O tema do mal é presença constante nas reflexões teológicas e filosóficas, porque coloca o homem diante das mais extremas perguntas. A existência da morte, da dor e do sofrimento – que Schopenhauer identifica como a origem das religiões e das filosofias – levantam questões do tipo: De onde provém o mal? Por que o mal existe? Como é possível existir o mal?
A doutrina judaica-cristã da criação a partir do nada traz a priori a ideia de um Deus totalmente bom e totalmente justo. O que Schopenhauer pensa denunciar é o escândalo lógico desta concepção, na medida em que aquilo que se atesta no dia a dia é a autodiscordância intrínseca à existência. Trata-se de uma inconsequência pressupor uma raiz essencialmente boa para o mundo e atribuir a existência do mal a um ato de desobediência original – pecado original – com influxos em todas as gerações e com consequências ubíquas.
A experiência humana ensina que o mal existe e é uma fatalidade, mas também é rejeitado como algo que perturba a existência. No romance de Albert Camus, A Peste, o médico Rieux não aceita a resposta do jesuíta Paneloux diante da morte de uma criança inocente. Paneloux sugere que se deve “amar o que não conseguimos compreender”.
Responde Rieux: “Não, padre - disse ele. - Tenho outra ideia do amor. E vou recusar até a morte essa criação em que as crianças são torturadas.”361
Diante do sofrimento de inocentes, especialmente das crianças, qualquer teodicéia tende a fracassar. A realidade contrapõe-se à “providência” divina, mesmo que se responda que o mal é uma simples aparência e fruto da ignorância.
Enquanto o esforço das teodicéias é reconciliar num sistema globalizante as três afirmações: “Deus é bom!”, “Deus é onipotente!” e “existe o mal!”, o maniqueísmo dualista introduz um princípio último do mal.
De qualquer forma, Schopenhauer não entra na discussão sobre um possível dualismo, mas confrontar-se com a ideia de haver um Deus bom e onipotente na origem do mundo e de todas as suas criaturas. Seu sistema metafísico demonstra, a seu ver, que a presença da dor, sofrimento e morte destrói qualquer possível fundamento para a concepção deste Deus amoroso, criador dos céus e da terra. Como a Vontade é a essência íntima do mundo, sendo autodiscordante e fonte de toda angústia humana, não há um Deus bom sustentando a criação, mas um princípio que, aos olhos humanos, é “mau”362.
Ora, então a questão pode ser posta de um ponto de vista invertido: se o mundo tem uma raiz má e a autodiscordância é toda sua essência, de modo que “cravar os dentes na própria carne” não é exceção, mas sim a regra, então o problema da existência do “mal” se transforma no problema da existência do “bem” – aqui entendido como a possibilidade de redenção, onde se encontram toda felicidade e paz verdadeiras.
Schopenhauer diz ter a resposta para tal questão, e ela é dada da seguinte forma: A Vontade, por ser “toda-poderosa” pode originar o seu próprio agir e
possivelmente também entrar em cena no fenômeno, no qual então a liberdade necessariamente se expõe como uma contradição do fenômeno consigo mesmo. Nesse sentido, não apenas a Vontade em si, mas até mesmo o homem devem ser denominados livres, e assim diferenciados de todos os demais seres.363
361 CAMUS, Albert. A peste. Disponível em
http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000026.pdf, p. 150-151.
362 Para Schopenhauer, a Vontade enquanto coisa-em-si é neutra, não sendo boa nem má. No entanto,
quando ela percebe a si mesma através da consciência humana, se descobre como autodiscordante e uma fonte infindável de batalhas e sofrimentos. Logo, aos olhos humanos, que é sua melhor forma de autopercepção, ela é “má”.
A exteriorização da liberdade da Vontade é algo como o “efeito da graça” (Gnadenwirkung). Na medida em que obtém, no ser humano, o conhecimento de si mesma, a Vontade pode entrar em contradição consigo mesma e buscar um quietivo para seus desejos.
Numa rápida apreciação do sistema filosófico de Schopenhauer, os aspectos fundantes de sua argumentação podem passar despercebidos. Na característica autoafirmativa da Vontade, sendo o “querer” toda a sua essência, Schopenhauer procura fundamentar suas pressuposições de forma consistente na volição expressa no corpo. Embora a problemática do método analógico não esteja resolvida, é possível seguir sua linha argumentativa até aquilo que ele considera ser o último acesso possível na autoconsciência do sujeito cognoscente/volitivo.
