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Como apontado no Prólogo, decidi pela análise do enunciado de três autores, os quais participaram do projeto de extensão Voz e criação: autores potiguares e

seus processos criativos. O critério utilizado para a escolha foi o de incluir escritores

de diferentes gêneros literários, a fim de ampliar as visões sobre a escritura. Além disso, optei por enunciados que mais discorriam sobre o tema proposto: a criação literária. Ao final, foram contemplados: Diva Cunha (poesia), Tarcísio Gurgel (conto) e César Ferrario (dramaturgia).

Figura 6 – Diva Cunha Figura 7 – Tarcísio Gurgel Figura 8 – César Ferrario

Fonte: <https://goo.gl/jDswhJ> Acesso em: 27 nov. 2018.

Fonte: <https://goo.gl/TxTcdn> Acesso em: 27 nov. 2018.

Fonte: <https://goo.gl/UWFD3e> Acesso em: 27 nov. 2018.

Diva, Tarcísio e César são entendidos como sujeitos-autores responsivos, isto é, sujeitos conscientes do seu dever na condição de participantes da vida. Não são, pois, analisados por meio de suas obras literárias, mas por meio dos seus enuncia- dos, acessados por meio de entrevistas com autores pessoas. São, sim, enunciados de artistas viventes e mortais acerca dos seus respectivos enunciados artísticos (as obras) e suas práticas de criação. É por meio desse discurso de práticas que almejo depreender seus atos éticos.

Para tanto, considero-os como distintos centros de valores, posto que são su- jeitos inseridos e constituídos em uma dada unidade de cultura e nela se movimen- tam a partir de determinados valores, concretizados individualmente em uma cons- ciência viva, mas elaborados na coletividade de uma comunidade espaçotemporal- mente circunstanciada. Acredito, logo, que esses valores delineiam os tons emotivo- volitivos com os quais proferem seus enunciados, impondo neles suas “assinaturas”. Bakhtin (2010) trata da visão estética a partir desse ser humano real.

La unidad del mundo de la visión estética no es de índole semántica y sistemática, sino que se trata de una unidad concretamente arquitectónica, organizada en torno a un centro valorativo concreto, que puede ser pensado, visualizado, amado. Este centro es el hombre, y todo en el mundo cobra significado, un sentido y valor, en tanto que humano, tan sólo en su relación con el hombre. Toda la existencia posible, y todo sentido posible se disponen en torno al hombre como centro y como único valor, y todo debe ser relacionado con el hombre (aquí la visión estética no reconoce fronteras), debe llegar a ser humano (BAJTÍN, 1997, p. 67-68)54.

Diva, Tarcísio e César são os pontos sensíveis de onde subtraio a experiência da escrita literária. São eles os centros de valores para os quais detenho-me. Em seus enunciados, há uma visão estética, um olhar sobre a literatura, sobre a escrita literária, especificamente. São deles que busco reconstruir histórias de vida, valores e sentidos, os mais diversos, que contribuem para a efetivação de atos éticos, de tomadas de posição sobre a vida, em seus inúmeros contextos, e que, por isso mesmo, individualiza cada uma de suas manifestações.

No Prólogo, também elenquei os objetivos pretendidos ao cabo da análise. Aqui, esquematizo-os de modo a expor uma sequência lógica na abordagem dos enunciados. Esse esquema será útil à condução da análise sem perder-se por di- gressões desnecessárias, por não contribuírem aos fins pretendidos. O formato do referido projeto de extensão permitiu a construção de enunciados demasiadamente extensos, o que abriu a possibilidade de o autor abordar uma infinidade de temas marginais ou mesmo desviar-se inteiramente das questões lançadas. Para otimizar o trabalho de análise, proponho os seguintes passos:

54 Trad. Miotello e Faraco: “A unidade do mundo da visão estética não é uma unidade de sentido, mas uma unidade concretamente arquitetônica, que se dispõe ao redor de um centro concreto de valores, que é pensado, visto, amado. É um ser humano este centro, e tudo neste mundo adquire significado, sentido e valor somente em correlação com um ser humano, somente enquanto tornado desse modo um mundo humano. Toda existência possível e todo o sentido possível se dispõem ao redor de um ser humano como centro e valor único; tudo – e aqui a visão estética não conhece limites – deve es- tar correlacionado a um ser humano, deve tornar-se humano” (BAKHTIN, 2010, p. 124).

