• Aucun résultat trouvé

Effect of operational conditions on solid circulation rate

Em um encontro anterior sugeri às crianças que pensassem em algo, qualquer coisa, que considerassem que as fizesse rir ou chorar ou, ainda, que para elas valesse ouro55, e que a trouxessem para o encontro seguinte. Comentei que se tratava de um exercício “para irem para casa pensando” e que não era preciso, naquele momento, me darem a resposta. Inclusive, sugeri que elas tentassem guardar segredo sobre suas escolhas. Mas sabemos que isso é muito difícil para elas.

Reforcei às crianças que elas podiam trazer qualquer coisa, e que cada uma contaria uma história sobre o que trouxesse (seus significados). Para despertar a curiosidade das crianças, comentei que eu conhecia uma história sobre um menino que guardava coisas que para ele valiam ouro, que lhe faziam rir e que lhe faziam chorar, mas que essa história eu só contaria no próximo encontro.

55

Este exercício foi inspirado no relato da experiência de trabalho de uma professora do Colégio de Aplicação da UFSC, desenvolvido com crianças dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental a partir da história Guilherme Augusto

Araújo Fernandes (FOX, 1995). Este relato foi apresentado durante o Seminário Ler e compreender o texto literário: lições de estratégias de leitura, ministrado

Durante esse momento, algumas crianças me perguntaram: – tem que dividir?; – e se a mãe não deixar trazer?; – pode ser as três coisas?; – pode ser algo que faça rir e chorar ao mesmo tempo?. Minhas respostas foram de que elas poderiam tomar a decisão que quisessem e que fosse a melhor e mais possível. Então, no encontro combinado, as crianças se sentaram na roda trazendo seus objetos, os quais algumas tentavam esconder. Porém, eu observei que duas crianças não traziam nada.

Figura 10 – As crianças e os objetos que traziam histórias

Fonte: Elaboração da pesquisadora (2015)

Perguntei como decidiríamos quem iniciaria as narrações. As crianças indicaram vários nomes, mas a Jéssica e a Josiane manifestaram que gostariam de começar. Enquanto isso, Vitor também manifestou que queria contar, mas disse que sua história era muito pequenininha, insinuando que por isso, talvez, ele não a contaria. Para incentivá-lo, falei que não importava o tamanho da história, mas, sim, os seus significados. Depois, ele nos contou sua história. Combinamos que eu ficaria para o final.

Para orientar as crianças em suas narrações, indiquei que começassem suas histórias apresentando o que haviam trazido, depois contando o que para elas significava e a história relacionada e, principalmente, que tentassem pensar em vários detalhes para nos contar.

Algo que pra mim vale ouro...

Jéssica: – É, ele (apontando para seu urso) vale ouro para mim. Eu ganhei ele em fevereiro desse ano, e meu tio, quando ele veio pra cá, ele me trouxe um urso e pra minha irmã uma bonequinha. E daí ele me fez muito feliz. Quando eu fico alegre e chego em casa durmo com ele, e pra mim vale ouro.

Pesquisadora: – Por que entre tantas coisas você escolheu o que vale ouro para você, o ursinho?

Jéssica: – Porque ele sempre tá comigo.

Josiane: – Pra mim ela (a boneca, segurando-a o tempo todo durante a narração como se segura um bebê) vale ouro. Eu ganhei da minha madrinha de natal do ano passado e quando eu vou brincar eu sempre brinco com ela junto. Não desgrudo dela.

Pesquisadora: – Por que você escolheu, entre tantas coisas, esta boneca?

Josiane: – Porque ela é minha filhinha, é bonitinha. (risos dos colegas) Roberta: – Eu trouxe essa foto (mostrando para todos o porta-retrato na roda) que pra mim vale ouro porque é a foto da minha família. Daí, era meu pai, meu irmão, minha mãe, eu tava aqui nessa barriguinha aqui ó (apontando a barriga da mãe grávida na foto). E pra mim vale ouro porque é a foto da minha família (olhos emocionados e brilhantes).

Pesquisadora: – Há outra coisa que você também havia pensado em trazer?

