O trabalho que exercem os profissionais das motocicletas pode ser considerado um dos escassos casos em que indivíduos pouco escolarizados conseguem obter do seu trabalho significantes que vão além da necessidade do labor pela subsistência e do reconhecimento identitário pelo trabalho. Nós encontramos ali indivíduos que além de enxergarem o seu lugar no mundo pela perspectiva do que fazem, não conseguem sequer se imaginar atuando em outra função. A questão transcende o pertencimento pelo trabalho e adentra na satisfação pessoal em fazer o que realmente gostam e descobriram fazer bem. Cabe, aqui, demonstrar que apesar de se constituírem como motoboys ou mototaxistas por fatores de indisponibilidade de ofertas e opções, foi no gosto pela prática do trabalho que deixar a profissão não é momentaneamente cogitada. Eles não sonharam em ser mototrabalhadores, mas hoje, salvo se
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forem ser donos do próprio negócio, não querem deixar de ser.
Vou estar velhinho em cima da moto se a saúde aguentar...vou ser o motoboy mais velho da cidade. Vou estar com 90 anos fazendo entregas, descer de bengalinha: ó sua entrega tá aqui (IGOR, 2015).
Para Leandro, a liberdade está diretamente relacionada a não vinculação com chefias ou empregadores diretos.
Eu não penso em trocar ela por nenhuma outra profissão de carteira assinada. A gente sabe...trabalhar de carteira assinada tu vai ter que cumprir um horário mais fixo, mais rígido, aguentar desaforo de patrão e punhalada de colega “cobra” pelas costas. No nosso emprego, tu fez a tua entrega, recebeu o teu valor...tu vira as costas e vai embora. Num trabalho em ambiente fechado tu tem que cumprir o teu horário, o salário fixo e tu acaba não tendo liberdade. Nessa nossa função a gente ganha mais, tu tens uma liberdade maior pra fazer o teu horário, se tu quiser atender tu pode atender, se tu quiser dispensar tu pode dispensar. Se tu não tiver afim de trabalhar naquele dia, vou passear, ir pescar...tu desliga o celular e deu [...]Tanto é que eu tô fazendo uma base financeira bem boa, guardar tudo o que eu posso pra que futuramente eu possa montar um negócio pra mim, aí sentar e descansar um pouco também [...] Olha, tinha sido me oferecido uma proposta pra montar uma escola de inglês, o pessoal da Topway, só que mudaram algumas regrinhas deles e financeiramente no momento não teria como...mas quem sabe mais adiante eu monto um ponto e fico de dono e administre ou monto um outro serviço, dono de uma lotérica, sei que é um lucro bem bom. Só teria que achar um local ou montar uma franquia de fast food pra mim porque é uma coisa muito certa, muito garantida. Tô batalhando pra fazer o hoje render o amanhã. (LEANDRO, 2016)
Quando motoboys e mototaxistas eram questionados sobre as razões que os motivavam a continuar trabalhando com as motocicletas, duas indicações chamavam a atenção pelas manifestações e ênfase que davam: a liberdade e a ausência de chefia. A liberdade referida diz respeito a trabalhar pilotando boas horas do dia, ter o controle sobre a jornada diária, transitar pela cidade, poder conversar com as pessoas. Existem também casos mais emblemáticos como o mototaxista que preza a liberdade da profissão pela condição de poder cuidar do seu filho portador de necessidades especiais. Assim, ele trabalha em horários atípicos, que dificilmente outra profissão conseguiria dispor. A liberdade também pode ser entendida como a autonomia sobre como trabalhar e quanto trabalhar.
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Não existe nenhuma empresa ou chefia que cobre rendimento do mototrabalhador, sendo ele o único responsável sobre o seu tempo e ganho.
