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As trajetórias de migração são relembradas e se pode identificar a junção, a argamassa, que une os indivíduos que trazem, em suas histórias pessoais, materiais que fazem com que seja uma só memória. O grupo faz a história na lembrança de cada um. Não é só uma memória individual, mas coletiva. As trajetórias, as histórias de vida podem ser o alicerce para talhar uma só história. A história da favela de Heliópolis. Com os mapas de trajetória social podemos analisar os deslocamentos e a caminhada social de cada entrevistado.

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Antônia Cleide Alves

Antônia Cleide nasceu na cidade de Ibicuã, no Ceará. Lá ficou até os seus cinco anos. Tem boas lembranças de sua infância embora seja bem nova. Essas lembranças, ela guarda como o tempo da melhor situação de sua vida. Um tempo que a infância era aproveitada, pois a relação da criança Antônia

59 Cleide com a família era muito próxima. Ela podia passar as férias na cidade de Maranguape, onde vivia sua avó. Lá ela tinha escola e podia estudar, recorda ela. Como aponta Halbwachs (2006, p. 93) ―as lembranças da infância só são conservadas pela memória coletiva porque no espírito da criança estavam presentes a família e a escola‖. Seu pai tinha um açougue, e isso dava a Antônia Cleide a possibilidade de ter uma vida melhor que aquela que enfrentaria quando saísse do Ceará.

Uma das lembranças mais marcantes para a Antônia Cleide é a de um trem que havia na cidade. Esse mesmo trem foi o que a levou para um tempo muito ruim que faz com que ela não tenha desejo de lembrar a ponto de dizer ―Ah! Acho que foi o pior lugar que me recordo. Acho que foi o pior lugar‖.8

Esse lugar, relembrado com certa dor por Antônia Cleide, é o Mato Grosso. Precisamente na cidade de Cuiabá. Foi pra lá por causa de uma desavença entre seu pai e um tio por causa de disputa de terras.

Seu pai foi influenciado por uma tia que dizia ter muitas possibilidades de riquezas no Mato Grosso. Era o tempo do ouro no Mato Grosso, e muitas pessoas haviam se deslocado para lá em busca da possibilidade de mudança de vida.Segundo Antônia Cleide, seu pai acreditou em uma loucura que sua tia dizia. ―Ela falava que, lá em Mato Grosso, o pessoal naquele período conseguia encontrar muita botija de ouro‖.9

E daí partiram para Cuiabá, no Mato Grosso. Ela lembra que foram de trem, aquele mesmo trem que atravessava a cidade onde morava. “A gente sai de lá no trem. É por isso que isso ficou marcado pra mim. A gente sai de trem de lá e vai embora pra Mato Grosso‖ (Informação verbal). 10

De Mato Grosso, Antônia Cleide não tem muito que lembrar, pelo menos em relação a viver a sua infância. Pois, como ela diz, o sofrimento começou a fazer parte de sua vida.

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Entrevista com Antônia Cleide Alves realizada em 02/02/2010 9

Entrevista com Antônia Cleide Alves realizada em 02/02/2010 10

60 Foi um período que a gente sofreu muito lá, né? Porque, aí, a gente foi trabalhar na fazenda. E trabalhar em fazenda era o seguinte: Você comprava, já comprava da própria fazenda. Você nunca tinha dinheiro pra nada. Daí só trabalho. A gente foi morar numa fazenda lá bem no finalzinho de Mato Grosso.11

Chegando lá, encontra uma realidade com a qual não estava acostumada. As pessoas estavam desmatando o Mato Grosso, o que ela em sua meninice achava a melhor coisa, comentário que faz com certa ironia. Como sua tia era muito pobre, Antônia Cleide e sua família foram morar naquela fazenda que tinha mais trabalho que brincadeira. E lá trabalhava na colheita do algodão, junto com seu pai e seus irmãos.

Nessa situação, Antônia Cleide ficou com sua família em Mato Grosso, durante dois anos. Mas tinha o sonho de morar na cidade de São Paulo, sonho esse acalentado por muitos migrantes no Brasil. Com uma família que conheceram em Mato Grosso, vieram para São Paulo. Essa família de amigos teve a função de apresentar a cidade de São Paulo para a família de Antônia Cleide.

