a. Nós valorizamos o mistério do parto.
b. Nós valorizamos a gravidez e o parto como processos naturais que a tecnologia jamais suplantará.
c. Nós valorizamos a integralidade das experiências de vida; os componentes físicos, emocionais, mentais, psicológicos e espirituais são inseparáveis.
d. Nós consideramos a gravidez e o parto como eventos pessoais, íntimos, sexuais e sociais que devem ser compartilhados no ambiente e pelas pessoas de escolha da mulher.
e. Nós valorizamos a experiência de aprendizado da vida e do nascimento. f. Nós valorizamos a gravidez e o parto como processos que determinam, pelo
restante da vida da mulher, um impacto sobre sua auto-estima, sua saúde, sua habilidade em criar seus filhos e sobre o crescimento pessoal.”
Ao analisar este modelo, Davis-Floyd demonstra doze dogmas que o sustenta, como se pode observar no Quadro nº 2.
Segundo a “Midwifery Task Force”11 a aplicação deste modelo reduz a incidência de traumatismo de parto, trauma e taxa de cesariana.(Midwives model of care definition, 2001)
Como já foi visto anteriormente, as estatísticas oficiais apontam para que menos de 1% das mulheres brasileiras dão à luz em suas casas (Saúde, 1997). Logo, as pessoas que as atendem provavelmente têm consciência de sua situação profissional ser marginal, se não antagônica, ao modelo vigente. A grande maioria das mulheres na cultura dominante dá à luz em hospitais e aceita, como parte do processo de parto e nascimento, a autoridade, e também, o autoritarismo que permeia o aprendizado do conhecimento obtido através de médicos e máquinas. Se o modelo tecnocrático pode ser considerado como hegemônico, o modelo holístico pode ser considerado como “a última heresia”, muito distante da abordagem que sustenta o tecnocrático.
Quadro nº 2. Os doze dogmas do modelo holístico de atenção ao parto e nascimento 1. Corpo, mente e espírito são indivisíveis;
2. O corpo como um sistema energético interligado com outros sistemas; 3. Cura da pessoa como um todo em um contexto indivisível do meio; 4. Unidade profissional/cliente;
5. Diagnóstico e cura de dentro para fora;
6. Estrutura organizacional que facilita a individualização do cuidado;
11 Entidade Norte-Americana fundada no início dos anos 90 com a finalidade de sensibilizar o
público sobre as vantagens do atendimento ao parto por parteiras. Atualmente atua em conjunto com várias outras entidades objetivando uma profunda mudança no modelo assistencial às grávidas americanas. (www.midwiferytaskforce.org)
Modelos de Assistência ao Parto e Nascimento
7. Autoridade e responsabilidade inerente a cada indivíduo; 8. Ciência e tecnologia colocada a serviço do indivíduo; 9. Foco na manutenção da saúde e do bem estar a longo prazo; 10. Morte como um passo no processo;
11. Cura como foco;
12. Adoção de várias modalidades de cura.
Fonte: Davis-Floyd (1998) (Davis-Floyd, Robbie;St.John, 1998a) Com autorização da autora.
No Brasil os serviços públicos de saúde não estão envolvidos em um sistema de referência que garanta a retaguarda para estas mulheres, que por opção ou falta dela, vão parir em suas residências ou mesmo nas ruas das grandes cidades. Neste cenário muitos destes partos não são notificados e, portanto, não aparecem nas cifras oficiais. No Quadro nº 5 são apresentados os números oficiais, que estão longe de espelhar a realidade.
Observa-se nos dados incluídos nesta tabela uma tendência à diminuição dos partos domiciliares informados ao SUS. Uma das possíveis causas seria o aumento de subnotificação.(Abreu, 2002)
Quadro nº 5. Número de partos domiciliares realizados por parteiras tradicionais notificados ao SUS
Fonte: Abreu IPH (2002)(Abreu, 2002)
O Programa das Parteiras Tradicionais no Amapá, iniciado em 1995 por iniciativa do Governo local contava inicialmente com 62 parteiras cadastradas; esse número passou para 948 no ano 2.000. Esse programa trabalha com um grande contingente de mulheres não alfabetizadas e indígenas (40%). Estudo realizado com 200 parteiras aponta que 53% são casadas, 15% solteiras, 20% viúvas e 12% separadas. A média etária é de 54,6 anos, com uma fecundidade média de 8,4 filhos. Em média assistiram 381,5 partos.(Battistelli, 2002)
Região 1995 1996 1997 1998 1999* Norte 24.093 18.173 8.718 6.204 7.280 Nordeste 37.465 43.520 40.413 33.519 25.008 Sudeste 4.496 21 126 450 2.674 Sul 4.791 4.878 5.559 3.943 7 Centro-oeste 604 485 1.166 937 1.735 Total 71.449 67.077 55.982 45.053 38.703
Esse projeto organizou cursos, “apoiou a formação de associações de parteiras, num aprendizado da nossa ciência, mas também da cidadania, da participação política.”(Mindlin, 2002)
No Brasil de muitos “Brazis” estima-se que 60 mil “aparadoras” realizam 450 mil partos anuais – mas é no Amapá que as mãos de um punhado de mulheres fazem da região a recordista em partos normais. Esse estado, conseqüentemente, apresenta a menor taxa de cesariana do país (12%); é o 4º estado com a maior cobertura pré-natal e o segundo entre os que apresentam baixos coeficientes de mortalidade infantil.(Battistelli, 2002) “É importante ressaltar que o Amapá é um dos poucos estados brasileiros cujo projeto de parteiras recebe o apoio do governo estadual, sendo o único em que o trabalho das parteiras tradicionais foi legitimado como parte integrante de uma política pública de saúde.”(Battistelli, 2002). Em que pese a importância de trabalharmos com o fantasma da subnotificação, a diferença é tão gritante quando comparado com os estados vizinhos, e na medida do comprometimento do governo em inserir essas parteiras no sistema oficial de atenção ao parto, com um compromisso de incentivo permanente ao registro dos partos e mortes domiciliares que fica, mesmo aos mais críticos, não reconhecer a importância dessas mulheres na eficiência obtida.
A avaliação dos resultados do modelo holístico é prejudicada por um lado pela falta de estatísticas publicadas, fato secundário ao não reconhecimento da “cientificidade” destas pesquisas pelos órgãos patrocinadores, o que contribui para a escassez de recursos financeiros. Por outro a diversidade de técnicas terapêuticas utilizadas prejudica a comparação. Por isto mesmo são aqui transcritos alguns resultados alcançados pelas parteiras de uma localidade denominada “The Farm” — localizada no centro-sul do Tennesse-EUA, fundada em 1971, contando atualmente com 200 residentes. Esta comunidade foi pioneira na implantação de uma variada gama de tecnologias de baixo custo, dentre elas a implantação de um modelo de assistência ao parto e nascimento alinhado com o estilo de pensamento holístico, apesar de encontrar-se no contexto norte americano e de alta tecnologia.
Estes resultados obtidos em uma comunidade norte americana (modelo holístico) divergem dos registrados no Brasil (modelo tecnocrático) que, a par das condições sócio