Logo em seguida, no episódio posterior, o décimo primeiro da AULA 4, teve início mais uma discussão sobre procedimentos que envolviam as formigas. A discussão estava relacionada à questão do armazenamento e
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transporte das formigas. Em princípio, o grupo utilizava um aquário contendo terra, um terrário, para armazenar as formigas. Nesse momento da aula, eles consideraram as limitações desse artefato e começaram a discutir acerca da funcionalidade de tal equipamento para a investigação. No início, o questionamento sobre a função do aquário para a investigação se sustentou primeiro na impossibilidade de se montar a colônia de formigas, uma
justificativa pragmática. Depois, os integrantes discutiram sobre os
procedimentos para a retirada das formigas do aquário para os ensaios. Como essa espécie de formiga tem hábito de se esconder em frestas da parede de residências, Thiago sugeriu colocar entulho de construção no aquário, o que iniciou a interação transcrita abaixo.
Ana: Olha só/ a função/a gente não vai conseguir montar colônia/ então a gente não tem para que a gente vai pegar entulho colocar só para dificultar a manutenção.
Juan: Pelo menos fica mais fácil para pegar/isso é verdade (!) Fabiana: Podia tirar essa parte ((se refere a terra do aquário)). Juan: Também tinha pensado nisso.
Ana: É deixar só um pouquinho de terra/só para ela se aglomerar/ Até seria bom tirar a terra para poder se aglomerar no guardanapo/ entendeu(?) Então/ quando tirar o guardanapo com a isca/ coloca um guardanapo limpo para ela se aglomerarem nele/ né(?)
Thiago: Tenta então tirar só o guardanapo.
Ana: Pois é(!) Quando eu chegar em casa hoje/ eu abro ((o aquário))/se a gente não usar todo hoje/ e outra coisa/ olha só/ se a gente não conseguir capturar elas ((as formigas))/ tem que fazer o seguinte/ a gente pode colocar o aquário no meio ((da fórmica))/ entendeu(?) E fazer isso assim((Ana balança as mãos simulando o gesto de balançar o aquário))// balançar o aquário e elas vão.
Juan: É isso que eu falei.
Ana: Ao invés de fazer com o guardanapo/ Olha só aqui ((Ana aponta o aquário))/ elas não estão se aglomerando no guardanapo/ a gente coloca o aquário no meio((da fórmica)).
Juan: Então/a gente pode fazer o seguinte, a gente pode// Ana: Mas aí a fórmica teria que ser maior.
Juan: Não sabe que a gente pode fazer//coloca isso ((o aquário)) aqui no meio ((da fórmica))/ não é(?) E pode colocar alguma coisa repelente aqui no meio ((do aquário))também/ entendeu (?) Joga cebolinha/ se a cebolinha for repelente/ se não for põe o cravo/ por exemplo.
Ana: A do meio(?)
Juan: Joga aqui ((dentro do aquário))/ Elas vão ter que sair/se ficarem no interstício disso aqui ((do interior do aquário e a região onde será colocado o halo de cebolinha)) e a cebolinha por exemplo/ entendeu(?) Quer dizer que a cebolinha também é repelente.
Nesse segmento, observa-se que a ideia inicial do grupo para a colocação das formigas no experimento consistia na seguinte estratégia: era retirado o guardanapo com isca e colocado um guardanapo limpo. Como
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hipótese inicial, esperava-se que no guardanapo limpo as formigas se aglomerariam, pois foi observado anteriormente que as formigas apresentavam uma tendência de se amontoar no guardanapo com a isca. Entretanto, nesse momento, considerando dados empíricos, Ana trouxe uma observação conflitante com o que era esperado, já que as formigas não estavam se aglomerando nos guardanapos. Ela propõe uma solução para o problema: utilizar todo o aquário no ensaio experimental. Ele seria colocado no centro da fórmica e balançado para estimular a movimentação das formigas. Juan avalizou a ideia de Ana, sugerindo ainda a colocação de alguma substância repelente no interior do aquário para estimular a saída das formigas. Na sua descrição do procedimento proposto, Juan apresentou também uma possível evidência que poderia suportar a hipótese de que a cebolinha é repelente dessa espécie de formigas.
Thiago: Mas é o negócio/ se a gente fizer isso/ se a gente fizer isso no aquário tem que fazer um teste por dia.
Ana: Justamente/ um teste por dia/ mas por isso que eu estou falando se a gente tirar a terra e tentar que elas se aglomerem no guardanapo/ a gente consegue fazer isso.
Thiago: Ah melhor/ fazer o teste sem a terra.
Juan: Ou então/ pega um guardanapo e cada um fica colocando em um potinho aqui assim ((Juan mostra uma embalagem plástica que está sobre a bancada, onde se encontram formigas que foram resfriadas e coloca na frente de Ana)) (!)
Ana Ahaaaaaaammm(!)!
Thiago: Ao invés de fazer um aquariozão/ faz vários.
Essa ideia de Ana foi problematizada por Thiago, que apresentou uma
justificativa pragmática e apontou uma importante limitação no procedimento.
O procedimento implicava realizar apenas um teste por dia. Quando Ana retomou a necessidade do procedimento de aglomeração no guardanapo, Juan apresentou uma alternativa que seria a utilização de pequenas embalagens plásticas para armazenamento e transporte das formigas. A embalagem, trazida por Ana, continha formigas que foram resfriadas; resultado de um teste que foi proposto pela professora Vilma, na aula de apresentação, que será analisada ainda nesta seção. A ideia de Juan foi aprovada por Thiago que a complementou.