Por outro lado, a afirmação de que a Vontade é livre para contrapor a sua essência é inserida em seu sistema filosófico sem maiores fundamentações. A única evidência fornecida é a de pessoas que “por um efeito da graça” negam os seus desejos a ponto de morrerem de inanição. Poder-se-ia argumentar que essa ação somente pode ser provocada pela Vontade porque é só ela que existe. Mas, novamente surge outro problema, porque teríamos que afirmar categoricamente – e com recurso a uma espécie de fé – que somente a Vontade existe.
Nas palavras de Schopenhauer, o seu argumento procede da seguinte forma: Ora, visto que aquela AUTO-SUPRESSÃO DA VONTADE procede do conhecimento, porém todo conhecimento e intelecção enquanto tais são independentes do arbítrio, segue-se que também aquela negação do querer, aquela imersão na liberdade não é obtida por força de resolução mas procede da relação mais íntima entre o conhecimento e o querer no homem; chega, em conseqüência, subitamente e como de fora voando. Por isso justamente a Igreja denominou esse acontecimento EFEITO DA GRAÇA. Contudo, assim como ele é representado como dependente da aceitação, assim também o efeito do quietivo é em última instância o ato da liberdade da Vontade.364
Schopenhauer afirma que a Vontade é onipotente, pois somente ela é “toda- poderosa” (allmächtig). Por outro lado, Schopenhauer nega veementemente, em sua filosofia, termos atributivos à Vontade como “absoluto” (Absoluten), “infinito” (Unendliche), “suprassensível” (Uebersinnlichen) ou coisas do gênero que são, em sua
364
opinião, simples negações365 oriundas da “terra alada dos cucos”, mesmo que sejam ditas mediante um levantar de sobrancelhas para dar a estas palavras um ar de solenidade e seriedade.366
Nota-se, porém, que Schopenhauer utiliza o termo liberdade aplicado à Vontade em dois sentidos: 1º) liberdade de efetuar a escolha entre os motivos apresentados pelo intelecto; 2º) liberdade de mudar a própria essência, deixando de “querer” e passando a “não querer”.
O primeiro sentido é trabalhado detalhadamente no opúsculo Über die Freiheit des Willens e no Mundo como Vontade e Representação. Neste aspecto, a Vontade sendo puro querer, por estar fora do princípio de razão suficiente, pode optar entre os motivos a ela expostos. É uma liberdade de escolha diante dos objetos fenomênicos.
O segundo sentido, embora seja utilizado como uma espécie de extensão natural do primeiro, difere totalmente deste. Recorda-se aqui que Schopenhauer afirma que “Vontade” e “Vontade de vida” podem ser usados de formas equivalentes e que
como a Vontade é a coisa-em-si, o conteúdo íntimo, o essencial do mundo, e a vida, o mundo visível, o fenômeno, é seu espelho; segue-se daí que este mundo acompanhará a Vontade tão inseparavelmente quanto a sombra acompanha o corpo. Onde existe a Vontade, existirá vida, mundo. Portanto, à Vontade de vida a vida é certa [...]367
Sendo assim, o segundo sentido de liberdade aponta para a possibilidade de mudar a própria essência, ou seja, não mais querer a vida. Não diz apenas, como no sentido anterior, de liberdade de escolhas entre os objetos de “querer”, mas sim da liberdade de escolha entre “querer” e “não querer”.
Evidencia-se que a explicação para a origem do “bem” – felicidade genuína no estado de negação da Vontade – não é satisfatória na argumentação de Schopenhauer. Dizer que o poder de negar a Vontade “entrou voando” no mundo é uma forma espelhada, e invertida, da afirmação de que o mal entrou no mundo mediante o comer do “fruto proibido”368.
365 Schopenhauer pensa que são simples “negações” porque são destituídas de conteúdo, não tendo um
ponto de contato com alguma experiência possível.
366 MVR, § 53, p. 355; WWV, p. 289. 367 MVR, §, p. 54; WWV, p. 291. 368 Gn 3.1-24.
O problema da origem do “bem” na filosofia de Schopenhauer será tratado novamente no final deste capítulo. Por ora, cabe ressaltar que ele estará associado à incapacidade de elaborar um discurso positivo no estado da negação da Vontade. Para tanto, será necessário primeiramente discorrer sobre as da limitações da linguagem na