Quando, em meados de setembro de 1918, os jornais baianos divul- garam a notícia da erupção de uma “epidemia desconhecida” na Bahia, além de destacarem a velocidade com a qual a doença propagava-se pela cidade, informaram também quais os sintomas apresentados pelos atingi- dos pelo mal: calafrios e febre alta (mais de 39°); prostração; cefalalgia; catarro nas vias aéreas superiores; intolerância à luz; dores pelo corpo; olhos injetados; conjuntivas tumefactas; e, por vezes, perturbações digesti- vas. (A Tarde, 25.09.1918, p. 1; Diario da Bahia, 26.09.1918, p. 3; 23.10.1918, p. 2) Esses incômodos persistiam por um prazo pouco superior a três dias, estendendo-se a uma semana o período de convalescença.
Tais sintomas eram muito conhecidos da medicina e os médicos baianos não encontrariam dificuldade em diagnosticar a doença, sobre a qual existia vasta experiência clínica.Tomemos como exemplo as pesqui- sas realizadas na Bahia por Nina Rodrigues, no decorrer da epidemia de 1890, e por Alfredo Britto, durante o surto de 1895. Em artigos publica- dos na Gazeta Medica da Bahia1 nos respectivos períodos de incidência
desses dois surtos epidêmicos – o de 1890 e o de 1895 – esses médicos apresentaram minuciosos relatos de casos acompanhados por eles nas enfermarias do Hospital Santa Isabel.2 Na época, a observação acurada
da evolução da doença, através de seus sintomas e sinais, aliada ao exame anatomopatológico, que identificou as lesões patológicas produzidas, permitiu que os médicos reconhecessem e descrevessem as formas clíni- cas clássicas da doença e estabelecessem um diagnóstico.
Além dos estudos de Nina Rodrigues e de Britto, a partir da pandemia de 1889-1890 a Gazeta passou a publicar os resultados das investigações clínicas e bacteriológicas, bem como as conferências profe- ridas e as aulas ministradas sobre o assunto em vários países.3 Esses textos
contribuíam para informar os médicos e cientistas baianos acerca dos métodos utilizados nos mais avançados laboratórios de pesquisas bacteri- ológicas do mundo.4 Aliados aos textos veiculados em periódicos
especializados, os manuais, os cursos, os fóruns e conferências internaci- onais eram importantes meios de informação sobre assunto.
Em 1918, desde que a doença vitimara os integrantes das missões médico-militares brasileiras, cujos navios se encontravam ancorados no
133 porto africano de Dacar, os órgãos de imprensa de Salvador passaram a divulgar com maior destaque informações sobre a epidemia que assolava a Europa. As reportagens veiculadas nos jornais baianos reproduziam matérias em circulação na imprensa internacional, nas quais os mais re- putados médicos europeus emitiam explicações diversas sobre a doença e sobre as suas causas. Nesse período, a variabilidade e gravidade dos sin- tomas apresentados pelos acometidos pelo mal, bem como a situação de calamidade que se configurou quase simultaneamente em vários quadrantes do mundo, confundiram a comunidade médica internacional e a ciência médica passou a suspeitar que o quadro em questão poderia significar uma doença nova.
As diferentes denominações que a doença recebeu nos vários países em que incidiu eram reflexo das dissonâncias que imperavam nas acade- mias e nos principais centros de pesquisa médica do mundo. Entre os americanos a doença ficou conhecida como febre dos três dias ou morte púrpura; os franceses chamavam-na de bronquite purulenta; os italianos so- friam com a febre das moscas de areia, e os alemães foram assaltados pela febre de Flandres ou Blitzkatarrh. (CROSBY, 2003, p. 25-27) Na Espanha, foi apelidada de La dançarina, em Portugal ficou conhecida por a pneumónica, porém no restante do mundo passou a ser denominada gri- pe ou influenza espanhola. (Diario de Noticias, 23.09.1918, p. 1)5
Quando a gripe surgiu em 1918, era primavera no hemisfério nor- te, período incomum para a incidência da doença.6 A imprensa baiana
noticiava que, além do insólito aparecimento da epidemia na estação mais quente do ano – geralmente a gripe irrompia na estação mais fria –, a variabilidade dos sintomas e sinais confundiam os médicos na hora de estabelecerem o diagnóstico.