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Em episódio posterior, o décimo primeiro dessa aula, os integrantes do grupo descreveram para a professora a alternativa criada pelo grupo para lidar com o problema de retirar as formigas para o experimento.
Professora Vilma: O problema que vocês estão com ele é como tirar elas daí e por na ((fórmica)).
Ana: É o que a gente pensou foi o seguinte/a gente tem duas formas: se a gente tirar essa terra aqui/ acho que a tendência é elas se aglomerar no guardanapo/ se a gente não conseguir/ se a gente abrir o aquário e balançar/ elas vão sair todas e a gente faz o experimento em um dia por exemplo.
Thiago: O problema é esse/ se a gente vai usar o aquário inteiro vai ser uma vez só.
Professora Vilma: Mas elas vão sair/ elas vão para o lugar que vocês querem que elas vão(?)
Ana: A gente vai fazer igual a que você deu ideia. Professora: Ah(!)Vocês vão por dentro de uma ilha(?)
Ana: Ou então/ pode colocar nesta embalagem ((mostra a embalagem para a professora))/ também .
Juan: Porções de formigas.
Apesar da incerteza sobre o uso do aquário, o grupo optou pelo procedimento de colocá-lo no centro da fórmica para iniciar o ensaio experimental na aula. Entretanto, durante a realização do primeiro ensaio experimental, o procedimento traz alguns problemas, que se constituem em
justificativas empíricas para o abandono do uso do aquário. O primeiro
problema foi identificado pela professora: como saber o número inicial de formigas para comparar com o número de formigas que atravessam o halo de cebolinha in natura? Outro problema é que mesmo com toda agitação promovida pelos integrantes, - eles balançaram o aquário, mexeram nos guardanapos, jogaram cebolinha dentro do aquário-, muitas formigas continuaram no aquário.
Professora: Como que vocês vão contar(?)
Juan: A maioria está ficando aqui dentro ((no aquário)).
Thiago: A gente não sabe qual que é o número original ((de formigas)). Professora: Não/ mas as ((as formigas)) que não passaram(?) Tem umas que não passaram.
Juan: É elas tão ficando tudo aqui dentro((aquário)). Juliana: Mas elas ficam rodeando/ rodeando/ rodeando.
Fabiana: Esse negócio de colocar o terrário/ não dá certo/ porque você não sabe quantas ((formigas)) que vão ((ficar no interior do aquário)).
Thiago: É isso/ a gente não sabe quantas ((formigas)) que ficam dentro do terrário/ entendeu(?)
Fabiana: É porque elas ((as formigas)) voltam também/ só elas ((as formigas)).
Ana: Oh(!) Passou uma ((formigas)) aí ((a barreira de cebolinha)). Juan: Mas não dá para você pensar que talvez//
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Thiago: Saiam/ saiam.
Juan: Se bem que o aquário vazio/ podia fazer aquele negócio lá do peso. Thiago: Tem que ser muito preciso.
Juan:Não/ mas é um valor estimado.
O segmento acima evidencia que no primeiro ensaio experimental Fabiana e Thiago já avaliavam negativamente o uso do aquário. Juan apresentou uma proposta para lidar com a situação que foi refutada por Thiago.
Thiago:Mas tem que ver o seguinte/ esse negócio de usar o aquário/ não foi adequado.
Ana: É não é o adequado/ mas vão ver hoje como que elas reagem. Juliana: Mas hoje a gente pode usar.
Ana: E na próxima semana/ já trago tudo em potinhos com 37 formigas em cada um.
Em seguida, Thiago reforçou a sua avaliação sobre o uso do aquário, fato que foi corroborado por Ana que se propõe trazer as formigas para a próxima aula dentro das pequenas embalagens plásticas. Essa decisão foi fundamentada em justificativas pragmáticas (as limitações do aquário enquanto artefato para a pesquisa) e em justificativas empíricas (o uso do aquário dificultava a produção dos resultados da pesquisa tanto pela impossibilidade de saber quantas formigas ficaram no aquário, quanto pela dificuldade de estimular a saída das formigas desse recipiente).
Na próxima aula, a AULA 5, a segunda aula no laboratório, o grupo já não trouxe o aquário, mas sim três embalagens contendo guardanapos e formigas. A cada ensaio experimental, os integrantes do grupo bateram e agitaram essas embalagens e as colocaram abertas no centro da fórmica e iniciaram a marcação do tempo. O processo de discussão que levou a adoção de tal procedimento é apresentado no quadro 11.
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QUADRO 11
Quadro-síntese do processo de tomada de decisão sobre armazenamento e transporte das formigas
Problema Fontes de informações
Ação Operações epistêmicas Tipo de Justificativa Armazenam ento e transporte das formigas Artigo Descrição de
procedimentos Descrever procedimentos Aula 4 (lab.) Discussão
sobre os procedimentos do experimento Considerar limitações do experimento Apresentar hipótese Apresentar dados empíricos Propor procedimentos Identificar evidências Problematizar Propor procedimentos Pragmática Empírica Relato a
professor Apresentar alternativas Descrever procedimentos Realização
do primeiro ensaio experimental
Lidar com situação problema Observar Avaliar resultados Usar dados da investigação Propor procedimento Avaliar procedimento Definir procedimento