O parto para os participantes do MHPN é algo tão importante que os motiva a dedicar parte de sua vida para a melhoria das condições de nascimentos de seus filhos e também os da população.
“Eu precisava desse ritual, de saber que a gestação estava terminando, mesmo que antes da hora, mas de preparar a minha cabeça, isso é um rito de passagem” (Nísia – Grupo1).
O processo do nascimento na sociedade não é apenas a chegada de um novo membro, é também um renascimento de um papel de mãe e pai e uma nova unidade familiar (DAVIS-FLOYD, 1992, p. 38).
O parto normal é considerado como um ritual de passagem com um marcador do fim da gestação; mesmo sendo um parto prematuro, como no caso de Nísia, ele demarcou o fim do ciclo da gestação.
“Na época eu era tão leiga que eu falava assim não precisa de um grande médico para parto normal, se você considera que o parto normal a mulher é protagonista de tudo aquilo que está acontecendo, o médico está ali só pra da um suporte no caso de uma necessidade. Então na época eu pensava, eu quero um médico que seja um bom cirurgião porque para parto normal o trabalho é todo meu ele só precisava me assistir”
Na visão do parto normal, a mulher é a protagonista daquele momento. Na lógica de Nísia, o médico apenas iria assisti-la, mas a formação profissional intervencionista dele interferiu no protagonismo de seu parto.
Na humanização, o conceito-chave é a mulher estar no controle do parto; em um processo medicalizado, quem está no controle é o profissional de saúde. Mesmo dando algumas escolhas para as mulheres, ainda são os procedimentos do hospital que prevalecem (WAGNER, 2001).
“Então assim para o parto normal deve se deixar a parturiente mais à vontade, respeitando sua vontade, eu acho que isso seria o ideal, claro que se tiver alguma intercorrência acredito que pode agir, mas deixa acontecer, não precisa de por ocitócito, não precisa ficar tocando toda hora” (Bertha – Grupo
2).
A fisiologia do parto para essas participantes deve ser respeitada, devendo-se deixar a mulher ―à vontade‖, apenas intervindo quando houver necessidade. O conceito de parto nesse caso fica com o parto normal sendo algo natural, ligado à fisiologia, e apenas em alguns momentos pode-se utilizar algumas tecnologias.
“Eu não vejo problema em ter uma cesárea, principalmente se a mulher escolheu ter, o problema pra mim é se essa mulher foi informada para tomar decisão de cortar 7 camadas do seu corpo para ter um filho e de saber quais são as consequências que ela vai ter na pós-cirurgia” (Celina – Grupo 1).
“Eu sei que a cesariana em muitos casos ela é muito bem- vinda, ela é um avanço em casos que onde ela é necessária, mas pra mim a cesárea não foi uma referência boa porque ela foi marcada por mentiras, impaciência dos médicos” (Nísia –
Grupo 1).
Para as participantes, a cesariana é vista como uma intervenção benéfica e necessária em alguns casos, porém muitas dessas cirurgias são marcadas pela falta
de informação das consequências sobre os aspectos de seu corpo e do bebê. No caso de Nísia, a cesariana foi associada a uma impaciência dos médicos em esperar ou induzir um parto normal, e de acordo com a visão dela, a indicação foi marcada por mentiras.
“O Grupo 1 me marcou por isso, ali eu entendi que eu tive uma cesárea desnecessária conversando com outras mães, dali eu conheci outros grupos no Facebook e dali em diante foi um pulinho para eu descobrir outras coisas” (Nísia – Grupo 1).
Como Nísia relata, ela teve uma ―cesárea desnecessária‖, levando em conta que foi contra o seu desejo e que não houve indicação do procedimento. Associando aos relatos das mães que eu conheci no grupo, elas chamavam essas cesarianas de ―desnecesáreas‖.
A interação com outras mães nos espaços sociais torna-se um ambiente de trocas e apoio nas questões da maternidade, legitimando seus sentimentos que são punidos em outros locais como, por exemplo, uma cesárea desnecessária (SALGADO, 2012).
“Eu tive um parto bastante violento, foi uma cesárea não sei se ia virar uma cesárea, mas foi no meu ponto de vista hoje foi uma cirurgia eletiva” (Carlota – Grupo 2).
A cesárea foi associada a um parto violento devido ao fato de não haver indicação no procedimento, considerada por Carlota como uma cesárea eletiva.
Na dissertação de Salgado (2012), que conta as experiências das mulheres em relação a cesarianas indesejadas, a autora conta que essas intervenções não somente frustram devido ao desejo de um parto normal, mas também frustram em relação à expectativa na relação com os profissionais, geralmente marcada pelo paternalismo, desrespeitando o protagonismo da mulher.
“Eu sempre trabalhei com política pública, então eu entendia que a gente sofre uma serie de mazelas políticas, mas no parto não tinha a mínima ideia. Pensando no meu parto aquilo foi me
incomodando e então eu percebi que eu não fui protagonista de nada, não vou dizer que eu fui enganada, mas vão te levando para um lugar que pra mim era muito over, o que era impossível de acontecer e aconteceu” (Carlota – Grupo 2).
As mazelas políticas descritas por Carlota representam o efeito do sistema obstétrico sobre o parto e o nascimento, considerando desde a superlotação e falta de estrutura no SUS até a conveniência e a lucratividade das cesáreas eletivas no sistema suplementar.
“Ouvi recentemente uma pessoa que estava na minha banca que disse assim, talvez a gente tenha que lidar com movimentos de humanização de parto e nascimento, porque nele vai ter a galera mais holística, que está ligada nessa questão mais ancestral a dos deuses envolta no feminino e o retorno, vai ter uma galera mais são evidências científicas”
(Carlota – Grupo 2).
O conceito de parto consiste nas crenças e práticas de um grupo (JORDAN, 1993). Para Davis-Floyd (1992), são todos os membros da sociedade, não apenas os nascidos naturalmente, visto que todos os partos são construídos culturalmente.
Existem diversos conceitos de parto dentro do MHPN, pois o movimento tem uma formação mista de cuidados, contudo eles seguem uma orientação principal de protagonismo e de respeito à mulher.
O autor Luiz Fernando Duarte (2003) desenvolveu o conceito de dimensão físico-moral, sendo condições ou eventos da vida que envolvem sua autorrepresentação e seus sentimentos acerca dessa experiência. O conceito de parto se relaciona nesse termo, pois sua experiência é vivenciada na dimensão físico-moral: físico nas alterações fisiológicas do parto e moral nas experiências positivas e negativas desse evento, construindo um conceito baseado nas experiências sociais e individuais.