As palavras “seita”, “novos movimentos religiosos”, “denominações”, não fogem da ambiguidade quanto à terminologia. As diferentes maneiras de utilizá-las incentivam as polêmicas, os insultos e ocultam a clareza conceitual. A palavra seita traz
consigo uma valoração pejorativa e negativa. Exemplifiquemos com um excerto da encíclica de João Paulo II, Ecclesia in America:
A atividade de proselitismo, que as seitas e novos grupos religiosos desenvolvem em várias regiões da América, constitui um grave obstáculo ao esforço evangelizador. Igreja Católica na América critica o proselitismo das seitas e, por esta mesma razão, na sua ação evangelizadora exclui o recurso a tais métodos. Ao propor o Evangelho de Cristo em toda a sua integridade, a atividade evangelizadora deve respeitar o santuário da consciência de cada indivíduo, onde se desenrola o diálogo decisivo, absolutamente pessoal, entre a graça e a liberdade do homem. Deve-se levar isto em conta, especialmente quando se trata dos irmãos cristãos das Igrejas e Comunidades eclesiais separadas da Igreja Católica, que estão estabelecidas já há muito tempo em determinadas regiões. Os vínculos de comunhão verdadeira, embora imperfeita, que, segundo a doutrina do Concílio Vaticano II, essas Comunidades já possuem com a Igreja católica, devem iluminar as atitudes desta e de todos os seus membros face àquelas. Entretanto, estas atitudes não poderão chegar a prejudicar a firme convicção de que somente na Igreja Católica se encontre a plenitude dos meios de salvação estabelecidos por Jesus Cristo. As conquistas do proselitismo das seitas e dos novos grupos religiosos na América não podem ser encaradas com indiferença. Exigem da Igreja neste Continente um profundo estudo, a ser realizado em cada nação e também a nível internacional, para se descobrir os motivos porque bastantes católicos abandonam a Igreja. É necessário fazer uma revisão dos métodos pastorais adotados, para que cada Igreja particular preste aos fiéis uma assistência religiosa mais personalizada [...]. (EA, 1999, §73)
O trecho acima estabelece uma delimitação de fronteiras entre os verdadeiros
seguidores de Cristo e os “imperfeitos”, embora também seguidores de Cristo (João Paulo
dirige-se ao protestantismo histórico). Quanto aos grupos religiosos remanescentes e que crescem na América Latina (pentecostalismo), João Paulo II não propõe diálogo, apenas incita aos representantes eclesiásticos espalhados neste continente a tomarem um posicionamento estratégico de leitura apropriada da realidade religiosa ativando um contra-ataque metodológico e recuperando territórios que foram anexados “indevidamente” pelas “seitas”.
Posicionamento mais neutro advém de sociólogos e historiadores. Neste sentido, o termo é usado para caracterizar um fenômeno social e suas peculiaridades. O termo “seita” carrega significados associados à separação, dissidência, ruptura, heresia. No texto de Atos dos Apóstolos 12,24, o então apóstolo Paulo foi acusado de líder da seita dos nazoreus. Neste caso específico, a palavra em grego αιρεσεως (airesis) indica inclinação, preferência,
escolha, eleição. O significado do termo também se aproxima do latim clássico sequi, seguir,
ter por preferência. No texto de Atos, o termo não possuía sentido depreciativo e referia-se a uma tendência, a uma escola ética que começava a aflorar de dentro do judaísmo rabínico (SANTA ANA, 1992). A partir do que foi exposto, poderíamos pensar a seita em três níveis, a) separação, enfrentamento: o grupo rompe com uma determinada tradição e estabelece seus próprios códigos de conduta a partir do fundador b) adicionamento ou inclusão: o grupo
religioso acrescenta algo a mais (cultos específicos, pregadores itinerantes, estabelecimento de uma hermenêutica eminentemente subjetivista das Escrituras) e sua fonte de autoridade não leva em consideração unicamente os imperativos dogmáticos e as autoridades eclesiásticas e institucionais e c) subtração: o grupo religioso se diz mantenedor da tradição, mas inflaciona ou subtrai algo do chamado depositum fidei, em outras palavras, quando o grupo acentua com intensidade mais uma aspecto da tradição em detrimento de outro. A delimitação do fenômeno religioso é complexa. Os paradigmas, modelos de compreensão da realidade circundante não se encerram neles mesmos. Contrariamente ao que foi exposto por Júnior (2004) o paradigma troeltschiano Igreja-Seita não é “obsoleto”, pois subsidia a pesquisa para que não incorra em generalizações, suposições abstratas. Embora aquele paradigma possua seus limites, seu uso é pertinente pois a partir de um núcleo interpretativo é possível redimensioná-lo às novas circunstâncias históricas.