Enquanto nos empregos tradicionais e formalizados a jornada diária de trabalho é de oito horas (com no máximo mais duas extras, sob condições da lei) com o salário desde a contratação já estabelecido, o mototrabalhador acredita que gerenciar o tempo do seu trabalho pode favorecer o rendimento econômico. O exemplo pode ser estabelecido por uma lógica comum seguida pelos trabalhadores das motos: quando eles precisam complementar a renda, atingir determinado objetivo, eles elaboram metas de ganho. Foi o caso de um mototrabalhador que para fazer a festa de 15 (quinze) anos da filha, trabalhou por um período a mais do dia. Outro caso relatado é de outro trabalhador que trabalha de domingo a domingo sem qualquer descanso diário para conseguir comprar um carro para a filha que está na Universidade. Em nenhum outro emprego eles poderiam traçar essas metas e cumpri-las, até mesmo pela força da Lei, mas para os mototrabalhadores, essa liberdade de trabalhar até o corpo aguentar é uma vantagem.
Quando eu tinha carteira assinada eu não tinha condições de viajar pra lugar nenhum. Hoje em dia eu posso me considerar privilegiado pela profissão que eu tenho e poder viajar e ter umas férias que eu nunca imaginei que pudesse ter (LEANDRO, 2016).
A ausência da figura do chefe ou do patrão na vida dos mototrabalhadores é outro fator de satisfação.
Pela remuneração, por não ter um patrão assim que fique no teu pé o dia inteiro, né? Tu é livre, tu trabalha na rua, tu não enjoa do ambiente nem das pessoas. Tu tá um pouco aqui, um pouco ali, um pouco lá, então tu é um pássaro livre e por ganhar por produção tá sempre produzindo e tá sempre ganhando mais. Isso aí é minha profissão, só “troco” por um negócio próprio (ÂNGELO, 2015) .
Rodrigo é veemente ao demonstrar a preferência em trabalhar com a moto. A presença de um patrão e o baixo salário não o coloca no rol de postulantes à formalização de outro emprego.
No início foi quando eu tive meus primeiros acidentes, eles botaram muito contra, que era pra sair, que isso não era vida. E
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eu dizia que eu não vou sair porque o que eu ganhava na moto eu não ganhava em nenhum outro lugar. Eu não vou voltar a trabalhar de carteira e ouvir desaforo de patrão pra ganhar um salário mínimo (RODRIGO, 2015).
A satisfação aferida por Igor vai além da percepção econômica:
Já aconteceu de ter feriado no sábado, ter feriado segunda, paralisação e o comércio não abrir terça feira. Eu estava louco, eu não sabia o que fazer! Eu estava em casa naquela ansiedade... no final de domingo tu já tá naquela ansiedade pra subir na moto pra trabalhar! É o que tu gosta de fazer. Acho que tudo tu tem que fazer porque gosta... Muitos funcionários que trabalham para empresas grandes e em vários outros lugares, chega domingo de tardezinha, tá vendo Faustão e pensa: Poxa, amanhã é segunda feira, que droga! Cara, sai da profissão porque tu não gosta de fazer aquilo (IGOR, 2015).
Ainda que o dono do ponto ou da lancheria/pizzaria exerça uma função que direciona o trabalho, há a ideia de que é meramente uma condição colaborativa do outro. O trabalho e o ritmo são ditados por quem pilota a moto e ninguém mais. A cobrança pela pressa existe, mas cada vez mais parece existir a noção de que correr tanto como corriam no início da profissão não resulta em vantagens significativas ao final do dia.
Questionados se deixariam a profissão para uma possível inserção no mercado formal de trabalho, a resposta era sempre negativa. São conscientes de suas limitações de formação e escolarização e entendem que jamais conseguiriam ganhar o que ganham e ter a liberdade que julgam ter. Deixar de ser mototrabalhador só é uma possibilidade se for no intuito de ser "chefe de si", montar o seu negócio. Assim os trabalhadores procuram equalizar receitas e despesas para tentar poupar dinheiro para o futuro, em alguns casos, para abrir sua pequena empresa. A prospecção é, portanto, um fator diferencial na vida dos mototrabalhadores quando comparados à ralé e até mesmo outras categorias de batalhadores. O futuro passa a ser vislumbrado, planejado. As expectativas vão além dos sonhos distantes anteriormente vividos.
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