Para responder à questão sobre a presença da inter-transdisciplinaridade em teses e dissertações defendida nos PPGs em psicologia do Brasil, nos dirigimos ao banco de tese da capes e, usando descritores concernentes aos termos investigados, selecionamos os resumos dos trabalhos que apresentavam essas perspectivas de forma justificada. Essa seleção totalizou 88 trabalhos, compreendidos entre os anos de 1990 (primeiras ocorrências) e 2011 (nosso recorte temporal para atingir o triênio 2010-2012). Foram selecionados trabalhos que tratavam dos aspectos interdisciplinares e transdisciplinares presentes no processo investigativo. Desse modo que os resultados mostram 65 trabalhos pertencentes ao primeiro grupo e 23 ao segundo.
Apresentamos abaixo um gráfico que mostra a distribuição de todas as teses e dissertações selecionadas com relação aos anos de suas defesas.
O total dos trabalhos encontra-se compreendido entre os anos de 1990 e 2011. Durante a década de 1990, inexistiram teses e dissertações em perspectiva transdisciplinar em PPGs de psicologia brasileiros. Apenas a partir do ano 2001, começam a aparecer, timidamente, mais teses que dissertações em perspectivas transdisciplinar, como veremos a seguir, considerando-se que a produção de dissertações é bem maior que a produção de teses. Em relação aos trabalhos declarados interdisciplinares, a primeira ocorrência data de 1990 e aumenta progressiva e discretamente a partir dos anos 2000. A educação pós-graduada é um tipo de especialização do conhecimento. Como já mencionado, uma perspectiva interdisciplinar não precisa prescindir dessa característica da ciência moderna, mas torna-se necessário que aquela disciplina permita a construção de vasos comunicantes com as demais. Por isso, buscamos verificar a frequência com que essa abordagem é tratada nos níveis de mestrado e doutorado na área. O gráfico abaixo mostra a distribuição.
Gráfico 2: Distribuição da produção por nível de pós-graduação.
1 1 1 2 1 2 2 3 0 2 7 3 6 6 5 7 6 6 4 0 0 0 0 0 0 0 0 2 1 1 2 3 3 2 4 1 1 3 0 1 2 3 4 5 6 7 8 INTER TRANS 0 10 20 30 40 50 60 Dissertações Teses Inter Trans
Vemos clara disparidade entre as frequências das produções de mestrado e doutorado. Esse resultado reflete a concentração de dissertações que se declaram interdisciplinares em relação a teses. O mesmo não se observa no grupo dos trabalhos declarados transdisciplinares, no qual há um equilíbrio numérico entre teses e dissertações, indicando que a produção relativa de teses é maior que a de dissertações, se considerarmos que em consulta recente ao Banco de Tese da Capes, encontramos 10.398 ocorrências de dissertações produzidas com o descritor “Psicologia” no Brasil, contra 3.157 teses com o mesmo descritor, em todo o período capturado pelo Banco. Como já visto, dada a diversidade de áreas de pesquisa e de atuação, a psicologia configura-se de formas tão diversificada que alguns autores como Figueiredo (1989) chegam a considerar que não há a psicologia, mas sim psicologias. Por isso achamos importante verificar como ocorre a distribuição de produções por subáreas da psicologia. Procedemos indicando o nome do PPGPSI ao qual pertencem os trabalhos. Gráfico 3: Distribuição dos trabalhos com relação ao PPG de origem.
O gráfico mostra que os trabalhos em geral se concentram nos PPGs genericamente denominados de ‘Psicologia’, seguidos por outros especificamente denominados: ‘Psicologia ocial’ e ‘Psicologia Clínica’ respectivamente. Ganham relevo igualmente os PPGs ‘EICO ’ do Instituto de Psicologia da UFRJ, ‘Psicologia ocial e Institucional’ da UFR e o de ‘Psicologia do Escolar e do Desenvolvimento Humano’ da U P. Os dois primeiros afirmam iniciativas interdisciplinares em suas propostas de curso, mostrando que a criação de tais programas corrobora para o aumento de produções científicas
0 5 10 15 20 25 Inter Trans
nessa perspectiva. Entretanto, esses programas ainda se destacam pouco com relação à produção de trabalhos na perspectiva transdisciplinar.