Roberta: – Trazer a minha mãe aqui na escola. Mas ela não podia vir porque ela tem que fazer um monte de serviço em casa.

Pesquisadora: – Mas de alguma forma você a trouxe, no retrato. Ana Julia: – É, aqui é minha família (apontando para uma foto), se dá de todo mundo vê? É, eu trouxe essa foto porque ela vale ouro pra mim porque é minha família. Essa é minha mãe, sou eu quando eu tinha quatro anos, esse é meu pai e minha irmã, que agora tem dezesseis anos. É, eu trouxe essa foto porque ela vale ouro pra mim, e foi no dia do aniversário da minha mãe, que faz cinco anos. É, eu dei essa foto pro meu pai porque mês passado era aniversário dele, e ela vale ouro pra mim porque é minha família e é muito importante pra mim.

Pesquisadora: – Você havia pensado em trazer esta foto desde o início, ou havia pensado em outra coisa também?

Ana Julia: – É, eu pensei em outra coisa, mas escolhi essa porque tava todo mundo da minha família.

Pesquisadora: – Que outra coisa você havia pensado?

Ana Julia: – Quando a minha mãe estava grávida, de mim, que valia ouro pra mim.

Vitor: – É do campeonato do Progresso, do torneio do Progresso, que a minha irmã me deu (referindo-se à medalha que segurava nas mãos). Daí, quando que ela chegou em casa, eles foram pra final mas não ganharam. Só ganharam a medalha. E aí eu fiquei feliz porque ganhei. Pesquisadora: – E o que a medalha significa pra você?

Vitor: – Vale ouro.

Pesquisadora: – Por que ela vale ouro pra você? Vitor: – Porque a minha irmã me deu!

Pesquisadora: – Você comentou antes que havia pensado em outra coisa também, o que era?

Vitor: – Uma foto do meu aniversário de um ano. Que tem umas mil lá em casa só do meu aniversário.

Pesquisadora: – E o que esta foto significa pra você? Vitor: – É, ouro também.

Pesquisadora: – E por que você trouxe a medalha e não a foto?

Vitor: – Porque a mãe tinha grudado naquele álbum lá, daí não deu de tirar.

Pesquisadora: – Como foi que sua irmã ganhou essa medalha?

Vitor: – É que ela, o time dela foi pra final e daí eles perderam, daí só ganharam oito pila e a medalha (rindo).

Andrei: (silêncio longo).

Pesquisadora: – Conta pra nós o que você trouxe e o que significa. Andrei: – Eu trouxe essa ceifa (segurando o brinquedo nas mãos). (silêncio)

Pesquisadora: – O que você pensou quando escolheu este objeto? Andrei: – Hum, eu não sei.

Pesquisadora: – Mas para você vale ouro, lhe faz rir ou chorar? Andrei: – Valia ouro.

Pesquisadora: – Por que você acha que vale ouro para você? Andrei: – Porque... (silêncio)

Pesquisadora: – Por que você escolheu a ceifa e não outra coisa? Andrei: – É, porque, porque eu quis trazer ela.

Vinicios Gabriel ao lado: – Daqui a pouco eu vou acabar dormindo. (silêncio)

Pesquisadora: – Como você a tem?

Andrei: – Eu ganhei do meu vô de natal, do ano passado. (silêncio) Pesquisadora: – Tem alguma coisa a mais que você gostaria de nos contar sobre isso que você escolheu?

Andrei: – Acho que é só isso!

Observo que o comentário de Vinicios Gabriel – Daqui a pouco eu vou acabar dormindo – pode ter interferido na narração de Andrei, desmotivando-o a narrar mais elementos de sua história. Em situações como esta eu procurava sempre demonstrar interesse pela história narrada, mesmo quando era preenchida por silêncios longos. Eu compreendia que essa era uma forma de demonstrar às crianças que a escuta de uma história deve ser sempre atenta e respeitosa, inclusive porque se tratava de histórias sobre a vida delas. Neste caso, se referia também à importante decisão que foi para Andrei trazer para o encontro algo que para ele valia ouro – um presente de natal que havia ganhado de seu vô (uma ceifa), e que cabe dizer, é muito representativo da cultura do campo onde as crianças vivem.