Ao chegar, aos sete anos de idade, à cidade de São Paulo, lembra que logo começou a estudar. Parece que essa questão da educação é emblemática para a vida e para as lembranças de Antônia Cleide.

Em São Paulo, a vida também não foi fácil. Não conheciam ninguém a não ser aquela família que ―apresentaria‖ a cidade para eles. Imediatamente, Antônia Cleide foi para a favela de Vila Zelina, junto com a família dos amigos ―apresentadores‖ da cidade. Lá foram para a casa de parentes da família desses amigos, onde ficaram por quase um ano. Ao saírem de lá, foram para outra favela. Era a Vila Prudente. Enfrentando uma situação precária, morando em um barraco bem pequeno que não conseguia abrigar adequadamente a família e cujas acomodações minúsculas dificultavam a locomoção de seu pai. ―Meu pai tem 1,70 m de altura. Meu pai não conseguia ficar em pé no

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61 barraquinho pequenininho. A gente ficou morando nesse barraquinho lá”.12 Apesar de toda a dificuldade e sem quaisquer outras possibilidades, ficaram por lá.

A Vila Prudente, para Antônia Cleide, foi o lugar especial de boas recordações. Mesmo enfrentando dificuldades e privações ela se lembra desse lugar com saudosismo e até emoção.

Me recordo de lá. Lá, na verdade, tinha duas pessoas que cuidavam muito da gente. Porque tinha que sair pra trabalhar, meu pai e minha mãe. Nós éramos em quatro. E ficava sozinha lá, né? E era um quintal lá. [...] Tinha uma pessoa que era uma prostituta. Tinha uma outra que bebia. E tinha uma outra que era uma deficiente. Nesse local.13

Interessante que as lembranças de Antônia Cleide desse lugar estão mais relacionadas às pessoas com quem ela se relacionou. A lembrança individual de Antônia Cleide só existe por causa da relação social com os outros. Portanto, ela não se lembra sozinha, mas sempre em companhia de com quem viveu em seu grupo. A imagem que tem nas lembranças são imagens dos outros, e não somente suas. Como diz Halbwachs (2006, p.76)

É mais comum considerarmos a memória uma faculdade propriamente individual – ou seja, que aparece em uma consciência reduzida a seus únicos recursos, isolada dos outros, e capaz de evocar, por vontade ou por acaso, os estados pelos quais passou antes. [...] frequentemente reintegramos nossas lembranças em um espaço e em um tempo sobre cujas divisões nos entendemos com os outros, de que nos situamos também entre datas que não têm sentido senão em relação aos grupos de que fazíamos parte.

Quando Antônia Cleide se lembra da favela de Vila Prudente, com seus contornos e peculiaridades, o faz trazendo à mente os rostos, as imagens, os

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Entrevista com Antônia Cleide Alves realizada em 02/02/2010 13

62 lugares onde as pessoas se relacionavam com o lugar, onde todos pegavam água que era o ponto de encontro, segundo ela recorda:

Quando nós morava era o único lugar que tinha água. Era um poço. Lá na Vila Prudente. Em 70, isso já foi 70, 71. Quando nós chegamos lá... Aqui em SP. Nesse lugar não tinha água encanada na favela. Então, todo mundo vinha naquele lugar pegar água. Então, quer dizer... A favela inteira a gente conhecia. E todo mundo se conhecia porque aquele era o ponto de encontro, né? 14

Era lá, na Vila Prudente, que ela tinha as relações que havia perdido quando morava em Mato Grosso. A favela de Vila Prudente foi a reconstrução da vida antiga quando saiu do Ceará, junto com os pais e com os irmãos, para um lugar distante e diferente, em uma situação contraditória. Mesmo que na favela não pudesse se aproximar do que vivia em sua terra natal, ao menos tinha o que lhe era mais precioso: a solidariedade de gente que ela jamais imaginava conhecer. Até que essa vida mais tranquila de relações próximas foi rompida pela ação do poder público municipal.

