1. UNA CONCEPCIÓ NO PROGRESSISTA
1.4 Ecosocialisme
Ficou evidente que a maior dificuldade das mulheres no que tange às modificações corporais ocorridas a partir do tratamento para o câncer de mama é a queda do cabelo:
Isso é uma coisa que eu acho inexplicável, essa reação da queda. Eu não consegui entender a minha reação, porque eu sou uma pessoa muito prática, não sou vaidosa, gosto de andar arrumada, mas nunca gostei de maquiagem, e para mim foi a pior coisa. Foi a única coisa que me fez chorar ...de uma hora para outra eu fiquei muito velha. (Tulipa, 63 anos, reconstruída / 2a sessão)
A minha única razão de estar no fundo do poço mesmo é o meu cabelo ter caído.
(Estrelícia, 58 anos, quadrandectomia / 3a sessão)
No caso de Tulipa, o impacto emocional diante da queda dos cabelos parece estar potencializado por outro aspecto relativo à imagem corporal, que é o envelhecimento. Tanto a perda dos cabelos quanto o envelhecimento podem ser associados à castração, pelo que remetem à incompletude e à finitude.
A velhice está me pesando mais do que a doença, sabe? A velhice está me causando sérios problemas... porque eu me canso mais rápido, ando, me canso. Eu achava assim quando eu estava fazendo tratamento: „ah, isso depois, isso vai passar‟. Vai não, é uma coisa da idade mesmo. Eu reclamei com o médico, são 63 anos! (Tulipa, 63 anos / 15a sessão)
O impacto emocional diante da perda e da deformidade da mama também aparece, embora de maneira menos expressiva, estando sua importância relacionada ao próprio órgão como representativo da feminilidade: “É a parte que mais destaca na mulher, por que logo
em cima né? (chora)” (Magnólia, 76 anos / 8a sessão); e à sexualidade: “Meu sobrinho falou
comigo assim „tia Magnólia, você tem os seios lindos, não sei por que a senhora não casou‟”
(Magnólia, 76 anos / 8a sessão). Já as mulheres que fizeram a reconstrução mamária parecem lidar melhor com as alterações da mama:
Eu não tenho essa reação (se referindo à Magnólia) porque eu fiz a reconstrução ... a reconstrução é perfeita, não perdi nenhuma roupa minha, nenhuma roupa, você vê, esse aqui foi reconstruído (aponta para o seio). (Magnólia, 76 anos / 8a
Retomando à questão da perda do cabelo, algumas mulheres se referiram ao comportamento de “não se olharem no espelho” como uma forma de se protegerem da angústia de ter que se haver com uma imagem de deformada, indesejável e repugnante:
[...] eu nem olhei no espelho. Eu tomo banho e coloco a toalha de rosto no espelho (para não se ver careca), aí vou tomar banho... depois boto uma touca no cabelo, me pinto, faço o que eu tiver que fazer e depois coloco a peruca. (Estrelícia, 58
anos / 2a sessão)
Quando é possível o olhar através do espelho, o corpo refletido não pode ser reconhecido frente ao horror da constatação da falta, da perda da integridade física:
Cruz credo, aquela alí não sou eu não. (Estrelícia, 58 anos / 3a sessão)
Quando a gente se olha no espelho, assim, e se vê toda pelada, sombrancelha, vai tudo embora, entendeu, vários cabelinhos, os cabelotes, vai tudo, aí quando você olha assim, você fala: “cruz credo, é um horror”. (Camélia, 56 anos / 12a
sessão)
[...] hoje eu me sinto feia, me olho no espelho e não acredito que sou eu. Hoje eu estou magrela, menas bunda, braço curto (o braço do lado da cirurgia parece encurtado), faltando um pedaço do peito. (Estrelícia, 58 anos / 3a sessão)
A identidade feminina também parece estar perdida:
[...] não suporto olhar minha careca, detesto, fico parecendo um homem escrito.
(Estrelícia, 58 anos / 9a sessão)
Eu me arrumava quando estava sem cabelo nenhum, nossa, eu não gostava nem de me olhar no espelho. Colocava roupa bonita, olhava em baixo assim e falava: „eu tô bonita‟. Mas daqui para cima, passava maquiagem e olhava minha careca [...]
(Margarida, 38 anos / 15a sessão)
A maquiagem, algo tão característico da mulher, parece estar em desarmonia com a falta do cabelo, o que é retratado pela reticência que segue o discurso.