Estas narrativas foram produzidas durante as primeiras rodas de histórias. Isso explica também por que Andrei teve certa dificuldade de narrar mais detalhes de sua história. Porém, com o passar do tempo ele foi se envolvendo mais com o grupo e sentindo-se mais seguro, e isso contribuiu para a sua produção narrativa, e que é possível de se constatar por outras histórias narradas por ele e que são apresentadas no capítulo seguinte.

Arthur: – Eu trouxe uma coisa que vale ouro, a minha amizade! É, na verdade eu ia trazer uma coisa que eu pensei em trazer ontem. Uma chupetinha que eu tenho desde quando eu nasci. Mas eu acabei me esquecendo, eu trouxe a minha amizade. Porque eu sempre tive ela e sempre vou trazer ela comigo pra onde eu for e ir.

Pesquisadora: – Que bonito!

Depois, Arthur nos revelou que queria trazer uma mamadeirinha que para ele valia ouro, mas esqueceu em casa porque acordou tarde. Em outro encontro ele a trouxe e nos contou a história.

Camilly Vitória: – Preciso falar?

Pesquisadora: – Seria muito bonito se você contasse para nós.

Camilly Vitória: – Mas o que que eu vou precisar falar se é igual ao do Arthur?

Pesquisadora: – Então, começa contando o que você trouxe, depois, o que significa para você e por que você escolheu?

Camilly Vitória: – Tá bom.

Camilly Vitória: – É, eu me esqueci de trazer o que ia pegar, deixei em cima da cama. Daí, eu pensei rapidamente na minha amizade que eu tenho com a Jéssica. É, quando ela entrou nós ficamos amigas e daí até hoje nós somos amigas.

Pesquisadora: – E o que isso significa para você? Camilly Vitória: – É, pra mim vale ouro!

Pesquisadora: – E o que você havia pensado de trazer, mas ficou em casa?

Camilly Vitória: – Eu tinha pensado em trazer a minha boneca que eu ganhei do meu padrinho.

Pesquisadora: – Conta pra nós como ela é.

Camilly Vitória: – Ela é da minha cor (negra). Daí ela usa um vestidinho rosa, branco assim, e ela dá, é, ela tem os olhos azuis.

Após, espontaneamente, ela revelou para toda a roda que a Jéssica e a Roberta eram suas melhores amigas. Uma delas tem olhos azuis. Comentei com a Camilly Vitória que caso ela lembrasse, poderia trazer sua boneca no próximo encontro. Porém, isso não aconteceu, sempre pelo argumento de que havia esquecido.

Observei que as crianças estavam interessadas nos objetos trazidos pelos colegas. Então, como estratégia para não perdermos o foco nas histórias, comentei que ao final do encontro eu reservaria um tempo para elas poderem ver e tocar melhor os objetos, principalmente porque isso envolvia alguns brinquedos (boneca, ursinho, ceifa).

Algo que me faz rir, chorar e que vale ouro...

Julia: – Eu trouxe a foto da minha mãe, achei que ela não vinha na escola, né! Eu choro com ela (aponta a imagem da mãe na foto), porque quando ela me surra (risos). Ela me faz rir quando ela me faz cosquinhas, e pra mim ela vale ouro.

Pesquisadora: – Você escolheu esta foto por alguma razão? Julia: – Porque era a única que eu tinha.

Algo que me faz rir...

Vinicios Gabriel: – Eu trouxe uma foto. Acho que vai ter que passar um por um, porque de longe não dá pra ver. Eu trouxe essa foto que tem eu e o meu irmão. É, ela foi tirada quando eu era pequeno, e ela me faz rir. Vitor olhando a foto ao lado: – E faz eu rir também! (risos)

Outra criança pergunta: – Vale ouro?

Vinicios Gabriel: – Não! Isso, só faz rir. É, é só isso que eu posso dizer. Pesquisadora: – Por que você escolheu esta foto como algo que lhe faz rir?

Vinicios Gabriel: – Porque eu acho ela beemm engraçada! Pesquisadora: – O que aconteceu neste dia da foto?

Vinicios Gabriel: – Porque eu tava fazendo uma careta (referindo-se a ele na foto).

