II. SETTING THE CONTEXT: THE POLITICAL, SOCIAL AND ECONOMIC STRUCTURE OF
II.4 Education
O conceito de Afinidade eletiva é utilizado no presente trabalho ao analisar as relações entre a Teologia da Libertação e a luta pela reforma agrária, as quais têm como conseqüência a Afinidade eletiva entre Igreja e MST, o que será discutido em capítulo posterior.
Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo o principal argumento de Max Weber é que existe um relacionamento de Afinidade eletiva (Walhlverwandtschaft) entre algumas formas religiosas e o estilo de vida capitalista. Nesta obra Weber (1967) relaciona a ética protestante à lógica do sistema capitalista, ao explicar como a ética puritana influencia o desenvolvimento do capitalismo. Weber define o espírito do capitalismo argumentando sobre sua afinidade com a ética religiosa da Igreja Protestante.
Segundo Michael Löwy, Weber não define exatamente o termo Afinidade
eletiva, mas se deduz de seus escritos que ele se refere a um ―relacionamento de
atração mútua e de mútuo reforço, que em certos casos, leva a uma espécie de simbiose cultural‖ (LÖWY, 2000, p. 35).
É possível observar que para Weber existe uma tensão entre catolicismo e capitalismo, pois através da análise da Ética Protestante pode-se compreender que a Igreja Católica é um ambiente muito menos favorável ao desenvolvimento do sistema capitalista que as seitas calvinistas e metodistas. Mais que isto, o catolicismo parece ser completamente hostil ao capitalismo.
Não há nos escritos de Weber a análise específica sobre esta hostilidade catolicista ao capitalismo, mas segundo Löwy (2000) os argumentos que explicam esta tese estão dispersos e não sistematizados em diversos textos de Weber. Foi a partir desta afirmação que foi realizada, através do presente trabalho, uma análise bibliográfica dos principais escritos de Max Weber.
Em A Ética Protestante, Weber não aprofunda a análise sobre os obstáculos da doutrina católica ao desenvolvimento do capitalismo, mas em um trecho específico fica nítida a idéia de rejeição por parte da doutrina católica ao espírito de aquisição capitalista. Segundo Weber (1967, p. 73-74), na tradição católica:
o sentimento nunca foi totalmente superado, aquela atividade orientada para a aquisição em si mesma, no fundo, era um pudendum que era preciso tolerar unicamente devido às necessidades inalteráveis da vida nesse mundo... A doutrina dominante rejeitava o espírito da aquisição capitalista como turpido8, ou, pelo menos não podia lhe dar uma sanção ética positiva.
Em outro texto, publicado após A ética protestante, Weber (1972) propôs a incompatibilidade dos ideais de um crente católico e a luta pela aquisição econômica, mas não explica as razões para esta incompatibilidade.
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Esse termo é utilizado por Santo Tomás ao caracterizar o desejo de lucro o qual Weber, em A ética protestante, explica que incluía até mesmo a inevitável feitoria de lucros (LÖWY, 2000).
Em um texto posterior, intitulado Zwischenbetrachtung, Weber trata da tensão e oposição entre a ética religiosa da fraternidade e a economia capitalista. Segundo Weber (1989, p. 487-488):
Quanto mais os cosmos da economia capitalista racional moderna segue sua próprias leis internas imanentes, tanto menos ele será acessível a qualquer relação imaginável com a ética religiosa da fraternidade... Racionalidade formal e substantiva nesse caso estão em conflito mútuo.
A ética religiosa não é apresentada por Weber como irracional diante do sistema econômico racional capitalista. Weber descreve ambos como diferentes tipos de racionalidade. Esta questão é tratada e aprofundada em Economia e
sociedade. Segundo Weber (1923, p. 305):
Acima de tudo, é o caráter impessoal, economicamente racional, mas, conseqüentemente, eticamente irracional, dos relacionamentos puramente comerciais que faz surgir, precisamente nas religiões éticas, esse sentimento de desconfiança, que nunca é explicitado, e, por isso mesmo, é sentido ainda com maior profundidade. Todas as relações puramente pessoais de um ser humano com outro, sejam elas quais forem, inclusive a escravidão mais completa, podem ser regularizadas eticamente, e normas éticas podem ser estabelecidas, já que sua estrutura depende das vontades individuais dos participantes, e, portanto, há espaços para a demonstração de virtudes caritativas. O mesmo não se dá, no entanto, com as relações racionais comerciais, e quanto menos isso acontecer, mais racionalmente diferenciadas serão elas. A reificação da economia com base na socialização pelo mercado segue totalmente suas próprias leis objetivadas... O universo reificado do capitalismo, finalmente, não oferece qualquer espaço para uma inclinação caritativa. Portanto, em uma ambigüidade característica, o clero sempre apoiou – também nos interesses do tradicionalismo – a patriarquia contra as relações impessoais de dependência, embora, por outro lado, a profecia possa romper os elos patriarcais.
De acordo com Weber, devido ao caráter impessoal da dominação econômica do capital esta não pode ser regulada eticamente.
Em Economic History Weber faz o seguinte comentário (WEBER 1923, p. 305):
A profunda aversão da ética católica e, depois dela, da ética luterana, a qualquer iniciativa capitalista é essencialmente baseada no medo da natureza impessoal das relações no interior de uma economia capitalista. Essa impessoalidade é a razão pela qual determinadas relações humanas são arrancadas da Igreja e de sua influência, e porque passa a ser impossível para ela penetrá-las ou dar-lhes forma de uma maneira ética.
É importante ressaltar que no trecho acima Weber caracteriza tanto a ética católica como a luterana como opostas ao sistema capitalista. Weber insinua a existência de uma aversão ao espírito do capitalismo por parte da Igreja Católica e também por parte de algumas denominações protestantes. De acordo com Löwy
(2000, p. 40), no trecho citado acima temos uma exata inversão da Afinidade eletiva (Wahlverwandtschaft), havendo, desta maneira, uma inversão da afinidade eletiva entre a ética católica e o capitalismo.
A análise do termo Afinidade eletiva é essencial, na medida em que esta conceitualização é utilizada ao analisar as relações Igreja e MST em torno da luta pela conquista da terra. Em capítulos posteriores o presente trabalho apresenta de que forma se constrói esta relação de Afinidade eletiva a partir das manifestações ideológicas da Teologia da Libertação na luta pela reforma agrária.