Outra questão a ser considerada é a negação parcial do impacto psíquico frente aos sentimentos negativos desencadeados a partir da perda do cabelo, inclusive, acompanhado de culpa pelos próprios sentimentos: “Meu Deus, quantas pessoas não estão em situações
piores? Eu não estava me permitindo ficar triste” (Rosa, 60 anos / 2a sessão), como se a dor e o sofrimento não fossem permitidos. Outros vivenciam intensamente o trauma da perda do cabelo:
Uma coisa que eu estava preparada, eu sabia que o cabelo ia cair ... mas a minha reação foi muito ruim. A primeira foi assim, deu achar assim que não ia suportar, se cair de novo (o cabelo) vai acontecer alguma coisa, ou eu vou chorar, ou eu vou me deprimir, assim, só aconteceu uma vez, na mesma hora eu saí correndo, foi uma coisa assim, que eu achei que não ia suportar. Geralmente eu aguento as coisas assim, bem, mas isso eu senti assim, eu ficava com falta de ar, sabe. (Tulipa,
63 anos / 12ª sessão).
Vale ressaltar que, no momento em que Tulipa perdeu os cabelos, ela ainda não participava do Grupo de Suporte. Magnólia, ao contrário, pôde se preparar no grupo para a vivência da queda do cabelo, o que resultou em uma melhor aceitação desse momento
Eu não fiquei triste, não fiquei deprimida, não fiquei revoltada, nada disso, eu acho que é a autoajuda daqui (Tulipa, 76 anos / 12a sessão)
A queda do cabelo é uma modificação corpórea exposta ao olhar do outro, difícil de esconder, pois, mesmo o uso do lenço ou da peruca, na maioria das vezes, denuncia a falta do cabelo, o que representa a ferida da castração, da falta, do incompleto. Esse parece ser o fator essencial que leva à angústia e aos sentimentos depressivos dessas mulheres. O olhar do outro é ameaçador, pois leva ao julgamento e ao preconceito, já que a sociedade contemporânea valoriza a estética, o belo e o perfeito. Margarida falou do mal estar por achar que todos estão sempre lhe olhando: “Eu entro no ônibus, todo mundo me olha” (38 anos / 15a
sessão).
Durante uma das sessões do grupo, Hortência tirou o lenço e mostrou o cabelo já bastante crescido: “Um alívio quando tira o lenço, refresca” (Hortência, 48 anos / 9ª sessão). A partir desse momento, Hortência não voltou a usar o lenço. Na semana seguinte, disse:
Dei um (lenço) para uma neta, outro para outra neta... o outro está lá, eu falei: “não uso mais”. A minha menina falou assim: “é estranho, eu vi você chegar, mas você tá diferente, você veio sem lenço?” Eu falei: “eu vim, tirei o lenço lá (no grupo), pus na bolsa e tô sem lenço, vou andar sem lenço” (Hortência, 48 anos /
10a sessão)
Aqui o grupo aparece como fortalecedor dos recursos psíquicos no sentido de possibilitar o enfrentamento de um momento difícil, no qual é preciso coragem para assumir a nova imagem. Margarida e Tulipa, motivadas pela atitude de Hortência, também tiraram o lenço (apenas no grupo, ainda não definitivo) algumas semanas depois e mostraram seus cabelos que começavam a crescer. Margarida falou da melhora da sua autoestima:
Hoje eu estava me arrumando e o meu cabelo já está grande né... antes eu ficava na frente do espelho, ele batia assim aqui, (mostrando o cumprimento que o seu cabelo tinha antes da quimioterapia) aí ficava arrumando, escovando, fazendo piastra e achava, assim, que não estava bom ainda. Aí hoje eu me arrumei, aí eu coloquei a roupa, eu estava sem peruca, aí eu falei: nossa, eu estou tão bonita! Só esse pouquinho (de cabelo) já estava ótimo. (Margarida, 38 anos / 15a sessão)
Já Tulipa falou das dificuldades desse momento:
Eu tenho que forçar para eu acostumar, senão eu só vou conseguir tirar o lenço quando o cabelo cobrir a orelha... eu acho que minha orelha está imensa! (Tulipa,
63 anos / 15a sessão)
Cada uma ao seu modo, experienciando momentos semelhantes, porém de modo muito particular. O que há de terapêutico em relação a este momento é a possibilidade da troca, na qual cada mulher fala dos seus sentimentos, das melhorias apresentadas e também das dificuldades vividas, possibilitando um entrecruzamento de afetos e de movimentos psíquicos como: identificações, projeções, transferências, entre outros, que culminam no fortalecimento dos recursos psíquicos das mulheres e na superação das suas dificuldades. Tulipa disse à Margarida:
[...] eu acho que você (Margarida) está ótima sem o lenço, aí eu fico pensando: “eu também devo estar” (Tulipa, 63 anos / 15a
sessão)
Nesse contexto, Magnólia iniciou o uso do lenço, pois começou a perder os seus cabelos. Mas, nem por isso, estava na contramão do grupo, pois algumas mulheres demonstravam alegria e satisfação com o crescimento dos cabelos. Ao contrário, Magnólia pôde se beneficiar na medida em que Hortência, Margarida e Tulipa se apresentavam como um espelho, ou seja, representando a maneira como Magnólia seria amanhã, mostrando-lhe que este é apenas um momento passageiro que poderia ser seguido de experiências positivas.