O processo de diagnose da gripe sempre foi bastante dificultado pela variabilidade do conjunto de sintomas apresentados por aqueles que contraíam a doença. Alguns dos sintomas da gripe eram comuns a outras moléstias, podendo provocar equívocos na hora de se estabelecer o diag- nóstico. Mesmo algumas anomalias apresentadas no seu quadro sintomáti- co se confundiam com outras, o que podia contribuir para aumentar a confusão neste momento. A princípio, a gripe podia ser confundida com doenças como a febre tifóide, a varíola, a escarlatina e a febre dengue.7
Admitiam-se também semelhanças entre gripe e a cólera, quando a primei- ra apresentava prevalência dos sintomas gastro-intestinais.
Segundo o professor da Universidade do Porto, Américo Pires de Lima, na epidemia em curso na Europa, as “[...] perturbações gastro- intestinais [eram] em tal grau que classificaram a doença como gripe abnominal”. (Diario da Bahia, 26.09.1918, p. 3) Em artigo publicado no British Medical Journal e reproduzido na mesma edição do Diario da Bahia, qualificava-se aquela epidemia de “misteriosa”, provocada por uma “do- ença nova estranha” cujos sintomas – febre alta, vômitos, dores torácicas e diarréia – tanto poderiam ser atribuídos à gripe abdominal quanto à cólera.
De outro lado, no desenrolar da epidemia na Europa, observou-se significativo aumento do número de infectados que apresentavam qua- dro clínico bastante severo – os sinais gerais de manifestações respiratóri- as constantes eram seguidos por distúrbios nervosos e graves complica- ções pleuropulmonares, digestivas e/ou cardiovasculares. Para Pires de Lima, uma doença que, além das perturbações digestivas, dava astenia, dores musculares e articulares e cefaléia não podia ser diagnosticada como uma simples infecção das vias respiratórias, visto que tinha todos os caracteres duma infecção geral. (Diario da Bahia, 26.09.1918, p. 3)
À maioria dos médicos, impressionou também o fato de indivíduos aparentemente recuperados voltarem a manifestar seriamente a doença, como se em seu organismo não subsistisse nenhum elemento capaz de desencadear o processo biológico de imunização. (SILVA, 1919, p. 44) Era durante a recaída que apareciam as complicações problemáticas, es- pecialmente no sistema respiratório, tais como a broncopneumonia e a pneumonia, bem como os colapsos cardíacos, os quais em poucos dias levavam à morte. (Diario de Noticias, 05.10.1918, p. 2)8
Esse quadro causou alarme e desnorteou grande parte dos médi- cos europeus; muitos passaram a acreditar que o quadro em questão poderia significar uma enfermidade nova, enquanto outros defendiam o diagnóstico de gripe. Segundo as notícias veiculadas na imprensa baiana, eram três as principais correntes divergentes que agitavam a comunidade médica, no início da crise pandêmica: a primeira acreditava tratar-se de uma gripe que tivera início de forma benigna, porém assumira feição mais grave, tornando-se mortal; a segunda admitia o diagnóstico de gri- pe, mas estranhava as circunstâncias e sintomas anômalos que aquela epidemia vinha apresentando; por fim, a terceira, que desde o princípio havia negado o diagnóstico de gripe, afirmava que a doença reinante era
135 a febre dos três dias ou febre papataci, provocada por agente etiológico invi- sível e filtrável, como o da dengue e da febre amarela. (Diario de Noticias, 01.10.1918, p. 1)
