, qui aurait sa source dans un manque d´audace, la capacité de dépasser les radicalismes ‘extrémistes’ est l´expression de la ‘force tranquille’ d´une pensée dont le souci premier est de ‘sauver les phénomènes’. C´est en ce sens que l´herméneutique du soi se trouve ‘à égale distance’ des deux positions antagonistes: elle réussit à occuper un lieu épistémique et ontologique ‘situé au-delà de cette alternative’ (SA27)”

32 “aux trois traits grammaticaux évoqués plus haut, à savoir l´usage du se et du soi en cas obliques, le

dédoublement du même selon le regime de l´idem et de l´ipse, la corrélation entre soi et autre que soi. À ces trois traits grammaticaux correspondent les trois traits majeurs de l´herméneutique du soi, à savoir: le détour de la réflexion par l´analyse, la dialectique de l´ipséité et de la mêmeté, celle enfin de l´ipséité et de l´altérité.”

O primeiro conjunto (estudos I e II), que se refere à questão quem fala?, diz respeito a uma filosofia da linguagem, tanto em seu aspecto semântico quanto pragmático. No nível semântico, “a linguagem é tomada em seu movimento referencial, isto é a designação de uma coisa.” (IIP57). Aqui, trata-se “os enunciados independentemente da enunciação e do enunciador” (IIP58). É a pragmática que situará os enunciados no contexto, levando em conta as condições da interlocução: falar é dirigir-se a. Aqui, os aportes da filosofia analítica são primordiais, e Ricoeur dialoga com Frege, Russel, Strawson, Austin e Searle, entre outros. Também convoca autores de outras linhagens, como por exemplo, Émile Benveniste33 que, a partir de uma análise estrutural da linguagem, desloca a unidade do sentido da linguagem: esta não deve ser buscada na palavra, como queria Saussure, mas na frase ou “instância de discurso” (RF 39), discurso que põe em evidência “o sujeito da enunciação”. Ricoeur salienta o parentesco entre os “speech acts” dos analistas de língua inglesa Austin e Searle e a “instância de discurso” do lingüista francês Benveniste (Cf. SA 58, nota 1)

Não se trata de tentar casar teorias freqüentemente contraditórias entre si, mas sim de, através do recurso à filosofia analítica, marcar o desvio necessário para a hermenêutica do si, uma vez que esta se recusa a aceitar a imediaticidade do sujeito, acentuando o caráter reflexivo do si.

“O recurso à análise, no sentido dado a este termo pela filosofia analítica, é o preço a pagar para uma hermenêutica caracterizada pelo estatuto indireto da posição do si. Por este primeiro traço, a hermenêutica se revela uma filosofia do desvio: o desvio pela filosofia analítica” (SA 28)34

Como bem lembra Jervolino, o questionamento do sujeito vem acompanhado da “exploração das formas múltiplas para falar de modo não subjetivista deste ser si-mesmo que somos”35, modo este largamente proporcionado pela filosofia analítica. A questão

quem fala? encerra duas outras: de quem se fala ao designar de modo referencial a pessoa (semântica)? e quem fala ao se designar si mesmo enquanto locutor (pragmática)?

33 Como se verá adiante, Émile Benveniste ocupa um importante lugar na obra de Ricoeur, por ter percebido o

que o estruturalismo perdeu de vista : “a implicação do sujeito no discurso” (RF 45).

34 “Le recours à l´analyse, au sens donné à ce terme par la philosophie analytique, est le prix à payer pour une

herméneutique caractérisée par le statut indirect de la position du soi. Par ce premier trait, l´herméneutique se révèle être une philosophie du détour: le détour par la philosophie analytique.”

O segundo conjunto (estudos III e IV) diz respeito a uma filosofia da ação, e aqui também os aportes da filosofia analítica são essenciais, notadamente em sua abordagem pragmática. Conforme explica Edgar Antonio Piva, em seu artigo: “A questão do sujeito em Paul Ricoeur”: enquanto autores como Anscombe e Davidson desenvolvem uma teoria semântica da ação, que se ocupa da análise lógica da ação, “a abordagem pragmática da ação, na medida em que leva em conta a situação de interação, é capaz de abordar a questão da atribuição explícita da ação a um sujeito, o poder do agente de designar-se a si mesmo como autor de suas ações”36; é justamente isso que interessa a Ricoeur: “a implicação do agente na ação, a atribuição (‘ascrição’) ou referência da ação a seu agente, a questão quem?, quem age?, mas suspendendo as determinações ético-morais tanto da ação quanto do agente”37. (Ao nível ético-moral, a ascrição se torna imputação). Este segundo subconjunto liga-se ao primeiro: a problemática da ação está vinculada à da linguagem em dois sentidos: em primeiro lugar, pois a ação se diz nos enunciados e “é nos atos de discurso que o agente da ação se designa como aquele que age” (SA29) e, além disso, “os atos do discurso são eles próprios, ações e (...), por implicação, os locutores são também agentes” (SA29). Os estudos de Austin e Searle evidenciam este entrelaçamento entre dizer e fazer. “A questão quem fala? e a questão quem age? aparecerão assim estreitamente entrelaçadas” (SA29).

