Wellek e Warren acreditam que os gêneros não devem se manter fixos como mostra a tendência de publicação de novas obras que permitem o deslocamento das categorias, já que “toda e qualquer obra pertence a uma espécie” (1971, p. 286). Portanto, os dois críticos consideram que a epistolografia pode pertencer a um gênero, pois podemos encontrar diversas referências a epístolas consideradas muito importantes para a história literária.
No decorrer dos séculos, as várias epístolas deixadas por autores como Horácio, Varrão, Plínio, Ovídio e Cícero se tornaram referência da literatura clássica. O primeiro livro das Epístolas de Horácio compreende 19 cartas publicadas no ano 20 e o texto se caracteriza como um dos mais importantes poemas autobiográficos da Antiguidade clássica. O segundo livro, Ars Poetica foi destinado a Lúcio Pisão e a seus filhos, uma família de literatos, e recebeu essa denominação por Quintiliano. Essa obra é considerada híbrida entre a epístola e o tratado técnico, e é comumente classificada por alguns estudiosos como uma obra de caráter introdutório e por outros como uma seleção de assuntos vários sobre poesia23.
Na Idade Média, a Ars dictandi definiu as regras para a redação de cartas, atividade geralmente confiada a um dictador, uma pessoa culta que redigia as correspondências papais e laicas. Para as Ars dictandi foram consideradas ainda o modelo de carta tradicional segundo o molde grego-latino sob a estrutura de 1) salutatio (saudação do destinatário); 2) exordium ou captatio beneuolentiae (prender a atenção do leitor e conquistar a sua benevolência); 3) narratio (apresentação do assunto); petitio (súplica ao leitor para cumprir o que lhe é solicitado; conclusio (recapitulação e conclusão). As regras
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CEIA, E-dicionário de termos literários: Epístola, http://www.edtl.com.pt. Acesso em: 27 jul. 2011.
estabelecidas pelas Ars dictandi para a redação de cartas as classificam no campo da retórica24.
Se ficarmos apenas na tradição literária italiana, a epistolografia ocupa um fértil terreno. Dante Alighieri foi um dos autores que se dedicou à escrita epistolar. Das epístolas escritas pelo autor da Divina Commedia, 12 foram recuperadas e se encontram reunidas e classificadas em três grupos. O primeiro grupo constitui-se em cartas de caráter ocasional ligadas a circunstâncias e convenções de natureza diplomática. O segundo grupo é considerado o de maior relevância, pois comporta as cartas ligadas diretamente à biografia e à intelectualidade do poeta. O terceiro e último grupo destaca as epístolas de natureza política e representa a seção mais ampla em extensão e número (I, V, VI, VII e XI) do epistolário dantesco25.
Francesco Petrarca também se configura como um dos principais autores epistológrafos com a composição das Epistolae metricae, Epistola a Boccaccio su Dante, Familiarum rerum libri XXIV e Posteritati. A composição de Posteritati se caracteriza como um retrato em forma de cartas que Petrarca pretendia deixar a seus posteriores, o qual, segundo Parolari, não se trata propriamente de uma biografia
[...] bensì la descrizione di sé da parte di uno scrittore, di un uomo di lettere, che si riteneva degno di tramandare a chi sarebbe venuto dopo di lui un ritratto simile a quelli con i quali Plutarco o Svetonio avevano tramandato le vite degli illustri uomini della classicità26.
Como se sabe, Petrarca tinha um interesse pessoal pela autobiografia, que o induzia a falar de si e a construir uma imagem pessoal baseada no uso atento da sua figura pública. Daí porque Parolari
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CEIA, E-dicionário de termos literários: Epístola. Disponível em: http://www.edtl.com.pt. Acesso em: 27 jul. 2011.
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Somente no grupo das cartas políticas, as epístolas abrangem uma década decisiva para a história da época e para a história interior do poeta. Para consultar as epístolas de Dante Alighieri, pode-se acessar o endereço BONGHI,
Introduzione alle Epistole di Dante Alighieri. Disponível em: http://www.classicitaliani.it/intro_pdf/intro045.pdf. Acesso em: 12 fev. 2012. 26
PAROLARI, L’epistola Posteritati. Disponível em:
http://www.classicitaliani.it/petrarca/ prosa/epistole/posteritati.htm. Acesso em: 21 jul. 2011.
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não considera as cartas de Petrarca sob o ponto de vista biográfico- referência.
Além de Dante e Petrarca outros autores da literatura italiana usaram este gênero como Foscolo, Manzoni, Leopardi e posteriormente Calvino.
Cabral, no âmbito das discussões dos gêneros literários, apresenta uma classificação dos gêneros baseada na história da literatura no que se refere à estrutura interna e externa da obra literária. O autor classifica o gênero epistolar como uma subdivisão da prosa. Para Cabral, o gênero epistolar é a reunião de cartas que trata sobre assuntos variados desde que com “forma literariamente apreciável”, de modo que
Quer à literatura quer à história, interessam as cartas de personalidades que desempenham, no seu tempo, papel de relevo em questões de estética literária ou em outras com especial importância para a sociedade. É muitas vezes nas cartas, nomeadamente nas íntimas, que se abordam problemas que, pela sua delicadeza, se afastam dos livros e das discussões públicas; e isso tem propiciado dilucidações surpreendentes sobre momentos e casos obscuros do passado. A epistolografia apresenta assim um interesse indiscutível (1970, p. 141-142).
Segundo Tavares, o gênero epistolar se apresenta por meio dos elementos da forma em prosa ou em verso, de conteúdo variável e de composição expositiva (1974, p. 147). A epistolografia admite diversas classificações de acordo com o assunto, e podem ser elas amorosas, familiares e didáticas. Entre as didáticas, Tavares cita a Ars Poética de Horácio. Para as epístolas que abordam problemas literários, o crítico as classifica como Apreciativas ou Críticas. Entre as doutrinárias, o autor cita as epístolas religiosas, epístolas de São Paulo, e as políticas como as Cartas Persas, de Montesquieu27 e as cartas de Padre Antônio Vieira. O crítico também trata a obra literária escrita por meio de cartas como um gênero à parte, ou seja, o romance epistolar, e dá como exemplo as obras Die Leiden des jungen Werthers de Goethe e Lucíola de José de
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Alencar28. Nessa classificação, podemos citar também o romance epistolar Ultime lettere di Jacopo Ortis de Ugo Foscolo.
Ao discutir sobre alguns textos dos séculos XVI e XVIII no âmbito da teoria dos gêneros literários, Pécora trata do aspecto formal das Cartas Jesuíticas do Brasil e da sua ligação à tradição da ars dictaminis. Pécora (2001) discute o assunto sob um viés renascentista e jesuítico das questões formais e especifica alguns pontos da discussão teológica característica existente na “invenção retórica” dessas cartas. O autor estuda as cartas como gênero, sem a pretensão de explorá-las como documento historiográfico que serve como fonte de testemunhos de fatos ou conflitos ideológicos da colonização do Brasil, relatos que informam sobre a natureza ou a vida dos índios ou ainda como ponto de reflexão ética ou pensamento teológico-jurídico. Ao crítico interessa “ressaltar certa implicação hermenêutica desta abordagem formal das cartas [...] como um mapa retórico em progresso da própria conversão” (2001, p. 18), reproduzidas com a finalidade de sucesso da ação missionária jesuítica.
A partir dessas breves observações sobre epistolografia e em concordância com Cabral (1970) consideramos o Espistolario um aporte literário que contempla, entre outros assuntos, a tradução. Assim, trataremos a seguir do epistolário de Leopardi à luz dos estudos críticos com vista a examinar a recepção da obra.