Assim, no processo de desenvolvimento humano por meio da utilização de instrumentos e na forma mediatizada outra característica desse desenvolvimento apresenta –se como de fundamental importância. Toda essa relação do homem com o mundo ocorre por meio de uma significação da experiência vivenciada coletivamente pelos indivíduos.
Na atividade produtiva por meio do trabalho, os homens, relacionando-se com o mundo, criam e utilizam marcas objetivas que se transformam em “estímulos artificiais”, com
os quais operam suas ações, na qualidade de “meios auxiliares”. Essa é a forma pela qual, no processo produtivo, surge a atividade comunicativa e com ela o desenvolvimento da linguagem se torna possível (VYGOTSKI, 1983, p. 83-91).
A criação do signo como instrumento da linguagem e do pensamento, diferencia o comportamento humano do animal, demonstrando que existe uma nova qualidade na conduta humana que lhe permite ser autor e controlador de sua própria atividade. Este fato evidencia no comportamento humano o caráter ativo, ao contrário de exclusivamente reativo em sua atividade. Vygotski (1983, p. 82-3) define os signos em sua forma e função quando explicita que:
[...] A criação e o emprego de estímulos artificiais em qualidade de meios auxiliares para dominar as reações próprias precisamente é a base daquela nova forma de determinar o comportamento que diferencia a conduta superior da elementar e cremos que a existência simultânea do estímulos dados e os criados é o traço distintivo da psicologia humana. (tradução nossa)
Chamamos signos aos estímulos-meio artificiais introduzidos pelos homens na situação psicológica, que cumprem a função de autoestimulação; [...]. De acordo com nossa definição, todo estímulo condicional criado pelo homem artificialmente e que se utiliza como meio para dominar a conduta – a própria ou a alheia – é um signo. (tradução nossa)
Em decorrência desta definição pode-se compreender o lugar que os signos desempenham no processo de formação do psiquismo. Pode-se alcançar a compreensão da relação que estabelece o signo como marca externa no processo comunicativo, assim, ao ser internalizado torna-se elemento mediador instrumental da atividade intelectual. A esse processo de transformação dos signos externos – que orientam as ações em dada atividade e de forma instrumental – em internos, cuja função instrumental orienta as ações mentais, Vygotski (1983, p. 84-91) chama de significação.
Compreende-se aqui que a significação se apresenta como uma qualidade subjetiva de processos objetivos que se dão nas atividades humanas. As qualidades dos processos objetivos são internalizadas com a forma das inter-relações sistêmicas, que são mediatizadas pelos signos e no plano intelectual se transformam em sistemas funcionais psicológicos, se transformam em relações intra-psicológicas (VYGOTSKI, 1983, p. 150).
Vygotski apresenta a linguagem como um dos principais sistemas funcionais de signos que cumpre o papel mediador da atividade psicológica. O que é, também, uma das principais características dessa teoria. Esclarece que, na gênese desta função da linguagem, ocorre que as expressões, ou reações vocais da criança, em princípio são expressões emocionais causadas por desequilíbrios em sua relação com o meio. A reação vocal se
apresenta, assim, como emocional. Em seguida essas reações vocais adquirem um novo sentido pelo fato de que em contato social se condicionam a determinadas relações, nas quais acontece uma reação vocal dos indivíduos em seu em torno e, com isso, há um processo associativo destas manifestações. As reações vocais da criança se transformam, neste caso, em sua linguagem, em seu instrumento de comunicação social, ainda que em sua forma mais elementar (VYGOTSKI, 1983, p. 171).
No entanto, para se pensar a linguagem como sistema funcional da atividade intelectual, essa linguagem inicial da criança, constituída pela qualidade instrumental de contato social, não abarca a totalidade do desenvolvimento da linguagem. A linguagem, que no princípio se desenvolve por meio desse contato social, deverá, em um próximo momento utilizar os signos socialmente desenvolvidos, como instrumentos em uma relação com o pensamento. De forma que, o pensamento que também se desenvolve por outras relações, unindo-se à linguagem – de forma dialética, na qual ambos adquirem uma nova qualidade, como dito antes – possibilita à criança utilizar a linguagem como forma de orientação de sua conduta, como linguagem interior (VYGOTSKI, 1983, p. 172-4).