Em reportagem do Diario da Bahia veiculava-se a informação de que, em Portugal, a Delegação da Saúde do Porto, “conquanto não pu- desse ter sido estabelecido o diagnóstico bacteriológico”, qualificara de “gripe epidêmica e ligeira” o mal que grassava na Europa. (Diario da Bahia, 26.09.1918, p. 3) Ricardo Jorge, diretor da saúde pública de Por- tugal, que também defendia o diagnóstico de influenza, ressaltava que a diferença entre aquela gripe e a que comumente acometia as pessoas du- rante o inverno era que naquele período a doença se apresentara de forma grave e mortal. Em seção da Real Academia Nacional de Medicina, na Espanha, Grinda considerava que o caráter diverso apresentado por aquela epidemia em relação à ocorrida em 1889-1890 devia-se à variabili- dade do agente da influenza, resultante, entre outras razões, da evolução natural de todos os seres vivos, da qual também não podiam escapar os micróbios. (Diario da Bahia, 27.09.1918, p. 2-3)
Outra nota publicada no Diario de Noticias informava que os médi- cos portugueses Pires de Lima e Carlos França tentavam demonstrar que se tratava da doença conhecida como febre dos três dias ou pappataci, provocada por um agente invisível e filtrável, transmitido pela picada da fêmea de uma espécie de mosquito – o Phlebotomus papatassi. (Diario da Bahia, 26.09.1918, p. 3; Diario de Noticias, 01.10.1918, p. 1)Na Itália, o médico e professor Ferdinando de Napoli, após consultar as publicações de vários especialistas no assunto, concluira que aquela doença possuía identidade com as febres estivais, como também era conhecida a febre dos três dias ou pappataci; enquanto que, na Espanha, os médicos que integra- vam a Junta Provincial de Sanidade de Madrid, assim como os membros da Real Academia Nacional de Medicina, consideravam indiscutível o diagnóstico de gripe, descartando qualquer possibilidade daquela epide- mia ser provocada pela dengue ou pela febre dos três dias. (Diario da Bahia, 01.10, p.2, 1918; 23.10.1918, p. 2)
Ao transbordar até as páginas dos jornais, a falta de homogeneidade nas opiniões dos médicos europeus, que vinham lidando diretamente com os casos epidêmicos, causava perplexidade entre os médicos baianos e apreensão em outros setores da sociedade. O que vinha a ser a espanho- la?A enfermidade em curso naquele período era a febre catarral meteórica,
a febre dengue, a febre dos três dias, a pneumónica, ou era simplesmente a influenza ou gripe sazonal, que naquele período se apresentava de forma mais virulenta?A doença em questão era tão contagiosa quanto parecia? Se a transmissão era feita por contato direto, como ocorria a sua dissemi- nação no mundo inteiro, de forma quase simultânea? Como estava sendo transmitida? Qual era o agente etiológico vivo que estava causando o mal?
No intuito de contribuir para ampliar o conhecimento sobre a doença que grassava na cidade, os jornalistas resolveram colher “algu- mas opiniões autorizadas”. (O Imparcial, 26.09.1918, p. 1) Para tanto, procuraram os mais reputados médicos da Bahia, conforme registra a manchete estampada na primeira página de O Imparcial, reproduzida a seguir:
Figura 15 – A influenza alarma a cidade!
Fonte: O Imparcial, 26.09.1918, p. 1.
Grande parte dos médicos abordados pela imprensa integrava os quadros da Faculdade de Medicina da Bahia e atendia a vasta clientela em prestigiosos consultórios particulares. Outros, além dessas funções, ocupavam o cargo de inspetor sanitário junto à Diretoria Geral da Saúde Pública da Bahia (DGSPB). Ainda sob o primeiro impacto da epidemia, os entrevistados mostraram-se bastante cautelosos ao emitir opinião sobre o assunto.
Dentre os entrevistados, Frederico Koch descartava a hipótese de que a epidemia que irrompera na cidade fosse a influenza espanhola.
