Para inferir sobre os fatores que interferem na demanda por crédito para os pecuaristas nos diferentes sistemas produtivos, serão utilizados dados de um questionário elaborado pela The Nature Conservancy Brasil aplicado no segundo semestre de 2017 e primeiro semestre de 2018, junto a 98 pecuaristas de 11 estados brasileiros, coletando dados sobre as características de suas propriedades e sua propensão à obtenção de crédito nas diversas modalidades e categorias.
A pesquisa buscou compreender as demandas de crédito na bovinocultura de corte, uma das categorias de atividades abrangidas pelo Programa Collaboration for Forests and
Agriculture 6(CFA). O objetivo do levantamento da TNC foi identificar as demandas para desenvolver modelos de financiamento para aumento da produtividade da pecuária, almejando à eliminação do desmatamento associado à produção de soja e à bovinocultura de corte na Amazônia e no Cerrado Brasileiros. A escolha da pecuária justifica-se pela baixa produtividade em comparação à agricultura, e também pelo fato de a pecuária tradicional no Brasil, com baixo uso de tecnologias produtivas, estar intrinsecamente relacionada ao desmatamento pela abertura da fronteira agropecuária e ocupação do território.
Os dados utilizados no estudo foram coletados pela TNC, com o objetivo de delinear os diferentes perfis de pecuaristas frente às demandas e gargalos no acesso a crédito para melhoria de seu sistema produtivo. Para realização da pesquisa foi realizada uma amostragem não probabilística e intencional envolvendo três critérios em que os pecuaristas precisavam: (1) ser
6 Programa financiado pela Moore Foundation, para eliminar o desmatamento associado à produção de soja e pecuária na Amazônia, Cerrado e Chaco Paraguaio e Argentino. Mais informações disponíveis em:
alfabetizados, (2) ter acesso à internet, (3) ter interesse em financiar sua produção para aumento da produtividade. Ou seja, compreende um recorte de produtores que já possuem uma inclinação para melhoria dos sistemas produtivos e uso de novas tecnologias. Foram entrevistados 98 pecuaristas, sendo que após a aplicação dos critérios de corte. Com relação ao recorte geográfico, a TNC já havia feito levantamento sobre problemas no acesso a crédito com os produtores de São Félix do Xingu – PA em 2015. Outros trabalhos também já haviam concluído na mesma direção com relação à irregularidade fundiária e acesso a crédito para sustentabilidade na região (SILVA, 2012; SCHMINK et.al, 2017). Portanto, priorizou-se a realização da pesquisa em outras regiões que não a região do Sudeste Paraense.
A pesquisa foi elaborada por meio da aplicação de um questionário composto por 28 questões para pecuaristas de diversos estados brasileiros. As questões colocadas no questionário, encontram-se no Anexo 1. A Figura 14 agrupa as perguntas em categorias e ilustra a quantidade de questões para cada categoria. O questionário foi divulgado junto a lideranças do setor, em diversos encontros de sindicatos de produtores rurais, cooperativas e em eventos de tecnologia voltados aos pecuaristas.
Os produtores selecionados acessaram os links para os questionários e responderam às perguntas individualmente, sem interferência do pesquisador. O questionário foi respondido de forma eletrônica, por meio de formulários de preenchimento online. As respostas foram armazenadas em planilha eletrônicas e posteriormente, os dados foram tratados nos softwares Microsoft Excel® e Stata®.
Fonte: Elaborado pelo autor.
Nem todas as questões do questionário foram analisadas na pesquisa, visto que as relações dos grupos frente a algumas variáveis – por exemplo nível de escolaridade e sexo dos produtores – não são objeto direto deste estudo. Portanto a análise cobriu apenas as relações entre as variáveis socioeconômicas como a classificação entre pequeno, médio ou grande produtor, dimensão do rebanho, sistemas de produção, fatores que desmotivam no acesso a crédito e atividades de interesse para financiamento.
No contexto do crédito rural para bovinocultura de corte, os conceitos dos fatores que desmotivam no acesso a crédito pelos pecuaristas, encontram-se descritos a seguir:
• Burocracia
Refere-se aos procedimentos de análise do tomador de crédito pelas instituições financeiras para classificá-lo em uma categoria de risco, e à aprovação do crédito. Embora seja um conceito amplo, a desburocratização é uma demanda constante do setor nas discussões para ampliar o acesso à crédito rural.
• Juros
Refere-se ao custo do capital a ser obtido por meio do empréstimo. Juros elevados geram uma percepção negativa, principalmente a produtores acostumados a realizar uma atividade produtiva de baixa produtividade e rentabilidade.
A exigência de documentação como o título da terra e o cadastro ambiental rural na obtenção de crédito podem ser uma dificuldade na obtenção de crédito principalmente no Bioma Amazônico, onde os níveis de irregularidade são altos e existem exigências adicionais.
• Exigência de Garantias
De acordo com a classificação de risco da atividade e do potencial tomador de crédito, a exigência de garantias ocorre como forme de mitigar o risco associado ao empréstimo para as instituições financeiras. Em geral, solicita-se a terra em hipoteca.
• Prazo de Carência
O prazo de carência é o prazo dado para início da amortização dos pagamentos do financiamento. Menores prazos de carência aumentam a urgência da obtenção de renda. • Percepção de Risco
Refere-se à percepção de risco financeiro para o produtor, relacionada com o custo do capital e outras condições atreladas ao crédito. A percepção de risco é subjetiva e individual, de acordo com o perfil de risco do próprio produtor.
• Tempo de Liberação
Refere-se à previsão do tempo de liberação do recurso após a solicitação e aprovação a do crédito junto à instituição financeira.
• Margem de lucro
Refere-se ao incremento da margem de lucro em decorrência da tomada do crédito, frente a uma situação base.
• Problemas de credibilidade
Histórico de inadimplência e problemas jurídicos dos produtores são barreiras iniciais na obtenção de crédito.
Linhas de crédito atreladas a critérios ambientais colocam exigências adicionais de regularização ambiental, como a inexistência de passivos ambientais ou a formalização de termos de ajuste de conduta, caso a propriedade possua passivos identificados.