Com este processo de desenvolvimento da linguagem como exemplo do desenvolvimento de funções psíquicas, chega-se a uma das principais características dessa fundamentação teórica, a que explicita, de forma geral, como se dá o desenvolvimento das funções psíquicas superiores.
Este exemplo fornece, em geral, as características do processo de formação das funções psíquicas superiores, porque, ocorre, em primeiro lugar, como prática social, em atividades culturalmente caracterizadas; em segundo, interpõe instrumentalmente o signo como elemento mediador; e terceiro, porque demonstra o processo de formação das funções psíquicas como um movimento de transformação da atividade exterior em atividade interior. Vygotski (1983, p. 150) apresenta assim esta concepção que ele chama de “lei genética geral
do desenvolvimento cultural”:
[...] toda função no desenvolvimento cultural da criança aparece em cena duas vezes, em dois planos; primeiro no plano social e depois no psicológico, em principio entre os homens como categoria interpsíquica e depois no interior da criança como categoria intrapsíquica. (tradução nossa)
Portanto, esta lei geral do desenvolvimento apresenta o processo de passagem, desde a atividade externa para a atividade interna, como atividade intelectual.
Vygotski apresenta uma outra característica que possibilita compreender como esta lei geral do desenvolvimento vai muito além de uma possível interpretação mecanicista do desenvolvimento, como simples transposição da estrutura da atividade externa para o interior dos indivíduos. É necessário compreender esta passagem do exterior e suas transformações pela participação ativa do próprio indivíduo e a que condições objetivas estão vinculadas.
Aquilo que denominamos de caráter ativo - que no plano psíquico aparece como uma vivência -, sintetiza subjetivamente a complexidade da experiência vivenciada individual e coletivamente.
Vygotski aponta para a concepção de “vivência” como a unidade que permite compreender os processos exteriores e os interiores em uma conjugação com a atividade do indivíduo, em uma conjugação com a sua participação no processo construtivo tanto das formas externas quanto das internas (BEATÓN, 2005, p. 224). A vivência integra a totalidade das relações que, em si, sintetizam as múltiplas determinações de formação da personalidade. Por meio da vivência, de sua manifestação, é possível compreender as mudanças nas funções psíquicas e suas transformações dadas pela atividade social e compreender também as mudanças na atribuição de sentido da relação que o indivíduo estabelece com o seu mundo, e como esse mundo muda em sua representação, o seu significado (BEATÓN, 2005, p. 224). A vivência nos permite conhecer como o indivíduo vê o mundo e sua relação com este, permite conhecer que lugar ocupa nas relações e o significado que para ele tem em si mesmo, ou seja, a sua representação de “eu” como totalidade vivida e experienciada (BEATÓN, 2005, p. 224). Assim, considerando o processo de transformação da realidade objetiva em realidade subjetiva, ou seja, da internalização da estrutura e das funções da atividade exterior para a interior, pode-se pensar que a vivência do indivíduo estabelecida com o meio caracterizará a forma e a qualidade que assumem internamente as funções psíquicas em processo de desenvolvimento. Vygotski (1996, p. 383) expõe desta forma esse momento da constituição do indivíduo:
Vemos, pois, que na vivência se reflete, por uma parte, o meio em sua relação comigo e o modo em que vivo e, por outro lado, se põe de manifesto as peculiaridades do desenvolvimento de meu próprio “eu”. Em minha vivência se manifestam em que medidas participam todas as minhas propriedades que se formaram ao longo de meu desenvolvimento em um dado momento. (tradução nossa)
Mais adiante, nesta mesma obra, Vygotski (1996, p. 383) afirma essa posição que o sujeito ocupa no processo construtivo de sua subjetividade, porque esse indivíduo é
constituinte e ocupa um determinado lugar nas relações que produzem o meio no qual se encontra. Assim, as vivências orientam o comportamento do indivíduo em relação a esse meio, constituindo-se o indivíduo, dessa forma, em agente sobre as condições do meio que podem ser transformadoras sobre sua própria experiência. Vygotski apresenta assim essa consideração: “A criança é uma parte da situação social, sua relação com o em torno e a
relação deste com ele se realiza por meio da vivência e a atividade da própria criança; as forças do meio adquirem significado orientador graças às vivências da criança”.