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DSJ /2012/318 OBJET :

Em três décadas de profissão, Eliane Brum produziu quatro documentários. Destes, três deles são personagens mulheres, o que chama a atenção. Em entrevista para essa dissertação, a repórter afirma que “foi uma coincidência, ou sei lá, o caminho do meu desejo, mas não foi planejado” (APÊNDICE B). As mulheres cujas histórias são contadas são de universos completamente diferentes, mas que carregam semelhanças entre si.

Em suas obras audiovisuais, percebemos que a repórter adota um formato de conversa- entrevista, deixando que o entrevistado se sinta livre para falar ou gesticular da maneira que lhe convier. Brum afirma, em alguns de seus livros, que sempre que possível tenta evitar a primeira pergunta e pede ao entrevistado apenas que lhe conte suas histórias. Assim, constata-se, por meio de suas obras, que a jornalista abre-se para o acaso, envolve-se, interpretando os silêncios, as hesitações, as cores, os sons, as texturas, as entrelinhas, buscando verdades para além das

24 Disponível em: https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-01-18/do-centro-do-mundo-ao-fim-do- mundo.html. Acesso em: 7 de mar. de 2020.

25 Disponível em: https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-01-18/do-centro-do-mundo-ao-fim-do- mundo.html. Acesso em: 7 de mar. de 2020.

26 Disponível em: https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-01-30/9-um-humano-novo-na-fronteira-da- guerra-climatica.html. Acesso em: 7 de mar. de 2020.

palavras. Como ela mesma afirma em seus textos, o que a move são as dúvidas, nunca as certezas.

Escutar abarca a apreensão do ritmo, do tom, da espessura das palavras. Escutar é entender tanto o que é dito como o que não é dito. Escutar é compreender que o silêncio também fala - ou compreender que as pessoas continuam dizendo quando param de falar. (BRUM, 2017, p. 35)

Diante de tal trajetória, no início dos anos 2000, Brum afirma que sua curiosidade a levou a contar suas histórias de maneira diferente. Conhecida pela escrita única, a jornalista tinha como objetivo descobrir como era escrever com imagens. Assim, nasce seu primeiro documentário uma história SEVERINA. A obra co-dirigida por ela em parceria com Debora Diniz é produzida pela Imagens Livres, do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Anis).

Em 2004, ao derrubar uma liminar que autorizava as mulheres grávidas de fetos anencéfalos a abortar, sem autorização judicial, um ministro do Supremo disse: “Afinal, quem são essas mulheres? A gente nem sabe se elas existem”. Naquele momento, percebi que estava na hora de começar a aprender a fazer documentários.28

Partindo dessa inquietação, a jornalista vai percorrer, seguindo seu projeto de escrita, os "brasis" ignorados no mapa e trazer à tona quem são essas mulheres invisíveis aos olhos do Estado e sem voz, que têm suas vidas marcadas e afetadas pela Justiça que sequer se interessa pela existência delas. O curta-metragem foi reconhecido por 17 prêmios nacionais e internacionais, entre eles o de melhor filme com o Prêmio da Crítica no CurtaCinema (RJ) e o terceiro lugar no Fort Lauderdale (EUA) ambos em 2005. O vídeo foi disponibilizado na íntegra na internet29.

O documentário narra a história de uma mulher simples, plantadora de brócolis, e analfabeta. Ela é Severina Maria Leôncio Ferreira, moradora da cidade de Chã Grande, interior de Pernambuco - que tem sua vida revirada por uma decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 20 de outubro de 2004, Severina, grávida de um feto anencéfalo internava- se em um hospital de Recife para realizar o processo de interrupção da gestação, no mesmo momento em que uma liminar que concederia a mulheres como Severina o direito de antecipar

28 Disponível em: http://elianebrum.com/documentarios/. Acesso em: 31 de jul. de 2018.

29 Disponível em: http://elianebrum.com/documentarios/uma-historia-severina/. Acesso em: 31 de jul. de 2018.

o parto e retirar o bebê, que não teria condições de sobreviver, era derrubada pelos ministros do Supremo.

Ao deixar o parto para o dia seguinte, por opção do médico, Severina precisou deixar o hospital e começar sua saga para tentar reverter sua situação ao lado do marido Rosivaldo, já que a liminar votada pelo STF suspendia seu direito de interromper a gravidez. Se o médico tivesse feito a cirurgia no dia em que Severina chegou ao hospital, a vontade da mãe seria cumprida. No entanto, diante da decisão do STF, o casal de analfabetos e com dificuldades para entender a Justiça feita apenas para os letrados, precisou ir atrás de outra autorização judicial para interromper a gravidez, o que ocorreu somente depois de três meses de idas e vindas.