Em 1972, ela sofre mais uma ruptura e vem para Heliópolis, que antes era uma devastação total. Perde então aquela atmosfera de solidariedade existente na favela de Vila Prudente. A ação do governo municipal separou pessoas que se articulavam mutuamente visando a sobrevivência. De acordo com Alessi (2009, p.18).

a ocupação iniciou em 1971 com a instalação de alojamentos provisórios para atingir 150 famílias removidas da favela Vila Prudente por necessidade de obras públicas. Em 1978 foi implantado novo alojamento para 60 famílias removidas da favela do Vergueiro

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63 Ao chegar a Heliópolis, reconhece que não foi bom vir, porque, ao chegar aqui, nada encontrava. Enquanto na Vila Prudente, mesmo que precária, tinha uma estrutura que a consolava.

Então assim... Eu lembro que não foi bom vim pra cá. Não era bom... Era perigoso. Era tudo mato. Era tudo longe. Tudo diferente da Vila Prudente. Lá era tudo perto. Lá eu tinha religião. Local pra ir de domingo. Tinha escola. Já tinha montado lá. Tinha bombeiro. Porque tinha lá um bombeiro lá perto. No dia das crianças a gente ia lá ganhar brinquedo. Eu tinha a vizinha tal que eu ficava lá com a filha dela que ela me dava presente. Eu já tinha uma estrutura. Eu tinha uma estrutura assim mínima. Que a gente... Se precisava sentir essa solidariedade, esse conforto. Acho que era isso que, na verdade, tinha. Quando vem pra cá, tenho que reconstruir tudo isso de novo.15

Mas teve de cuidar dos seus irmãos mais novos, estudar e ainda ir à feira pegar alimentos para a família na companhia de amigas e da irmã. Começa a trabalhar bem cedo e continua a lutar para estudar mesmo contra a vontade de sua mãe.

Chegou a se aproximar da igreja católica e de um centro espírita. E até passou algumas vezes pela igreja batista. Mas foi na igreja católica que se identificou com a possibilidade de se envolver na vida social do lugar. Entrou para a associação de moradores do bairro de Heliópolis, a Sociedade dos Amigos Moradores de Heliópolis (SAMH) e logo se destacou, tornando-se a secretária. Após conhecer os líderes da Comissão de Moradores (CM), percebeu que era muito diferente a proposta; pois, enquanto a associação era mais ligada ao governo, a CM era mais aguerrida nas reais necessidades de

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64 moradia dos indivíduos. Portanto, passou para a CM quando derrotou o presidente João Isaías, o João Prefeito, nas votações.

Esse envolvimento começou aos 17 anos de idade e até hoje Antônia Cleide continua envolvida completamente com a favela de Heliópolis sendo presidente da UNAS.

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João Miranda Neto

João Miranda nasceu na cidade de Pau D'alho. Uma cidade bem pequena no interior de Pernambuco. Na Zona da Mata. João viveu nessa cidade que era mais conhecida por conta de São Severino do Ramo. Muitas pessoas até hoje vão pra lá, onde há uma capelinha pequena, mas muito

66 bonita. Mas Pau D'alho tem esse nome porque, segundo a lenda, um pé de alho caiu e fez um grande estrondo.

Nessa cidade, João Miranda estudou até a 3ª série. Com a morte do pai, foi para Recife. Nessa época, ele tinha nove anos e trabalhava ajudando o pai na feira. O pai vendia materiais para animais de carga. Especificamente para cavalos e burros. Às vezes, aqui construía alguns materiais e os vendia na feira. Lá ele pôde ver o seu pai trabalhando e dando valor ao que fazia. Mas, bebia muito e isso não o ajudou a aprender muito com o pai que logo faleceu. Entretanto, João pode dizer; ―Não posso me queixar muito da minha infância, não‖.16

Mesmo que tenha sido curta e marcada por trabalho e pouca escolaridade.

