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Algorithm 1 EA Pseudo-code implementation initialize(population)
Desde a década de 1930 com o advento da biologia molecular se agudizou o processo de objetificação do homem, ou antes, da criação de imagens objetificadas do homem. Este processo é parte de um movimento interno ao mundo-da-vida, e que atinge seu ápice com as intervenções biotécnicas. No interior do mundo-da-vida existem movimentos de exigência de racionalização. A cada etapa se exige reflexão sobre determinados campos, esta exigência é suprida pela esfera do sistema.
Como Weber aponta ocorre um “desencantamento do mundo” [Entzauberung
der Welt] na medida em que partindo destas exigências de reflexão, conteúdos do
mundo e da vida cotidiana vão se tornando discursos científicos. Onde existiam forças sobrenaturais, espíritos, ou divindades, passam a existir reações eletroquímicas, mecânicas, acústicas, visuais, sendo compreendidas como fenômenos agora interpretados à luz da ciência.
O desencantamento do mundo também é o desencantamento do próprio homem. Desta forma, o processo iniciado por Galilei de compreensão do mundo
enquanto escrito em linguagem ou imagem matemática, atinge no século XX ao próprio homem, que passa a ser compreendido a partir de um estoque de informações contidas na estrutura do genoma. Propiciou-se assim, uma ampliação e propagação de imagens auto-objetificadas do homem nos moldes das ciências naturais.
El cientificismo tiende a menudo a desdibujar la frontera entre, por un lado, los conocimientos teóricos de las ciencias naturales que son relevantes para la interpretación que hacen los hombres de sí mismos y de su posición en el conjunto de la naturaleza y, por otro lado, una imagen del mundo confeccionada a partir de una síntesis procedente de las ciencias naturales. Esta especie de naturalismo radical devalúa todos los tipos de enunciados que no pueden ser reducidos a observaciones experimentales, a proposiciones nomológicas o a explicaciones causales; devalúa, por consiguiente, tanto los enunciados morales, legales y evaluativos como los enunciados religiosos. (HABERMAS, 2006, p. 149).
Os impulsos hermenêutico-redescritivos presentes nas modernas intervenções biotécnicas são respostas às exigências reflexivas no interior do mundo-da-vida. A biotecnologia está presente no agir e fazer humanos desde o controle de micro-organismos no processo de fermentação de cerveja, aproximadamente dezessete séculos antes da era comum, até as mais recentes inovações biotecnológicas que vieram a se espraiar sobre praticamente todos os campos do saber humano (desde a bioindústria até a biomedicina).
O problema enfrentado desde meados do século XX e que adentra abruptamente no presente século é o surgimento da biotécnica. Neste sentido há um rol de técnicas dentro das biotecnologias e engenharias genéticas que estão diretamente ligadas com dois eventos importantes de finais do século XX que efervesceram o ambiente intelectual da época: a clonagem bem-sucedida de um mamífero a partir de uma célula adulta (a ovelha Dolly) e o anúncio do mapeamento do genoma humano (finalizado em 2003).
A partir destes dois eventos houve uma ebulição mediante às possibilidades de uso das práticas envolvidas em contextos humanos. De imediato, os próprios cientistas envolvidos afirmaram a necessidade de cautela, como atestam as falas do Dr. Ian Wilmut e dos participantes em Asilomar, bem como atualmente se evoca uma cautela diante da técnica CRISPR-Cas9. Porém, estes alertas são constantemente postos de lado, e diante de uma exposição dos benefícios trazidos por tais técnicas
há um arrefecimento das forças de repulsão e mesmo de reflexão e decisão sobre das técnicas.
As imagens trazidas em alguns jornais e revistas de finais do século XX trazem uma exposição de imagens do homem nas quais se confundem os benefícios com promessas de melhoramento e otimização, que chegam a mesclar metáforas religiosas, no intuito de oferecer à esfera pública um canal de acesso marcado pela aceitação de tais técnicas. Outro fato também, foi a acentuada realização de debates que procuraram expor o homem e à vida em um quadro descritivo reducionista, no qual ao final estas estruturas eram reduzidas a mero biologismo. Biólogos e outros cientistas se revezaram na exposição de uma visão naturalista que retornava à agenda reducionista dos inícios da Biologia Molecular; e em concomitante a isto os novos avanços no campo da neurociência, das ciências da informação, da Medicina e das nano e biotecnologias marcaram passo na sedimentação cada vez mais corrente de uma imagem auto-objetificada do homem.
Habermas aponta para o fato de existir um terceiro interesse no campo das pesquisas biotécnicas: além dos pesquisadores (interesse epistêmico) e dos fabricantes (interesse econômico) existe o interesse dos compradores. Este último interesse é tão forte devido a sua carga subjetiva, que com o tempo se empalidece a preocupação moral; este processo de efetua mediante a uma propagação de imagens auto-objetificadas do homem que palmilha a esfera pública. O desejo de diminuir o sofrimento, a erradicação de patologias, e o desejo de ter o próprio filho, ainda movem as pesquisas em um âmbito expressivo.
“A repulsa arcaica que sentimos diante de imagens clonadas idênticas possui um núcleo racional” (HABERMAS, 1998, p. 209). Esta base racional reside no fato de experimentarmos nosso patrimônio genético como um “destino” ou como um dado contingente resultado de um processo guiado pelo acaso, com o qual a pessoa que se desenvolve vive e para o qual ela deve encontrar uma resposta. A ambiguidade gramatical da questão ética fundamental - quem somos e quem
queremos ser? - é atualizada em O Futuro da Natureza Humana (2001), sob a
perspectiva de que estamos diante de uma possibilidade real de dissolver as barreiras entre o que somos por natureza e aquilo que podemos nos dar biotecnicamente.
O núcleo racional dos sentimentos de repulsa expressa-se na existência de conteúdos ainda não reificados no interior do mundo-da-vida, que se mantêm apesar
das sucessivas exigências de racionalização, e mesmo diante das mostras de exaustão do mundo-da-vida, em uma condição não reificada e com potencial contributivo a uma gramática restauradora e mantenedora das fontes do mundo-da- vida.