O terceiro subconjunto (estudos V e VI) responde à terceira questão: “quem se narra”, remete portanto à problemática da identidade pessoal ou identidade narrativa.

“A questão da identidade, ligada à da temporalidade, será retomada no ponto onde a havia deixado Temps et Récit III sob o título de “identidade narrativa”, mas com novos recursos obtidos pela análise da identidade pessoal em função de critérios objetivos de identificação.” (SA29)38

Aqui também a passagem pela filosofia analítica tem uma dupla função: a de “desvio”, que permite escapar da imediaticidade da posição de sujeito, como também possibilita tratar do sujeito de modo não subjetivista, como tinha sublinhado Jervolino.

36 Edgard Antonio Piva. “A Questão do Sujeito em Paul Ricoeur”. In: Síntese, Belo Horizonte, v.26, n.85,

1999, p.215

37 Idem, p.215

38 “La question de l´identité, liée à celle de la temporalité, sera reprise au point où l´avait laissée Temps et

Récit III sous le titre de l´ “identité narrative”, mais avec des ressources nouvelles procurées par l´analyse de l´identité personnelle en fonction de critères objectifs d´identification.”

Tratar-se-á de abordar a dialética idem-ipse, que constitui o segundo traço gramatical da hermenêutica de si. Esta problemática está estreitamente ligada à da linguagem e da ação, na medida em que ao falar de si, o sujeito é “sujeito da ação narrada”. Neste estágio, será possível falar do sujeito como homem agindo e sofrendo.

O quarto subconjunto (estudos VII,VIII e IX) aborda as determinações éticas e morais da ação: o autor analisa “as dimensões éticas e morais de um sujeito a quem a ação, boa ou não, feita por dever ou não, pode ser imputada (imputée).” (SA30) Trata-se de responder à questão: quem é o sujeito moral da imputação? Embora a dialética ipseidade- alteridade esteja presente nos estudos anteriores, pois o si não pode ser separado do outro, é aqui, no âmbito da ética e da moral, que ela atingirá sua plena significação. “A autonomia do si aparecerá intimamente ligada à solicitude pelo próximo e à justiça para cada homem” (SA30). Aqui reside o que Paul Ricoeur gosta de denominar “sua pequena ética”, que ele assim define: “a visada da vida boa, com e para outrem, em instituições justas” (SA 202)39, definição que será examinada pormenorizadamente adiante. É suficiente, por ora, comentar que a ética ricoeuriana, diferenciada da moral, permite articular a problemática do si e do outro.

Estes estudos mostram bem a distância existente entre a hermenêutica do si e as filosofias do Cogito. “Dizer si, não é dizer eu. O eu se põe – ou é deposto. O si é implicado a título reflexivo em operações cuja análise precede a volta a ele mesmo” (SA30). Nesse sentido, é preciso ainda apontar duas características que evidenciam a oposição da hermenêutica do si tanto em relação à imediaticidade do ‘eu sou’ quanto à ambição de este ‘eu sou’ ser fundamento último.

A primeira diz respeito ao “caráter fragmentário” (SA30) dos nove estudos, necessário em função do desvio pela análise, como também em função da polissemia inerente à questão quem?: quem fala de que? quem faz o que? de quem e de que se faz a narração? quem é moralmente responsável de que? Diversas maneiras de falar do si, decomposto em quatro modos de ser. No entanto, por entre as linhas da fragmentação, pode-se entrever certa unidade temática: o agir humano. Nesse sentido, “a filosofia que se depreende da obra mereceria ser chamada filosofia prática e ser recebida como ‘filosofia segunda’” (SA31). Uma ressalva deve ser feita aqui, pois tal unidade temática não

privilegia nenhum dos termos da questão quem? “O sentido primeiro do agir humano consiste na autodesignação de um sujeito falante? Ou na potência de fazer do sujeito da ação? Ou na imputação moral da ação? Cada uma destas respostas tem seu próprio direito.” (SA32). A diversidade do agir é analisada sob uma tripla perspectiva: descrever, narrar, prescrever. A abordagem narrativa, que tinha sido privilegiada em Temps et Récit, serve aqui de ponte de ligação entre o descritivo (filosofias analíticas da linguagem e da ação) e a dimensão prescritiva (ética e moral).

