A discussão acerca da linguagem, como destaca Faraco (2009), é a principal característica dos textos do Círculo de Bakhtin posteriores a 1926, mas, mesmo nos primeiros escritos, a linguagem já se faz presente. O autor também lembra que, em “Para uma filosofia do ato, a linguagem aparece já apresentada (p. 31 e 37) como atividade (e não como sistema) e o enunciado (p. 37) como um ato singular, irrepetível, concretamente situado e emergindo de uma atitude ativamente responsiva [...]” (FARACO, 2009, p. 23-24, grifo do autor). Ao compreender a linguagem como atividade, o Círculo compreende-a em sua realização prática, utilizada em diferentes contextos concretos, e não como um sistema composto por vocábulos fixos e imutáveis.
Em coerência com esses postulados, Volóchinov (2017), em Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da
linguagem, entende que a interação discursiva é o princípio basilar da linguagem, conforme afirmação a seguir:
[...]. A realidade efetiva da linguagem não é o sistema abstrato de formas linguísticas nem o enunciado monológico isolado, tampouco o ato psicofisiológico de sua realização, mas o acontecimento social da interação discursiva que ocorre por meio de um ou de vários enunciados. Desse modo, a interação discursiva é a realidade fundamental da língua. (VOLÓCHINOV, 2017, p. 218-219, grifo do autor)
De acordo com essa concepção, a linguagem tem como base a interação discursiva entre sujeitos que interagem por meio de enunciados e em situações concretas. A noção de interação relaciona-se a outro conceito importante para a compreensão da linguagem nos escritos do Círculo de Bakhtin: dialogismo. Para os membros do Círculo, a palavra diálogo é compreendida não em seu sentido estrito, pois, como reforça Faraco (2009, p. 60), “não lhes interessa o estudo da forma-diálogo como tal, seja na composição escrita ou no texto dramático, seja na interação face a face”. Diálogo seria entendido no sentido mais amplo da palavra, não apenas como sinônimo de interação face a face. Volóchinov (2017) exemplifica essa amplitude do termo diálogo referindo-se ao livro, enquanto um “[...] discurso verbal impresso [...]” (2017, p. 219, grifo do autor). De acordo com Volóchinov:
Esse discurso é debatido em um diálogo direto e vivo, e além disso, é orientado para uma percepção ativa: uma análise minuciosa e uma réplica interior, bem como uma reação organizada, também impressa, sob formas diversas elaboradas em dada esfera da comunicação discursiva (resenhas, trabalhos críticos, textos que exercem influência determinante sobre trabalhos posteriores etc.). Além disso, esse discurso verbal é inevitavelmente orientado para discursos anteriores tanto do próprio autor quanto de outros, realizados na mesma esfera, e esse discurso verbal parte de determinada situação de um problema científico ou de um estilo literário (VOLÓCHINOV, 2017, p. 219).
Assim, a grande corrente verbal é instaurada, pois, ao mesmo tempo em que o autor do livro orienta a sua escrita para um leitor (o que determina a realização de escolhas, antecipação de respostas, por exemplo), essa escrita responde a outros textos e com eles dialoga. Esses movimentos também ocorrem nos textos acadêmico-científicos, uma vez que outras vozes são reportadas para dar sustentação à voz do pesquisador,
para demonstrar a existência de lacunas dentro de um campo de pesquisa (a serem preenchidas com o trabalho do pesquisador), dentre outras possibilidades.
A leitura das palavras de Volóchinov (2017) também nos possibilita compreender que os enunciados se orientam para enunciados anteriores e a eles respondem. Além disso, nessa contínua interação entre as nossas palavras e as palavras do outro, aquilo que falamos já foi dito anteriormente. Para Amorim (2004), isso não significa que o sujeito realize apenas repetição. Como explica autora, “[...] o trabalho criador consiste exatamente na luta com outras enunciações para poder inscrever sua própria voz. Simplesmente, a criação e a voz do autor não ressoariam fora desse fundo onde outras vozes se ouvem” (AMORIM, 2004, p. 133). Na escrita acadêmico- científica, essa luta também se faz presente, pois o pesquisador incorpora ao seu texto as vozes dos outros e busca construir a sua própria voz.