137 Embora ressaltasse que não tivera condições de apreender o fenômeno epidêmico em toda a sua extensão, desde o mês anterior (agosto) o médi- co vinha tratando de pessoas atingidas pela doença e verificara que esta se manifestava de forma benigna, como ocorria sazonalmente na Bahia. Para Koch, não havia razão para preocupação, tendo em vista que, ape- sar da sua característica contagiosidade, a gripe não assumia nos trópicos o mesmo caráter de gravidade com o qual se manifestava em climas frios como os da Europa. (O Imparcial, 26.09.1918, p. 1)
Esse panorama denota que a doença já estava presente na Bahia bem antes do fato ter sido registrado pelos órgãos de imprensa ou pela DGSPB. Tal hipótese não é desprovida de lógica, considerando-se a in- tensa movimentação de navios estrangeiros no porto de Salvador. A de- mora do registro do fato pela classe médica, bem como pela DGSPB, deve-se talvez ao período de incubação e de transmissibilidade da doença – intervalo de tempo necessário para que os seus primeiros sinais se manifestassem em um número significativo de pessoas, chamando a aten- ção dos órgãos competentes. Ademais, não se tratava de uma doença de notificação obrigatória, portanto só chamaria a atenção das autoridades sanitárias em caso de epidemia.
Interrogado sobre o assunto, o clínico Edgar Barros informou ao jornalista de O Imparcial que havia atendido muitos doentes daquela mo- léstia, tanto no próprio consultório quanto nos respectivos domicílios. Em vista do grande número de acometidos (em menos de dois dias, fo- ram atendidas mais de cinqüenta pessoas, só na sua clínica particular), o médico acreditava tratar-se de mais um surto de gripe, que embora sem gravidade mostrava-se como sempre muito contagiosa. Para reforçar o caráter contagioso da doença, Barros fez questão de informar que nem ele mesmo escapara da ação da influenza, encontrando-se em estado fe- bril no momento daquela entrevista. (O Imparcial, 26.09.1918)
Na mesma reportagem jornalística, Martagão Gesteira, médico e professor catedrático de Clínica Pediátrica Médica da Faculdade de Me- dicina da Bahia, informava que a gripe incidia com mais intensidade em locais onde havia ajuntamento de pessoas, tal como observado nos quar- téis e agremiações de operários. Sobre a natureza da doença, o médico concordava com seus pares quanto a tratar-se da gripe de costumeira benignidade que incidia periodicamente sobre a Bahia, ressaltando, po- rém, que os médicos responsáveis pelos serviços de saúde dos estabeleci-
mentos mais afetados possuíam maior competência para discorrer sobre a questão. Entretanto, talvez na intenção de tranqüilizar os leitores de O Imparcial (26.09.1918), Martagão Gesteira acrescentava que comumente a gripe não resultava em óbito; as mortes observadas entre os acometidos por aquela doença ocorriam quando estes apresentavam algum tipo de debilidade orgânica provocada por afecções anteriores.
Nota-se que, naquele momento, os personagens com lugar de des- taque na sociedade – principalmente aqueles que ocupavam cargos pú- blicos ou integravam instituições de renome – pareciam querer evitar uma exposição desnecessária e um tanto quanto arriscada. Tais persona- lidades revestiam-se de cautela ao emitir qualquer opinião sobre o assun- to, porque não queriam parecer desinformadas diante de seus pares, nem da opinião pública e, ao mesmo tempo, temiam formular uma hipó- tese que não se comprovasse mais tarde, colocando em cheque a compe- tência que precisavam ostentar. Assim, a maioria absoluta relutou em relacionar a enfermidade que acometia os soteropolitanos à doença pandêmica em curso na Europa, mas ao mesmo tempo não se furtou a classificá-la como a mesma gripe benigna responsável por atacar a popu- lação nos períodos mais frios do ano.