Observando (15) e (16), abaixo, a ordem em que os genitivos no PB são realizados parece não ser fixa:
(15) a. O João riscou um livro [possuidor da Maria] [agente do Graciliano Ramos]. b. O João riscou um livro [do Graciliano Ramos] [da Maria].
(16) a. O João rasgou uma foto [possuidor da Ana] [tema do Roberto Carlos]. b. O João rasgou uma foto [do Roberto Carlos] [da Ana].
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Note-se, contudo, que a leitura evidenciada para construções que designam parte-todo, como as apresentadas em (13), quando parafraseadas com a forma verbal ter, é uma leitura existencial, como fica evidente, por exemplo, em (14d). Agradecemos a Telma Magalhães e a Jair Farias por apontar este fato.
Como falantes do PB, (15a) e (16a) nos soam mais natural do que (15b) e (16b), contudo, não descartamos a possibilidade dessas duas últimas como construções possíveis, provavelmente resultado de alguma operação da componente fonológica da gramática.
Apesar de não haver, em princípio, uma ordem linear fixa na realização dos genitivos, conforme mostram (15) e (16), em termos estruturais existe uma relação de proeminência a qual pode ser capturada empiricamente a partir de testes envolvendo ligação de anáforas e ligação de pronome por um NP quantificado. Conforme o fenômeno da ligação nos permitirá observar, os genitivos no PB, assim como em outras línguas românicas, são projetados na estrutura nominal de uma maneira em que o possuidor c-comanda assimetricamente o agente, que por sua vez c-comanda assimetricamente o tema, resultando na seguinte ordem hierárquica:
possuidor > agente > tema, algo como esboçado em (17)2: (17) DP
3
3
possuidor3
agentetema
Vejamos primeiro a assimetria entre agente e tema dentro do sintagma nominal. Observando (18) abaixo, construção do italiano com dois genitivos, Giorgi (1991) pontuou que o sintagma di Mario só pode ser interpretado como o agente (o responsável pela descrição) e della propria madre, que contém a anáfora propria, só pode ser interpretado como o tema (o alvo da descrição).
(18) a. La descrizione di Marioi della propriai madre ‘A descrição de Mario da própria mãe’
(GIORGI, 1991, p. 30, exemplo (16))
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Em vários momentos desta tese, iremos ilustrar em configuração arbórea a posição de Spec, como também a de adjunção, à direita. Contudo, não estamos assumindo que tais constituintes sejam gerados à direita, e sim à esquerda, seguindo análises como a de Kayne (1994). A opção por ilustrar, em alguns casos, esses constituintes à direita, se deu por ora se tornar mais conveniente (em termos de organização da ilustração), ora por seguir uma tradição (cf. GIORGI & LONGOBARDI, 1990) de representação desses elementos dentro do sintagma nominal.
Como de acordo com a Teoria de Ligação (cf. CHOMSKY, 1981) uma anáfora deve estar ligada e, para tal, ser c-comandada por seu antecedente/referente, uma saída óbvia para representar a estrutura em (18), do italiano, seria uma configuração em que di Mario é gerado em posição acima de della propria madre, posição a partir da qual Mario c-comanda a anáfora própria, como ilustrado em (19)3:
(19) NP
3
N’ di Mario
3
descrizione della propria madre
A impossibilidade de em (18) o sintagma della propria madre ser interpretado como agente, e di Mario ser interpretado como tema decorre do fato de que para tal interpretação della propria madre teria de ser gerado acima do genitivo di Mario e, assim, a anáfora propria não poderia ser ligada por Mario, como ilustrado em (20):
(20) *NP
3
N’ della própria madre
3
descrizione di Mario
Num exemplo do PB equivalente ao do italiano em (18), como dado em (21), encontramos o mesmo padrão de leitura:
(21) A descrição de João da própria mãe (para os colegas)
Em (21), João é interpretado como o agente, enquanto que da própria mãe é interpretado como tema. Para essa construção, uma leitura em que a mãe do João fez uma descrição dele não é permitida. Note-se que, seja qual for a derivação proposta para dar conta de (21), temos de garantir que a anáfora própria seja gerada
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É crucial assumir aqui o caráter funcional da preposição que em termos sintáticos parece ter um papel completamente nulo, seguindo análises gerais como as de Chomsky (1986b), Giorgi & Longobardi (1991), Valois (1991), Ticio (2001), Avelar (2006), entre muitos outros trabalhos. O caráter nulo da preposição de, pelo menos quando introduz genitivos em PB, reflete o fato de que esta preposição não interfere em relações de c-comando. Ver discussão realizada no capítulo anterior, seção 2.5.
numa posição a partir da qual esteja ligada por Mário, ou seja, Mário tem de c- comandar a anáfora própria.
A impossibilidade de interpretar da própria mãe como o agente procede se assumirmos que, como agente, da própria mãe é gerado mais alto do que Mário na estrutura (cf. (20)), fato que explica por que nesse caso própria não estaria ligada por Mário, tornando a construção agramatical.