Bakhtin (2011, p. 323), ao abordar o conceito de diálogo, explica que “dois enunciados, quaisquer que sejam, se confrontados em um plano de sentido (não como objetos e não como exemplos linguísticos), acabam em relação dialógica”. O autor esclarece que as relações dialógicas ocorrem entre todo tipo de enunciado e só são possíveis entre enunciados usados por sujeitos discursivos. Para Bakhtin (2011), essas relações não podem ser interpretadas com sentido restrito de discordância, luta, contenda. Para o autor, “a concordância é uma das formas mais importantes de relações dialógicas” (BAKHTIN, 2011, p. 331, grifo do autor) e possui muitas variedades.
Podemos notar que as relações dialógicas são dinâmicas e apontam tanto na direção do acordo, quanto na de tensão. Faraco (2009, p. 68) explica essa compreensão multidirecional das relações dialógicas, reforçando que “delas pode resultar tanto a convergência, o acordo, a adesão, o mútuo complemento, a fusão, quanto a convergência, o desacordo, o embate, o questionamento, a recusa”.
Outro aspecto importante destacado por Bakhtin (2011, p. 332-333, grifo do autor) diz respeito à compreensão que, para o autor, também se constitui como elemento dialógico, pois “o entendedor se torna inevitavelmente um terceiro no diálogo (é claro que não no sentido literal, aritmético [...]), entretanto a posição dialógica desse terceiro é uma posição absolutamente específica”. Isso porque, nessa concepção, todo enunciado direciona-se para um destinatário que o falante pressupõe e cuja compreensão responsiva ele busca antecipar.
Bakhtin (2011, p. 333, grifo do autor) também explica que a compreensão como terceiro elemento no diálogo não é algo metafísico, mas algo que “decorre da natureza da palavra2, que sempre quer ser ouvida, sempre procura uma compreensão responsiva e
não se detém na compreensão imediata mas abre caminho sempre mais à frente (de forma ilimitada)”. Isso significa que a palavra, conforme esse entendimento, entra no diálogo e é ouvida, compreendida e sempre vai além porque é respondida e outras réplicas poderão se seguir.
A palavra, para Volóchinov (2017), orienta-se para o interlocutor. Ela constitui o elemento comum entre aquele que fala e o seu ouvinte, e seria, portanto, o elo entre o um “eu” e um “outro”. Conforme Volóchinov (2017):
Em sua essência, a palavra é um ato bilateral. Ela é determinada tanto por aquele de quem ela procede quanto por aquele para quem se dirige. Enquanto palavra, ela é justamente o produto das inter- relações do falante com o ouvinte. Toda palavra serve de expressão ao “um” em relação ao “outro”. [...] A palavra é uma ponte que liga o eu ao outro. Ela apoia uma das extremidades em mim e a outra no interlocutor (VOLÓCHINOV, 2017, p. 205, grifo do autor).
Volóchinov destaca a relevância da orientação da palavra para o outro (o ouvinte), para um horizonte que é inteiramente social e pressuposto pelo falante. Assim, para Volóchinov (2017), as palavras de um falante serão sempre orientadas para quem é o outro (grupo social a que pertence, qual é a relação hierárquica existente entre o falante e o outro, qual é o laço social – amizade, familiar...). E ainda no caso de inexistência de um interlocutor real, “ele é ocupado, por assim dizer, pela imagem do representante médio daquele grupo social ao qual o falante pertence” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 204).
Conforme vimos, Volóchinov (2017) atribui para a linguagem uma dimensão social – em consonância com os escritos do Círculo – ao conceber a língua não como um “sistema abstrato de formas linguísticas normativas e idênticas” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 180), como orientavam os estudos da área de linguística. O autor assume como elementar na linguagem não formas isoladas, mas o enunciado concreto, dinâmico, inserido em um contexto histórico. Considerando essa compreensão da dimensão social
2 Amorim (2004, p. 134) lembra que, “na realidade, não é a palavra que é dialógica, mas sim o enunciado”. De acordo com Amorim (2004, p. 134), “quando Bakhtin fala da palavra (dialógica [...]) será preciso entendê-lo, a rigor, como palavra-enunciado”.
da linguagem, abordamos, na próxima subseção, as noções de signo ideológico e de posições axiológicas.