Depreender atos éticos nos enunciados dos escritores analisados

Discutir os posicionamentos axiológicos assumidos pelos escritores frente a esses atos

Interpretar dialogicamente como esses atos e

esses posicionamentos se relacionam com suas práticas de escrita

No Passo 1, apresento um recorte daquilo que interpreto como ato ético ex- presso pelo entrevistado. Optei pelo destaque de três atos para cada escritor. No Passo 2, evidencio com mais clareza a sua posição axiológica diante do ato. Para tanto, faz-se necessário ainda trazer outras vozes, consoantes ou dissonantes, mas que possam reforçar ou oferecer contraste à posição do autor, melhor evidenciando- a55. No Passo 3, por fim, pretendo mostrar as repercussões desses posicionamentos sobre a escrita de cada um deles. Nessa circunstância, evito recorrer a obras publi- cadas dos escritores, direcionando o foco à sua própria fala, mas nem sempre isso é possível. Vale ressaltar ainda que há uma apresentação biográfica56 do entrevistado ao início de cada análise, que não deixa de fazer parte dela. Esse exercício tem o intuito de apresentar suas circunstâncias sócio-históricas, posto que, como explicita- do, essas circunstâncias não são “moldura” para o enunciado, mas dele fazem parte inseparavelmente.

Reapresento aqui, como visto no Prólogo, os temas que serão destacados nas análises (Quadro 1) e sobre quais depreendo atos éticos. Eles formarão o corpo principal da análise, pois são a partir deles que pretendo problematizar posiciona- mentos concretos e axiológicos de sujeitos-autores responsáveis.

55 Conforme Bakhtin (2017b, p. 67), “um texto só tem vida contatando com outro texto (contexto). Só no ponto desse contato de textos eclode a luz que ilumina retrospectivamente e prospectivamente, fazendo dado texto comungar no diálogo”.

Quadro 1 – Temas destacados na análise

Diva Cunha

(a) A escrita engajada (b) A mulher na literatura

(c) A antropofagia com João Cabral de Melo Neto

Tarcísio Gurgel

(a) A literatura versus realidade (b) A construção de linguagem(ns) (c) A escrita memorialística

César Ferrario

(a) A efemeridade do texto teatral (b) O teatro (a)moral

(c) O teatro dialógico

Reconheço que os atos não estão aqui apresentados em seu estado “puro”. Nem o estão na boca no sujeito-autor pessoa. Explico: o ato é realizado na concre- tude e na singularidade da sua vida, no ato da sua escrita, no instante em que, sobre o papel ou frente à tela do computador, o sujeito conforma seu mundo literário- ficcional. Aquilo que realizo é uma descrição/interpretação do ato, já des- crito/interpretado na voz do próprio escritor. Esse fato, porém, defendo, não desme- rece a relevância e a força de percebê-lo, anotá-lo, tomá-lo como marca de um sujei- to responsavelmente vivo, ético, participante inegável do mundo concreto da vida.

Acrescento, finalmente, uma problemática mencionada por Sobral (2013) quanto ao estudo dos atos humanos. Segundo ele, existe uma dificuldade ou mesmo uma impossibilidade de generalizar atos. Isso decorre do fato de que os atos são analisados a partir da singularidade dos sujeitos agentes, aqueles que os realizam. Assim, se se considera os sujeitos como distintos entre si e únicos no conjunto, seus atos devem obedecer a mesma lógica. A generalização, como se sabe, é comumen- te posta como uma das prerrogativas da produção científica de conhecimento. Con- tudo, em observância às peculiaridades das ciências humanas, como também fez Bakhtin (2017b), aposto nas singularidades em detrimento das generalidades. A in- terpretação do único se sobrepõe à necessidade de universalização. Desse modo, não vejo a categorização rígida de dados como condição de análise. Pelo contrário, penso que, no caso de estudos como o apresentado aqui, a categorização empo- brece as interpretações que objetivam estar lado a lado com o irrepetível.

Tal qual Saramago, referido no início desta seção, busco as “assinaturas” dos autores potiguares, como “assinou” o autor português ao posicionar-se diante da sua prática de escrita, um dentre tantos atos éticos que compuseram sua vida.

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Nesta seção, enfatizei a ideia de uma palavra responsável. Para isso, explorei o con- ceito bakhtiniano de ato ético, cuja base está no sujeito concreto e situado, que, no caso desta tese, reflete-se no autor pessoa, o artista entrevistado e, portanto, enunci- ador. Dessa problematização, emergem os enunciados de Diva Cunha, Tarcísio Gur- gel e César Ferrario. As próximas três seções serão dedicadas à análise, em separa- do, desses enunciados. O intuito é materializar o aporte teórico em falas reais, perce- bidas, é claro, em sujeitos também reais. Trata-se, não se pode negar, do meu ato ético (ato pesquisador) em relação a outros atos éticos, que estarão evidentemente construídos, também, pelo meu tom emotivo-volitivo. Dessa forma, uma sensível (apesar de sistemática) relação eu-outros é o que pretendo apresentar a seguir.

4 LUNETINHAS DE MULHER: DIVA CUNHA

Meu caso com a poesia é feito de longas es- peras, algumas recusas, desejo e paixão.

Diva Cunha

Nesta seção, proponho uma apresentação do sujeito Diva Cunha. Ademais, e princi- palmente, ensejo uma análise do enunciado por ela proferido no contexto do projeto

Voz e criação, no dia 24 de julho de 2014.

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