A possibilidade de aproximação e diálogo entre saberes diversos deve-se muito ao compartilhamento de um contexto comum, o qual gera uma linguagem transdisciplinar, com permutas de nomenclatura, conceitos, métodos. Tal compartilhamento revela troca efetiva de conhecimentos entre especialidades que atuam juntas. Na análise dos resumos de teses e dissertações, chamou-nos atenção que a maioria dos autores aponta a área do conhecimento com a qual seu estudo faz interface. Em outros, as áreas não são diretamente apontadas, mas são evidentes pelo contexto do trabalho. Muitos trabalhos apresentam mais de uma área, outros, nenhuma explicitamente. Por este motivo, o total das ocorrências é diferente do total de trabalhos.
Gráfico 4: Ocorrência das áreas de interface com a psicologia, apontadas ou inferidas nas produções investigadas.
De maneira geral, grande parte dos trabalhos faz interface com o campo da Saúde e, dentro desse campo, podemos considerar as que especificamente são de Psicanálise. Já nos trabalhos transdisciplinares há maior equilíbrio entre diversos campos.
Verifica-se, pois que, das 65 teses e dissertações em psicologia que apontaram interface com outros campos, 40% encontram-se no campo da saúde. Esse resultado nos leva, por um lado, à constatação de que a psicologia pode ser considerada uma disciplina e um campo profissional da Saúde, tal como preconiza o Ministério da Saúde14. Por outro lado, esta cifra de 40% indica que mais da metade dos trabalhos faz interface com outros campos, sugerindo pelo menos grande potencial de interconexão da psicologia.
14 De acordo com a Resolução n. 287 de 8 de outubro de 1998 do Conselho Nacional de Saúde, há no Brasil
14 categorias profissionais de saúde (de nível superior), dentre elas a psicologia. Disponível em: <http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/reso_98.htm>. Acesso em: 2 fev.2014.
Saúde Psicanálise Sociologia Educação Direito Literatura
Inter 22 12 4 5 4 2 Trans 4 4 3 1 2 0 5 10 15 20 25 Inter Trans
Portanto, essa visada exploratória nos mostra que as perspectivas interdisciplinares e transdisciplinares surgem nas teses e dissertações defendidas nos PPGs em Psicologia do país a partir dos anos de 1990 e de 2001, respectivamente, sendo que a partir da virada do milênio, observa-se um crescimento mais expressivo de ambas as perspectivas. Esse atraso de uma década entre a emergência das duas perspectivas reflete no fato de haver mais trabalhos inter do que trans. Contudo, observamos que nas teses essa disparidade diminui, pois começam a surgir mais trabalhos em perspectiva transdisciplinar. Essas perspectivas se apresentam em trabalhos oriundos de diversos programas de psicologia, destacando-se mais nos programas de psicologia, psicologia social e psicologia clínica. Pudemos também observar que, na justificação do uso dessas perspectivas, os trabalhos revelam importantes áreas de interfaces da psicologia, a dizer: saúde, sociologia, psicanálise, educação, direito e literatura.
Contudo, a fim de compreender o quê ou como os próprios programas estão fazendo para contemplar essas perspectivas no curso da produção do saber em psicologia do Brasil, realizamos uma análise de conteúdo categorial nos relatórios dos cadernos de indicadores da Capes, concernentes à avaliação trienal 2010-2012, que compreendem os anos 2010, 1011 e 2012. Para a análise, nos valemos dos aportes teóricos abaixo apresentados.
3. APORTES TEÓRICOS SOBRE AS NOÇÕES DE INTER-TRANSDISCIPLINARIDADE