Pesquisadora: – Você sabe mais alguma coisa sobre este dia? Vinicios Gabriel: – Não.

Pesquisadora: – Desde o início você havia pensado nesta foto? Vinicios Gabriel: – Eu tinha pensado em outra coisa.

Pesquisadora: – O que era?

Vinicios Gabriel: – Na verdade eu não ia trazer, porque eles já estão aqui, meus amigos, que vale ouro.

Depois, a foto foi passando na roda para todos verem. Muitos risos e gargalhadas. A criança que estava na foto fazendo careta era ele mesmo (Vinicios Gabriel) quando tinha três anos de idade.

Camily Vandressa: – Eu trouxe essa foto que faz eu rir, e eu gosto muito dela!

Pesquisadora: – Por que esta foto lhe faz rir? Camily Vandressa: – Porque é muito engraçada! Pesquisadora: – E por que você acha engraçada?

Camily Vandressa: – É, porque minha irmã não gostava de tirar foto e saiu na foto descabelada.

Pesquisadora: – Desde o início você pensou nesta foto?

Camily Vandressa: – Ontem. Não tinha pensado em outra coisa. Na sequência Camily Vandressa passa a foto para todos os colegas verem. Muitos risos de todos.

Com relação à escolha dos objetos trazidos pelas crianças, algumas disseram que pensaram no que trazer um dia antes do encontro, algumas disseram que foi antes de sair de casa, e outras que foi desde o primeiro dia e que ao chegar em casa já sabiam o que gostariam de trazer. Mas é possível observar semelhanças em alguns objetos trazidos por elas, como, por exemplo, as fotografias. Penso que elas podem ter combinado ou trocado ideias juntas sobre o que trazer, e o relato final de Camily Vandressa, ao dizer que pensou ontem sobre o que poderia trazer, é uma evidência.

Como combinado, todos, inclusive eu, deveríamos trazer algo que nos fizesse rir, chorar, ou que para nós valesse ouro. Então, minha escolha foi algo que valia ouro. Para isso eu levei uma “mala literária”56

com um livro e alguns objetos relacionados à história Guilherme Augusto Araújo Fernandes (FOX, 1995), que eu havia preparado para contar, e que tinha relação com o exercício proposto às crianças.

Iniciei apresentando às crianças uma “mala literária” que eu havia levado com alguns objetos relacionados à história. Abri a mala, apresentei os objetos, inclusive o livro da história, e perguntei-lhes o que imaginavam que para o menino da história aqueles objetos significavam (ovo, medalha, marionete, concha e bola). Algumas disseram que poderiam ser lembranças, coisa antiga, coisas para ele se lembrar de quando ele era criança?. Para finalizar o encontro, narrei a história, isto é, realizei uma leitura com o livro, enquanto apresentava também os objetos da mala.

Durante a narração desta história para as crianças, e considerando que foi a primeira vez que eu narrei uma para elas, eu pude observá-las muito atentas à história e à mala, que continha objetos que teriam seus significados revelados. Minha percepção foi de que naquele momento – ouvir a leitura de uma história de livro –, para as crianças estava muito prazeroso, e as suas expressões faciais e corporais evidenciaram isso, pois manifestavam atenção, envolvimento e mergulho com a narrativa. Mas, a manifestação delas de atenção e de escuta – porque havia um livro e objetos – não foi diferente das outras situações em que ouviram histórias narradas por elas e sobre elas.

Mais uma vez as crianças produziram histórias a partir das suas experiências, consideradas as mais significativas, embora com estratégias diferentes. Neste caso, o que potencializou a produção narrativa das crianças foi o texto literário, que se tornou história potência57 para elas, e possibilitou a narrativa literária se transformar em narrativas pessoais.

56

Esta proposta foi baseada nas estratégias de leitura literária – durante a “pré- leitura” –, que são apresentadas e discutidas por Renata Junqueira de Souza (2010). Nas suas propostas, a autora usa a nomenclatura “cesta literária”, mas, neste caso, optei por “mala literária” por se tratar de uma.

57

No capítulo 6 retomo a discussão sobre a narrativa literária ser história

Documents relatifs