Em Recife, já começou a trabalhar com 12 para 13 anos. Trabalhou de garçom em uma churrascaria em um posto de estrada e logo aprendeu o ofício. Depois foi trabalhar na Universidade de Pernambuco, no bairro Três Irmãos. Percebendo que alguns alunos tinham mais dificuldades, usava a situação da qual desfrutava para ajudá-los. Sempre fazia a mais os alimentos ou bebidas para poder alimentar os alunos necessitados da universidade.

Teve cinco irmãos do casamento de sua mãe com seu pai legítimo. Dois deles faleceram. Sua mãe se casou novamente, e ele foi morar com a avó. Depois, voltou a morar com a mãe, mantendo uma grande amizade com o seu padrasto, como conta:

Mas depois que a gente começou a se chegar, eu considerava ele como um pai meu. Sabe? Nunca vi uma amizade com um padrasto como eu tive com o meu padrasto, assim, no sentido de respeito, sabe? Nunca falava de bater em mim, sabe? Dava conselho. Então, uma pessoa muito legal. A gente se deu bem.17

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Entrevista com João Miranda realizada em 02/02/2010

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67 Desse relacionamento, João Miranda teve mais três irmãos. Trabalhou na universidade até os 16 anos, o que considera algo muito importante para sua vida. Mas, com 17 anos já estava no Exército. E conheceu a sua esposa ali, casando-se aos 19 anos.

A motivação para vir para São Paulo era o trabalho. Após servir o Exército, veio para São Paulo sozinho, na tentativa de arrumar o emprego e buscar a esposa que já estava grávida do primeiro filho. Sua ideia era de retornar ao nordeste. Era início de 1976.

Chegando a São Paulo, foi direto para a casa de uma cunhada, no bairro Parque São Lucas. Começou a trabalhar em São Caetano, na empresa INASA. Sua função inicial foi de ajudante geral. A profissão de garçom não lhe dava muitas possibilidades na grande cidade, mesmo que tenha vindo com boas referências. Durante seis meses, ficou sem a presença da esposa e do filho que logo vieram e se instalaram no mesmo local. Como o local era pequeno para duas famílias, João Miranda e a sua esposa alugaram um quarto, ainda no Parque São Lucas, e começaram a vida em família. As necessidades eram grandes, mas a vontade de se instalar na metrópole superava todas as dificuldades.

Aí, alugamos um quartinho lá, arrumamos um fogão velho lá. Compramos. Aí, a gente começou comprar as panela pra fazer comida. E o colchão, cara, de dia a gente colocava o colchão em pé e, à noite, ele ficava no chão porque não tinha passagem. Aí, começamos assim com filho e tudo. Muito pequeno o quartinho.18

Depois, João e sua família foram morar na Ponte Preta, no bairro São João Clímaco. Fala isso com certo orgulho, por saber que o presidente Lula também morou por lá.

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68 Para João Miranda, o trabalho é o ponto de segurança que fez com que ele continuasse a vida na cidade de São Paulo. Percebe-se que sua memória é bem seletiva nas questões de trabalho. Ao sair da INASA, foi para Eveready, uma fábrica de pilhas. Lá começaram as lutas por direitos dos trabalhadores. Mas também foi na fábrica Eveready que João teve os primeiros contatos com os movimentos sindicais e com a pastoral que desenvolvia a conscientização de operários na cidade.19

Depois de morar na Ponte Preta, compra um barraquinho em Heliópolis, em 1979, por 120 cruzeiros. Não tendo dinheiro, relembra a ajuda recebida de toda a família para a compra do barraco. Mas o que chama a sua atenção e o faz lembrar com mais exatidão desse fato foi que o seu sogro juntou todo o dinheiro que ele e sua esposa mandavam e devolveu para que eles pudessem comprar a casa própria.