Em resumo, uma anáfora dentro do sintagma genitivo tema pode tomar como antecedente o genitivo agente, mas uma anáfora dentro do genitivo agente não pode ser ligada por um elemento dentro do genitivo tema, o que aponta para uma assimetria estrutural em que o agente c-comanda (e portanto pode ligar) o tema, mas não o inverso. Note-se que essa assimetria em que o agente é projetado em posição mais proeminente no sintagma nominal em relação ao tema reflete a assimetria entre sujeito e objeto no domínio da sentença.
Um segundo fenômeno das línguas naturais que permite verificar uma assimetria entre sujeito e objeto, em termos da Teoria de Ligação, é a ligação de um pronome por um NP quantificado. Esse tipo de assimetria pode ser verificado também em construções nominais como em (22) a seguir:
(22) A descrição de cada garoto da sua própria mãe
Em (22), cada garoto é interpretado como agente e da sua própria mãe como
tema. Novamente temos de garantir que a anáfora própria, bem como o pronome sua sejam c-comandados pela expressão quantificada, para isso, temos de assumir
que o genitivo tema da sua própria mãe é gerado em posição mais interna em relação à expressão quantificada cada garoto que corresponde ao agente.
Em (23), apresentamos o fenômeno da ligação envolvendo agora construções genitivas de possuidor e agente.
(23) O quadro [possuidor de cada colecionadori] [agente do seui artista favorito]
Semelhante ao que ocorre em (22), temos que garantir que o pronome seu em (23) seja c-comandado pela expressão quantificada de cada colecionador, a fim de capturar o fenômeno de ligação entre seu e de cada colecionador. As relações de
ligação estabelecidas em (23) indicam que o possuidor c-comanda o agente, ou, dito de outra forma, o possuidor é gerado em posição acima do agente. Note-se agora a agramaticalidade de (24) abaixo:
(24) *O quadro [possuidor do seui colecionadori] [agente de cada artista favoritoi]
Em (24), seu tem de tomar como antecedente para referência a expressão quantificada de cada artista favorito, no entanto, parece falhar em ser ligada por
artista, pelo menos assumindo as leituras de papel temático assinaladas em
subscrito. A impossibilidade da derivação de uma estrutura como (24) mostra que a expressão quantificada (cada artista favorito) é incapaz de c-comandar o pronome
seu, contrariamente ao que acontece em (23). Verificando o contraste entre (23) e
(24), vemos que um possuidor pode ligar um agente, mas não o contrário, o que indica que em termos estruturais, o possuidor c-comanda assimetricamente o
agente.
Esse c-comando assimétrico pode ser verificado também em construções nominais como as de (25) a seguir, com genitivos possuidor/agente e tema:
(25) a. A foto [possuidor/agente de cada admiradori] [tema de sua artista favoritai] b. *A foto [possuidor de seui admirador] [tema de cada artista favoritai]
O sintagma de cada admirador nos exemplos em (25a) e (25b) pode tanto ser interpretado como o possuidor (numa leitura em que o admirador possui uma foto da sua artista favorita, sem necessariamente ter sido a pessoa que tirou a foto) ou pode também ser interpretado como o agente (a pessoa que tirou a foto da sua artista favorita). Em (25a), a expressão quantificada, que corresponde ao possuidor/agente, liga o pronome sua dentro do genitivo tema, enquanto que em (25b) tal ligação não ocorre causando agramaticalidade. O que o contraste em (25) mostra é que o
possuidor/agente é projetado numa posição a partir da qual c-comanda o tema e,
portanto, pode ligar um pronome seu, mas não o contrário.
Com base nesses dados de ligação entre construções genitivas no PB, podemos chegar à seguinte conclusão: a partir dos contrastes de ligação verificados, temos que no PB, genitivo agente c-comanda genitivo tema e genitivo possuidor c-
comanda agente e tema, o que de fato não constitui uma peculiaridade desta língua, haja vista que essa relação de proeminência corresponde ao quadro geral verificado para pelo menos outras línguas românicas como o francês (VALOIS, 1996), o italiano (GIORGI & LONGOBARDI, 1991) e o espanhol (TICIO, 2003). No mais, no que tange à aparente ordem livre que esses genitivos podem apresentar no PB, vamos assumir de forma similar como discutido em Giorgi & Longobardi (1991) e Ticio (2003), por exemplo, que essa ordem livre parece provir de regras estilísticas computadas na componente FF da gramática.
Na seção que segue, iremos discutir os padrões de extração de construções genitivas no PB que, em relação a restrições de movimento em construções com mais de um genitivo, apresentam um comportamento similar ao verificado em inúmeras línguas, no sentido de que a presença do genitivo mais proeminente bloqueia a extração de um genitivo mais interno na estrutura. No entanto, algumas peculiaridades em relação à questão de definitude merecem especial atenção no PB, conforme veremos mais adiante.