Troeltsch, ao analisar o cristianismo pelo viés histórico, chega a uma tipologia interpretativa do fato que o protestantismo histórico desdobrou-se em pequenos grupos dissidentes. A geração destes grupos é parte de uma cultura moderna que, ao invés de unificar (cultura eclesiástica), fragmenta o corpo social, o que facilita a manifestação e a emancipação do individualismo. Sob o influxo da modernidade, a velha certeza de salvação é desfeita e o protestantismo a substitui pelo fato de Deus se manifestar de modo pessoal e ético. A modernidade proporciona a liberdade de expressão e configuração de formas diferenciadas de viver o cristianismo. Podemos dizer aqui que a tipologia Igreja-Seita é uma leitura possível e não exclusiva do fenômeno religioso.
Para Troeltsch, o pertencimento à Igreja se dá via nascimento, enquanto na seita, a pertença se dá por escolha e o controle da membresia é mais rígido. A seita exige um empenho maior e mais direto e consequentemente incentiva a certo isolamento da sociedade, hostilizando-a. Na seita, a vivência burocrática é minimizada tornando-se uma organização menos formal facilitando a espontaneidade e a convivência em comunidade. Já a Igreja, possui um perfil mais conservador, adapta-se às exigências mundanas e dirige sua atuação para as massas e não para um grupo exclusivo. Possui uma natureza universal, inclina-se ao “todo”, e obriga de modo coativo seus membros dentro da esfera de sua influência. As seitas organizam-se em pequenos grupos, aspiram a uma formação doutrinária interna e a uma ligação pessoal e imediata dos membros. Sua atitude em relação à sociedade é de indiferença, de resignação ou hostilidade.
A estas duas categorias, Troeltsch acrescenta outra, o misticismo ou a tendência mais espiritual que não está totalmente separada da Igreja e nem da seita. Sendo mais
individual, não enfatiza as interações entre seus membros, coloca-se indiferente a tradição religiosa e não tem por objetivo a transformação do mundo (CIPRIANI, 2007, p. 167). À luz desta tipologia troeltsciana, de que forma os arranjos católicos se aproximam das categorias mencionadas. Os arranjos emergem a partir da iniciativa de um fundador ou fundadores. A partir dele(s) há um contato com um grupo de pessoas que progressivamente vai estabelecendo laços mais estreitos, o que facilita as relações de companheirismo.
Assumem comportamentos que se assemelham com as seitas: a sociedade é hostilizada. O mal está impregnado no mundo e atinge a vida emocional das pessoas. Por isso, a efetivação de celebrações de limpeza espiritual ou de “cura interior”. Os cultos, por sua vez, seguem um padrão do grupo e não lembram o ritual romano praticado nas missas católicas. Alguns membros dedicam-se exclusivamente a organizar, estruturar os encontros, as células (Fanuel, por exemplo) e são remunerados por isso. A sustentabilidade financeira advém de doações e concentram-se em espaços pequenos, geralmente salões e casas alugadas. Nossa hipótese é de que estamos diante de grupos mistos do tipo Igreja-Seita. Poderíamos pensar num nível de seita que tende mais para o adicionamento ou inclusão. Talvez esteja se configurando aqui um novo tipo de catolicismo híbrido, acomodado às circunstâncias sociais e adequado aos interesses imediatos daqueles que os procuram.
Afinal, os Arranjos procuram manter os valores de uma catolicismo tradicional senão medieval (de santos, anjos, de uma moralidade rígida) reproduzindo os paradigmas vigentes de uma instituição que se caracteriza por uma cultura autoritária e eclesiástica. O catolicismo romano atual reflete algumas imagens do mundo medieval: guerreiro e militante, devocional, hierarquicamente organizado como sociedade perfeita, de difícil diálogo com o mundo moderno, mas aberto para mudanças estratégicas e metodológicas de ação missionária, restauracionista e voltado para si.
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Neste capítulo volvemos nossa atenção às relações entre o clero e o leigo católico manifestado nos textos do concílio Vaticano II e nos posicionamentos textuais e discursivos de João Paulo II e Bento XVI. A ICAR é uma entidade com propósitos múltiplos, mas cujo objetivo determinista pode ser claramente enunciado: preservar-se enquanto estrutura hierárquica construindo relações conflituosas – senão paradoxais - de diálogo com a modernidade contemporânea. Portanto, a ICAR é o resultado de decisões conscientemente planejadas e tomadas, mormente ao que se refere ao laicato católico na modernidade contemporânea. Escolhemos três momentos que julgamos de caráter relevante para a discussão que se segue sobre o “lugar do leigo” e, particularmente dos arranjos católicos na ICAR: a) o evento conciliar do Vaticano II; b) o texto redigido por João Paulo II particularmente Crhistifideles Laici nos idos dos anos noventa e c) os discursos pontificais de João Paulo II e Bento XVI confeccionados nos encontros dos Movimentos Eclesiais e das Novas Comunidades em 1998 e em 2006, respectivamente. Entendemos que o papel dos leigos católicos na atualidade fica reduzido a dois aspectos importantes. O primeiro deles é a sua “missão” especificamente no cotidiano, no “mundo” e, em segundo lugar, sua atuação em pastorais no que tange ao território paroquial.