Aí, faltava 30. Faltavam 30, e esses 30 meu sogro mandou lá do norte. Trinta cruzeiros pra comprar o barraco. Trinta cruzeiros. Aí, eu paguei pra ele. Ele veio aqui depois e viu o barraquinho da gente, ele falou: ―olha, esse dinheiro que tava guardado foi minha filha mais você que me mandava todo mês e eu fui guardando, eu não precisava gastar. Fui guardando esse dinheiro, olha como serviu pra vocês. De hoje em diante o dinheiro que você pagava aluguel, abri uma poupancinha.20

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―A retomada do movimento sindical combativo ocorreu, a rigor, antes de 1976, já em 1974, a região do ABC renovava seus quadros incluindo personagens que entrariam para a história do país, não só naquele período, mas nas décadas seguintes, como o caso de Luís Inácio Lula da Silva. As análises sobre o papel dos novos movimentos sindicais da década de 1970 destacam que, além da retomada do sindicalismo crítico, não pelego, o grande elemento transformador foi a forma como o movimento se reestruturou.

GOHN. Maria da Glória. História dos Movimentos e Lutas Sociais – A construção da Cidadania dos Brasileiros. Edições Loyola. 2001, p.116

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69 João Miranda relembra a história da sua chegada em Heliópolis e reconhece o quanto a favela proporcionou a ele coisas boas. É a partir desse lugar que a sua memória se conecta com a memória de toda a favela porque, segundo Halbwachs (2006, p.134) ―a população pobre também não se deixa deslocar sem resistências, sem ressentimentos e, mesmo quando cede, sem deixar atrás muitas partes de si mesma‖. O lugar, a favela que já é reconhecida na cidade de São Paulo, passa a existir, não só porque tem o espaço, mas também porque os indivíduos se identificam com esse espaço. A memória surge quando aguçada pelo contexto que se evidencia ao indivíduo e ao grupo. Como diziam Nascimento e Melenandro (2005, p.5-19) ―lembrar implica partilhar lembranças‖. Seus sentidos são instrumentos importantes para relembrar as situações vividas. João Miranda pôde rever em suas lembranças as lutas com grileiros, com a prefeitura, policiais e sempre recorda que só pôde resistir a tudo com a ajuda da igreja católica, por meio de padres, freis, freiras, bispos que realizavam as pastorais da favela, da moradia, bem como alguns protestantes, como pastores que cediam suas igrejas para as reuniões.

Toda a lembrança de João Miranda está embasada nas ações de outras pessoas que dividiam as mesmas ansiedades. Mas, sobretudo, não deixa de manifestar a sua fé naquele que ele chama de ―Deus vivo‖. Para ele a igreja que estava na luta por moradia digna para os mais pobres estava a serviço do Deus vivo. E aquelas que não estavam voltadas para essa realidade serviam ao que ele chama de ―deus morto‖.

Tanto as questões religiosas quanto as de trabalho norteiam as memórias de João Miranda. Parecem ser assuntos de maior grandeza para ele. Durante sua vida, o trabalho foi o ponto de convergência até para o envolvimento com as questões de moradia. Em sua memória, estão vivas as instâncias do trabalho e da necessidade de moradia para todos. Enfatiza que a igreja e um pouco o exemplo de sua mãe foram preponderantes para o seu engajamento social.

70 Em Heliópolis, começa a Comissão de Moradores que serve de resistência para aqueles que desejavam tirar os direitos dos indivíduos como ele de viver em condições adequadas. Chega junto com várias pessoas à construção da UNAS e pode ver o desenvolvimento da favela de Heliópolis, na cidade de São Paulo. Embora afirme que nunca pensou em construir uma favela, mas, sim, que desejava morar, sair do aluguel, alcançar seu sonho e mostrar à sociedade que a relação dos moradores com a favela e com o solo faz parte da história da cidade de São Paulo. Essa relação coletiva está preservada na memória de cada morador da favela. Isso coaduna com o que disse mais uma vez Halbwachs (2006, p.173)

A sociedade não estabelece uma relação entre a imagem de um lugar e sua descrição por escrito. Ela só vê o lugar a partir do momento em que ele já estiver ligado a uma pessoa, seja porque esta o circundou de limites e fechaduras, seja porque normalmente ali reside, o explora ou o faça explorar por sua conta.

Para Halbwachs, a memória, quando percebe o espaço e dele se apropria, entra na esfera do direito àquele espaço. As lembranças passam a penetrar na memória dos indivíduos como propriedades de direito de quem se lembra.

Embora possamos notar a singularidade dos períodos como se fossem

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