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“A gente era seguida e perseguida. Para mim, a ditadura foi um atraso na vida dos jovens daquela época, afinal, quando não se tem liberdade para aprender ou fazer o que se deseja, fica a vida inteira com uma marca, com uma restrição, algo que não se pode extravasar”. P.C.F

“Nunca houve nada referente a professores a não ser comentários de alguns presos, mas dos professores mesmo, não se ouvia nada. AM

Partindo das afirmações citadas acima pelos professores, pode-se perceber os

encontros e desencontros entre os mesmos em suas afirmativas, enquanto uma denúncia a Ditadura Militar, devido à perseguição sofrida, outra nega qualquer ato de

violência e perseguição ocorrido aos professores, porém, esta professora é a mais nova

entre os demais professores. Ela também nada percebeu sobre os acontecimentos de

1968, como afirma abaixo:

“Com relação a possíveis movimentos de estudantes, não me lembro. Acredito que não tenha ocorrido nada de importante em 1968. Se tivesse, haveria repressão e eu saberia claramente sobre o assunto”. AM

“Em 1968, o movimento estudantil na Europa e a sua repercussão no Brasil, foram excelentes para a educação. Todos os grandes movimentos que tivemos foi graças aos estudantes”. PR. 70 anos – aposentado – Formação: Educação Artística e Pedagogia.

Explicito que há contradição quando AM afirma que nada ocorreu com os

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decorrer da entrevista, ou seja, ao negar por um lado à repressão e a perseguição, por

outro, acaba afirmando o estreitamento político que se assentava na época.

Em contrapartida, PR acaba afirmando a existência e a importância dos mesmos

ocorridos em 1968, alegando que eles foram capazes de mobilizar e de garantir pequenas conquistas na época em questão no decorrer da entrevista.

Para tanto, no sentido de exemplificar a posição da professora AM, já que a mesma

desconhece tais movimentos, recorro a Thompson quando diz que:

“Os fatos de que as pessoas se lembram (e se esquecem) são eles

mesmos, a substancia de que é feita a história”. A mesma

subjetividade que alguns vêem como uma fraqueza das fontes orais

pode também fazê-la simplesmente valiosa. Pois a subjetividade é

o interesse da história tanto quanto os ‘fatos’ mais visíveis.O que o

informante acredita é, na verdade, um fato (isto é, o fato de que ele

acredita nisso) tanto quanto o que ‘realmente’ “aconteceu”.

(Thompson, 1935, p. 183)

O autor acima citado dá a sua contribuição no sentido de entender as diferentes

visões e percepções de uma mesma época, trazendo a tona aquilo que realmente

interessa e esteve ao alcance da informante, portanto, a idade faz a diferença neste

caso, de acordo com o papel que cada entrevistado estava desempenhando a partir de 1964; se aluno, a visão alcançará um ponto diferenciado dos demais professores que

viveram esse momento intra/extraclasse.

“Em 1971, foi elaborada a Lei 5692. Esta lei prometia muita coisa boa, porém, no decorrer de vinte e cinco anos, não vi ser colocada em prática coisa alguma. Portanto, a lei não trouxe mudanças significativas”. PR. 70 anos – aposentado – Formação: Educação Artística e Pedagogia.

A Lei 5692 abriu as portas da escola para os alunos. Antes dela, os

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deu-se oportunidade aos alunos de continuarem estudando e, ao mesmo tempo, propiciou mais vagas aos professores. AM

A professora, ao afirmar que a referida lei favoreceu professores e alunos, contradiz o que relata Freitag (1980) em seu livro Escola, Estado e Sociedade, quando denuncia que a Lei 5692/71 foi elaborada para assegurar a reprodução de classes dentro de um

ajuste ideológico para estruturar o funcionamento da educação nos três níveis de

ensino, devido à pressão de mais vagas ao ensino superior e o atendimento da

demanda para as séries iniciais até o término do denominado 2º grau, pois essa lei

ajustaria politicamente os problemas que se assentavam, para assegurar a continuidade da busca desenfreada de lucro. Aqui, recorro novamente a Freitag (1980, p. 107) quando diz que: “a política educacional passara – com auxilio do planejamento – a transformar o sistema educacional de tal maneira que ele cumpra todas as funções

de reprodução necessária à manutenção das relações de produção”. Com isso,

percebe-se nas palavras da autora, que a lei mencionada veio reformular o ensino para se adequar ás necessidades político/econômica da época, e que, a professora AM,

somente sentiu o que poderia ser proveitoso enquanto aluna ou professora sem perceber o emaranhado ideológico que estava por detrás da lei já mencionada.

Contudo, pode-se perceber no relato de PR que também se contrapõe a AM, quando

denuncia que não houve proveito algum a partir da elaboração da referida lei. Pode-se

acrescentar ainda a citação de Maria Tetes Nunes na obra de Romanelli (1978, p.136),

quando deixa claro que: “O caráter enciclopédico dos seus programas tornava a

educação para uma elite”.Aqui cabe uma indagação: seria esta lei o portal de dias

melhores no que tange a educação? Se esta lei apregoava o ensino técnico, não se

nega a demanda de vagas para professores, mas ela acabou sucateando o ensino público e ainda mais o privado por preparar alunos especialistas nas funções das quais

a indústria necessitava, ao mesmo tempo em que assegurava a reprodução e

manutenção de classes devido à instauração de um currículo rígido onde só passava os

mais preparados. Enfatiza Romanelli (1978, p. 144), que: “o perigo representado pela

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privadas, mas consistia, sobretudo no risco de extensão de educação escolarizada às

elites”.Para acrescentar um pouco mais à compreensão ao que se destina esta

pesquisa, compreende-se, tanto nas entrevistas como na contribuição dos autores hora

citados, que a referida lei, no que tange o 2º grau, foi capaz de cumprir os ideais

políticos, tornando a escola como elemento que passou a integrar a comunidade de

acordo com suas necessidades e desejos. Portanto, esta lei, ao proporcionar o acesso

à profissionalização, se ateve cuidadosamente às vagas destinadas ao mercado de

trabalho. É por isso que uma das entrevistadas julgou esta lei como um portal de

oportunidades, tanto para alunos como para professores. Neste sentido, é rica a

contribuição de Freitag (1980, p. 34) ao relatar que: “assim a escola, na medida em que

qualifica os indivíduos para o trabalho, inculca-lhes uma certa ideologia que os faz

aceitar a sua condição de classe, sujeitando-os ao mesmo tempo ao esquema de

dominação vigente”. Com isso, a referida autora procura alertar que o processo

ideológico embutido na Lei 5692/71, no que tange a educação, visou a produção e

reprodução da força de trabalho, que por sua vez, gerou uma visão equivocada da

sociedade civil ao acreditar que a profissionalização seria a abertura para dias melhores

e, que como não podia ser diferente, a escola foi a mensageira eficaz da lei acima

citada.

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