De posse da nova autorização, no hospital, Severina enfrenta outras dificuldades, já que a equipe médica se recusa a fazer a intervenção. Perdida mais esta etapa, com sete meses de gestação, no dia 12 de janeiro, depois de suportar mais de 30 horas de trabalho de parto, nascia o filho morto de Severina.

Quando não tinha mais posição, arrastava-se até o corredor. Era inevitável encontrar-se com uma mãe feliz com seu bebê – vivo – no colo. Nesses momentos, os olhos de Severina gritavam uma dor que eu nunca vi no olhar de outro ser humano. Se a tortura de Severina fosse resumida em uma só cena, seria aquele olhar. Aquele olhar que palavras são insuficientes para descrever. Entre todas as mulheres da maternidade, Severina seria a única ali que, ao final, teria um caixão – e não um berço.30

Recuperando-se do parto, Severina só conheceu a cova do filho pelas imagens do documentário. "Eu nem sei onde é a covinha dele", disse emocionada ao assistir ao enterro pela primeira vez no vídeo. Em 2005, o filme foi enviado a todos os ministros do Supremo, conforme é informado em uma das últimas imagens do documentário.

A partir da observação do documentário, fica claro como uma decisão da justiça pode marcar a vida de mulheres como Severina. São mães que, com o aval do Estado, foram obrigadas a conviver com a dor de gerarem filhos que já nascem com a certeza da morte. O documentário, de certa forma, proporciona uma reflexão a respeito do impacto que uma experiência como essa pode causar à vida dessas mulheres, interferindo principalmente em sua saúde mental e psicológica. "Ao testemunhar seu sofrimento, ficou muito claro para mim que aquilo era, sim, um tipo de tortura – uma tortura imposta pelo Estado", desabafa Brum em sua coluna " Chega de torturar as mulheres"31, publicada no site da Revista Época.

30 Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/04/chega-de- torturar-mulheres.html. Acesso em: 31 de jul. de 2018.

Outra produção audiovisual da jornalista nasceu de outra inquietação. A ideia era fazer um documentário sobre a vida da cantora Gretchen. Brum conta, em entrevista para essa dissertação (APÊNDICE B), que quando sugeriu a pauta ao editor da Revista Época, na ocasião, o mesmo recusou a ideia por entender que a artista não era de interesse dos leitores do veículo, o que o levou a interpretar que o que a repórter queria era fazer um perfil de uma celebridade. Sugeriu que ela o fizesse então da artista Luciana Gimenez. Mas, não era essa sua ideia. A repórter não desistiu e cinco anos depois, quando Gretchen completou 30 anos de carreira ela pode contar essa história. Para isso, a repórter partiu de duas perguntas que ela queria responder, primeiro: “como uma mulher rebola há 30 anos pelo Brasil com apenas três músicas? Segundo: Se nós seguirmos “a” Bunda, para que Brasis ela nos levará?”. Bunda, nunca no sentido pejorativo, afirma a repórter. Movidos por essas indagações ao lado de Paschoal Samora, com quem divide a direção do filme, a jornalista parte em busca de respostas. O desafio deu origem ao documentário Gretchen Filme Estrada32.

O vídeo de 1 hora e 26 minutos narra a última turnê de Gretchen e sua primeira campanha política, quando a cantora decide se candidatar à prefeitura da Ilha de Itamaracá, município de Pernambuco, nas eleições de 2010. O documentário mostra não só a personagem Gretchen, amada pelo povo nacional e internacionalmente, como ela mesma afirma no documentário, mas também a candidata, a mãe, a esposa, e a pessoa de nome "Maria Odete". Gretchen é colocada à prova e expõe por meios das imagens as fraquezas e os dilemas das pessoas comuns, como na cena em que lamenta não poder comemorar o aniversário do filho por estar envolvida na campanha, ou ainda, quando pede ajuda para que o abastecimento de água em sua casa seja retomado. Gretchen é uma pessoa de carne e osso, que vai muito além da representação de uma mulher sexy e bonita, dona do rebolado, e que o mundo não conhece.

