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7. Article original (Gait and Posture 2007 in press)

8.2 Echelle de dyscomportement frontal

O romance, considerado por Hegel como a epopéia burguesa moderna,79 tem suas origens no século XVI. Nele, os fatos históricos não são apresentados de maneira explicativo- informativa: presentes na narrativa, podem ser “falseados”, ou seja, ficcionalizados. Para exemplificar, tomou-se em consideração o livro Dom Quixote, de Cervantes, tido como um precursor desse gênero. Ele apresenta um enredo em que se demonstra a possibilidade da coexistência de diferentes estilos e gêneros em um mesmo suporte, em que ocorre a ficcionalização de fatos e momentos históricos,80 o enfoque de diferentes pontos de vista e, em decorrência disto, a ampliação da perspectiva do que está sendo narrado.

Com o passar do tempo, o romance sofreu algumas alterações: mostrou-se permeável à inclusão de diferentes técnicas e recursos narrativos, como a construção a partir do fluxo de consciência – cuja principal referência é o autor irlandês James Joyce – a subversão das categorias espaço-temporais tradicionais, a sua apropriação por diversas escolas literárias, entre outras.

Voltando a Dom Quixote: esta obra transgride toda e qualquer característica restritiva de enquadramento em um estilo único: híbrida – há a presença de cartas, poesias, textos em estilo épico, inserção da coloquialidade, dentre outros elementos, em seu texto –, viola as convenções, parodia a tradição.

79 A epopéia clássica era formada por narrativas grandiosas e extensas, em verso ou prosa, em torno de uma

figura heróica. Os fatos eram acrescidos de diversos elementos ficcionais e, muitas vezes, fantásticos. Já a epopéia medieval, sob a forma das canções de gesta, eram narrativas das façanhas de um herói considerado modelo para a coletividade. Inicialmente oral, foi, posteriormente, registrada e apresentada na forma de livro. Pertence a uma coletividade a quem é destinada (KOTHE, 1987).

80 No livro Dom Quixote além da menção a diversos livros e autores de sua época, cita diversos nomes entre eles

pessoas que de fato existiram. Por exemplo, há alusões à batalha de Jerez, de 1233, cita a honraria recebida pelo cavaleiro Diego Pérez de Vargas, descreve aspectos da batalha de Lepanto (capítulo XXXIX) e, no capítulo seguinte, faz comentários sobre um soldado espanhol chamado Saavedra, ou seja, o próprio Cervantes, com menções elogiosas.

Andrés Amorós, em sua obra Introducción a la novela contemporánea (1996), comenta que o romance conteria um relato – narrado em prosa –, surgido a partir de diversos elementos que o compõem,81 o que o torna de difícil classificação. A já citada obra de Cervantes apresenta problemas ao ser enquadrada em uma única categorização, se não se adotar esta abertura, para a sua conceituação.

Para Amorós, esse tipo de gênero oscila entre possibilidades como a da imaginação e da narrativa, do realismo e do sonho, da história e da utopia. A ausência de uma forma fixa, a possibilidade de abarcar diferentes tipologias textuais, de se relacionar de alguma maneira com a vida de quem o lê e de poder subverter a linguagem explicam a sua sobrevivência a crises e sua permanência até os dias atuais.

Cortázar recupera a tradição ao elaborar, como Cervantes, uma obra híbrida, contendo diversos níveis narrativos, incluindo, por exemplo, anúncios publicitários, relatórios, reportagens jornalísticas e cartas, em um texto que se relaciona diretamente com o mundo do leitor – a realidade latino-americana, os diversos aparelhos ideológicos do Estado, representados pela imprensa, pela polícia, pelas instituições políticas e de poder, ou melhor, as estratégias biopolíticas adotadas pelo biopoder, cujo desmascaramento, em seu texto, se dá através de recursos tais como leitura crítica da mídia, do cinema, denúncia, através da paródia, do sistema de organização dos hormigas82, dentre outros.

Mikhail Bakhtin, em Questões de literatura e de estética (1993), amplia essa definição ao caracterizar o romance “como um fenômeno pluriestilístico, plurilíngüe e plurivocal.”83 Abarca uma diversidade de línguas e vozes – ora sociais ora individuais.

Estabelece, a partir dos estudos de Dostoievski, a noção de dialogismo, ou seja, o diálogo, ao mesmo tempo interno e externo à obra que se estabelece entre as diferentes vozes e os

81 Esses elementos podem ser o mito, as narrativas orientais , o folclore, a literatura burlesca medieval, as cartas,

as memórias, a literatura de viagem, dentre outros.

82 Em Libro de Manuel, os hormigas fazem parte da estrutura para garantir e salvaguardar o poder político. 83 BAKTHIN, 1993, p.73.

diferentes textos sociais. Ao incluir a voz do outro, o romance passa a possuir a estrutura polifônica, e esse discurso do outro – incluindo cada um dos personagens – penetra, gradualmente, na consciência e na fala dos heróis. Uma vez que todo ato de fala é ambivalente, pode-se revelar no texto a existência da carnavalização, na qual diversos elementos, simultaneamente, assumem dois papéis. No carnaval, espetáculo que só tem sentido se é vivenciado, as pessoas são, ao mesmo tempo, atores e espectadores. Há uma inversão paródica do outro. O riso, neste evento, é um aspecto importante. A hilaridade, que destrói a distância temporal, manifestando-se no presente do próprio ato, é vivida por todos, já que são tanto sujeitos como objetos do riso, tanto objetos da alegria como da destruição. A máscara que busca ocultar não esconde: ela revela esta ambivalência, assinala a perda da individualidade, pelo anonimato, e também pela suposição de se ter em uma só pessoa, uma multidão de identidades. É o conceito de carnavalização que possibilita a representação direta da atualidade – ridicularizada pela paródia – e o hibridismo de gêneros literários, o que ocorre no romance. Pelo riso, familiariza-se com o mundo no qual se vive.

Portanto, no texto literário, a carnavalização se manifesta através da ambivalência das vozes narrativas. Em Libro de Manuel, para exemplificar, ela se apresenta nos diversos papéis assumidos pelos integrantes da Joda: em Andrés, enquanto personagem e narrador; em Ludmilla, como atriz e ativista, e, inclusive, através do próprio autor que, além de se dividir em pelo menos três alter egos, é ele mesmo um personagem ficcional. Há também a ambivalência do papel do leitor, que, ao mesmo tempo em que lê – recebe a história escrita por outrem –, constrói, ele mesmo, a história que lê durante o seu processo de leitura. Em

Libro de Manuel, percebem-se as diversas vozes presentes, as citações, referências e a recriação de textos recontextualizadas pelo autor. O resultado é um novo texto, romanesco, reconstruído a cada leitura.

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