O último estudo se caracteriza não somente por ser fragmentário, como francamente “exploratório” (SA32) caráter posto em evidência pela forma interrogativa de seu título: “Em direção a que ontologia?” Trata-se de um estudo mais propriamente ontológico, no qual a pergunta é “Que modo de ser é o do si , que tipo de ente ou entidade é o si?” (SA345), ou mais especificamente, se é possível colocar o agir humano sob a égide de um modo de ser fundamental. Aqui, é convocado Aristóteles acerca de sua polissemia do termo ‘ser’, não do ser enquanto substância, mas do ser enquanto ato e potência. Segundo Edgar Antonio Piva, Ricoeur

“reinterpreta a ontologia aristotélica do ato-potência, do ser como ato, através de Spinoza e de Leibniz. Ele relaciona o ato de ser com o conatus de Spinoza e com o appetitus de Leibniz (...) O ato reflexivo mediante o qual o sujeito se retoma, se apreende e se identifica, é manifestação do ato de ser, do esforço por existir.” 40

A segunda característica, que sublinha a distância entre hermenêutica de si e filosofias do Cogito, refere-se à noção de atestação. Esta diz respeito ao tipo de certeza à qual pode pretender uma hermenêutica do si. O tipo de certeza oferecido pela atestação se encontra, por assim dizer, no meio do caminho que nasce na hiper-certeza que o Cogito reivindica, e morre na diluição nietzscheana entre verdade e mentira.

“Enquanto créance (crédito?) sem garantia, mas também enquanto confiança mais forte do que qualquer suspeita, a hermenêutica do si pode pretender se manter à igual distância do Cogito exaltado por Descartes e o Cogito proclamado decaído por Nietzsche.” (SA 35)41.

40 Edgard Antonio Piva. “A Questão do Sujeito em Paul Ricoeur”, op. cit., p. 236

41 “En tant que créance sans garantie, mais aussi en tant que confiance plus forte que tout soupçon,

l´herméneutique du soi peut prétendre se tenir à égale distance du Cogito exalté par Descartes et du Cogito proclamé déchu par Nietzsche.”

Entre a necessidade de absoluta garantia oferecida por Descartes (que possibilita ao

Cogito sua pretensão de fundação última) e a ameaça generalizada da suspeita provinda de Nietzsche (que abala qualquer fundamento), Ricoeur busca um outro critério de verificabilidade, ou mesmo de verdade: aí se situa a atestação, que não deixa de ser um certo tipo de verificação dos saberes. Digo ‘um certo tipo’, pois se os termos verificabilidade ou verificação sugerem exclusão do erro, a atestação passa sempre pela suspeita.42 O tipo de saber a que pode pretender a hermenêutica do si ultrapassa a oposição clássica entre doxa (opinião) e episteme (ciência ou saber). Aproxima-se da doxa, enquanto é crença, mas dela se diferencia, pois não se trata de “crer que”, e sim de “crer em”. Nesse sentido está próxima do testemunho “na medida em que é na palavra da testemunha que se crê” (SA33). Mais do que crença, créance (crédito?).

“O parentesco entre atestação e testemunho se verifica aqui: não há ‘verdadeiro’ testemunho sem ‘falso’ testemunho. Mas não há outro recurso contra o falso testemunho que um outro testemunho mais crível: e não há outro recurso contra a suspeita que uma atestação mais fiável.” (SA34)43.

Se atestação e testemunho se aproximam, de modo nenhum se confundem, pois a atestação é sempre atestação de si: ‘eu’ atesto, sendo este ‘eu’ entendido como ipse e não

idem. Trata-se de um certo tipo de confiança, “confiança no poder de dizer, no poder de fazer, no poder de se reconhecer personagem da narrativa, no poder enfim de responder à acusação pelo acusativo: eis-me! segundo uma expressão cara a Lévinas.” (SA34/35). (Atestação aqui, é consciência moral ou Gewissen). É assim atestação de si em todos os níveis (lingüístico, práxico, narrativo, prescritivo) é, enfim, confiança de ser si mesmo agindo e sofrendo. A atestação de si impede que a questão quem? se eclipse para dar lugar à questão o que? ou por que? A atestação assim não é apenas da ordem epistemológica, mas sobretudo ética: é confiança na capacidade do homem em dizer, fazer, se reconhecer e assumir sua responsabilidade moral. Trata-se de uma confiança, uma aposta44, por assim

42 Devo a Hélio Salles Gentil tal cuidado com a precisão dos termos, que põe em relevo a dimensão de

suspeita presente na noção de atestação.

43 “La parenté entre attestation et témoignage se vérifie ici: il n´y a pas de ‘vrai’ témoin sans ‘faux’ témoin.

Mais il n´y a pas d´autre recours contre le faux témoignage qu´un autre témoignage plus crédible; et il n´y a pas d´autre recours contre le soupçon qu´une attestation plus fiable.”

44 A noção de aposta é essencial na filosofia de Ricoeur: “A aposta que o melhor de todas as diferenças

dizer, na capacidade do homem que pode agir e sofrer, na possibilidade de humanidade do homem. Confiança no entanto sempre posta à prova, uma vez que, insiste Ricoeur, “a atestação da ipseidade é inseparável de um exercício de suspeita” (SA393)

Exposto o panorama geral da hermenêutica de si, concentremo-nos agora em um de seus momentos: a dialética idem-ipse, que diz respeito ao conceito de identidade narrativa e que responde a um dos modos da questão quem: “quem se narra?”

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