O terceiro documentário de Eliane Brum é Laerte-se (2017), dirigido em parceria com Lygia Barbosa da Silva. O roteiro é assinado pela dupla e por Raphael Scire. O documentário é a primeira produção brasileira para a Netflix. A obra conta a história de Laerte Coutinho, cartunista que decidiu apresentar-se como mulher após quase 60 anos vivendo como homem em suas investigações sobre as “desidentidades”. “Laertar-se é verbo. Ao mesmo tempo que impele ao movimento, como um imperativo de vida, se volta para si, numa interrogação persistente", afirma a jornalista em seu site.33

32 Disponível em: http://desacontecimentos.com/documentarios/gretchen-filme-estrada/. Acesso em: 31 de jul. de 2018.

O filme retrata uma nudez na vida de Laerte, que nada tem a ver com o aspecto nu do corpo, mas com um nu ligado a sua exposição pessoal, que coloca suas questões, sentimentos e dilemas registrados e expostos ao público. Foram mais de três anos de gravação e mais de 30 horas de conversa e filmagens na casa de Laerte. A cartunista é uma pessoa que se interroga o tempo todo, hábito que também pratica na sua arte, como mostra o documentário.

Brum conduz a narrativa com um tom de diálogo. Laerte é uma figura complexa, uma pessoa com muitas facetas. Genial na construção de suas tirinhas, a cartunista deixa transparecer suas incertezas e dúvidas sobre suas "desindentidades". Ela adora vestidos e pensa em colocar silicone. No entanto, questiona-se sobre o que isso representa. Ela tenta entender e investigar o que é ser mulher.

Neste filme, Laerte conjuga um corpo no feminino, esquadrinha conceitos e preconceitos. Não busca identidade. O que conjura são desidentidades. Laerte é filho e filha, é vó e vô. É também pai, de três filhos, órfão de um. É ainda quem leva a filha ao altar como pai e como mulher. E quem, mesmo sem útero, gesta. Envia suas criaturas para confrontar a realidade na ficção dos quadrinhos como uma vanguarda de si. E, nas ruas, ficciona-se como personagem real. Laerte, pessoa de todos os corpos e de nenhum, embaralha qualquer binarismo. Ao indagar sobre Laerte, este documentário escolhe vestir a nudez, aquela que vai além da pele que se habita.34

Assim, são muitas as interrogações que surgem nesta jornada empreendida pela cartunista. São as dúvidas que desacomodam e a movem nesta descoberta conforme mostra a narrativa.

Dito isso, em mais de três décadas de profissão, Eliane Brum se dedicou, a duas delas, a entender, investigar e produzir reportagens sobre a Amazônia. Nesses 20 anos, Brum percorreu os "brasis" invisíveis no mapa, conhecendo pessoas e realidades negligenciadas. Desde o início dos anos 2000, Brum se dedica, em especial, a duas linhas de reportagem, “a escuta nas periferias da Grande São Paulo e a escuta dos povos da floresta amazônica” (BRUM, 2019, p.7). Para empreender melhor essa jornada e inverter o ponto de vista de onde Brum olhava para o país, em agosto de 2017, a jornalista se mudou para Altamira, no Pará, cidade mais violenta da Amazônia, a fim de acompanhar de perto os povos da floresta. “Sempre me alinhei ao lado daqueles que defendem que, num planeta em emergência climática, a floresta é o centro do mundo. Para ser coerente com minhas ideias, desloquei o meu corpo e, com ele, a minha experiência e o meu olhar” (BRUM, 2019, p. 8).

Assim, seu último documentário Eu+1: uma jornada de saúde mental na Amazônia registra a construção da Clínica de Cuidado, ação social que visava ajudar a população ribeirinha atingida pela barragem de Belo Monte. A obra tem direção de Eliane Brum, que divide o roteiro com Nani Garcia. A ação reuniu uma equipe de 18 profissionais, composto por 16 psicanalistas e psicólogos, uma jornalista e um fotógrafo. O grupo de voluntários partiu, em janeiro de 2017, para Altamira com o objetivo de escutar, tratar e documentar o sofrimento dos atingidos pela barragem.

A ação social promovida pela Clínica de Cuidados mostra uma psicologia que se desloca do consultório, com uma organização mais clínica do trabalho. Trata-se de um processo de escuta que constrói a narrativa do documentário, composto pela ótica da equipe que narra suas experiências a partir do contato com os refugiados de Belo Monte. O documentário é dedicado a João Pereira da Silva, "cuja palavra foi tão forte que rompeu a barragem que separava os Brasis e produziu movimento de vida, dando início à rede de escuta que nos levou até Altamira e o Xingu" (EU, 2017). O texto aparece ao lado da foto do homenageado. A frase inscrita na tela: “Quando há escuta não é preciso sacrifício,” marca o final do documentário (EU, 2017). O vídeo35 com duração de 1h 42 minutos, postado em um canal no Youtube, contou com um financiamento coletivo pela Plataforma Catarse36, na internet.

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