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DOUAR OULED HADDA SIDI HAJJAJ TIT MELIL CASABLANCA - -MAROC

Único sino tocava

anjo vermelho cuida de mim vem combater

eu combatia meu pai dizia vou proteger e o tambor tocava bonitas melodias como é lindo

ver o Toca Ogan tocar

O nome “amargosa” está vinculado a uma afetividade e a uma abertura de afetos, e não apenas a uma idéia de coisa, de um objeto, mas é antes uma casa aberta ao vento no deserto, um teatro, um ponto solto e lançado no meio do deserto. Tanto que ouso tomar um trecho de uma correspondência pessoal, um e-mail de Otto para mim, do dia 22. 02. 2007, quando ele me relata, a partir de uma conversa sobre estas suas canções citadas acima, o seguinte procedimento para estas letras citadas acima:

sobre Amargosa poderia te dizer que fica na Califórnia e é um pequeno ponto no deserto (Death Valley), no meio do nada. Lá existe este pequeno teatro. A dona deste teatro é uma atriz que não teve oportunidade em Hollywood, e se instalou naquele remoto lugar. Hoje, para assistir suas peças, tem que se fazer reservas com muita antecedência. Uma historia sensacional. Único sino é a última chance de sermos um país, o anjo vermelho remonta ao nosso presidente, Lula. Isto seria um dos caminhos por onde esta música vai. Enfim justiça, xangô!

O dado importante é que este pequeno ponto no deserto, o teatro de nome Amargosa, é um projeto de vida de Marta Becket, a atriz a que Otto se refere no trecho acima, e fundadora do Amargosa Opera House. Este teatro está ali quase também como uma assombração, um algo no meio do nada. Marta Becket diz numa frase (que também me foi enviada por Otto, em correspondência particular) – acerca deste mover-se de seu teatro: "I am grateful to have found the place where I can fulfill my dreams and share them with the passing scene...for as long as I can." Do outro lado do nome há também a cidadezinha de Amargosa, no dentro-interior baiano, bem no Vale do Jiquiriçá. O nome remonta, por sua vez, a uma história vinculada aos índios Karirís, de língua Karamuru e Sapuyá, até meados do século XIX, quando estes foram massacrados definitivamente pelos colonizadores; e, depois, ainda, empurrados para fora com a chegada dos negros. Mas importante também, de outro lado ainda, é que o nome também se refere a uma outra Amargosa, a planta leguminosa, conhecida vulgarmente como Dente-de-leão; do gênero Taraxacum, uma planta medicinal herbácea conhecida no Brasil também pelos nomes populares de taraxaco, de amor-de-homem, de amargosa, de alface-de- cão ou de salada-de-toupeira, e que no Nordeste é conhecida e tomada para provocar uma esperança, para tomar um sentido de uma esperança, ou várias. O gesto habitual e cotidiano é de se abrir todos os dias as janelas das casas, à tardinha, para que se possa deixar a "esperança", que vem trazida livre pelos ventos tortos, entrar por dentro das casas e romper de generosidade e felicidade as vidas que moram ali, é um transporte a um lugar melhor. Em Portugal, por sua vez, Amargosa é conhecida pelos nomes quartilho, taráxaco ou amor-dos-homens – e as crianças conhecem a planta pela brincadeira engraçada da expressão “o-teu-pai-é-careca?”, que resulta como nome de um jogo infantil, um jogo que supostamente mostraria se o pai de outra criança, a quem se faz a pergunta, seria careca ou não, depois de soprar os frutos desta planta que, ao serem levados pelo vento, deixam uma base semelhante a uma cabeça careca. Sempre, no instar do nome Amargosa, uma sugestão para o vento e, principalmente, para a esperança, como se fosse um “amor-dos-homens”. A amargosa é, pois, assim, uma política para o bem. Uma assombração sem época, um sem tempo.

É, pois, nesse périplo de um nome, como Amargosa, que não se pode perder de vista a relação (ou agenciamento) que, de alguma forma, Otto incorpora, mesmo que por empréstimo, de algo daquilo que Joaquim Cardozo já havia desenhado em seu trabalho. A segunda canção de Otto aqui citada, Único sino, por sua vez, demonstra assim, no caráter de sua anotação – “a última chance de sermos um país, o anjo vermelho remonta ao nosso presidente, Lula. Isto seria um dos caminhos por onde esta música vai. Enfim justiça, xangô!” – está no viés mais simples, mas não menos importante, de sua tomada de posição em direção ao miraculoso da assombração, que é o mesmo que está por dentro do nome amargosa, o de uma espera, o de uma esperança: há um desejo de tocar uma simbologia da esperança que está sempre presente na figura do retábulo, ali, por trás do altar, como uma mancha nos seus lavores. A canção não é senão, também, uma fulguração sonoro-percussiva da representação do retábulo no imaginário nordestino. Retábulo que pode se vincular, numa arquitetura oscilante, à fulguração do gesto profanatório, uma devoção às avessas porque o retábulo se faz em qualquer lugar, é um retábulo móvel. Note-se que num poema de Joaquim Cardozo, intitulado O silêncio expectante e a voz inesperada, de Signo Estrelado, o livro de 1960, esta idéia do retábulo que surge e se faz sozinho, numa devoção, fulgura numa sala de laboratório comum, um “ambiente inerte e indeterminado”, no meio de um silêncio sem fim e rumoroso, um “silêncio-fronteira”, em que se procura descobrir algo acerca do espaço, um “espaço completo e geral”, um espaçamento, aquilo que esgarça o espaço, como uma pulsação que possa de novo comover o coração de um homem – “Pulsação que fosse o sangue de futuros nascimentos e de novas cosmogonias” – e fazer deste coração comovido algo muito próximo à essência do milagre. Ora, o poema de Joaquim Cardozo diz de uma assombração que poderia se desfazer na voz que sai do rádio no final do poema, a voz de uma mulher que canta algo que vem das Antilhas; mas não é esse o procedimento. A assombração permanece e se mantém exatamente na voz que sai do rádio, porque é esta voz sobressaltada que rasga este silêncio que espera (o que está já no título), que vem na figuração da onda ligeira, a onda perdida e vagabunda que rondava a sombra do jardim e invade a vida comum, pequena; esta voz sorrateira e de fresta cumpre o lugar da penumbra poética, do informe, da experiência limite (para tocar por dentro o homem que não espera mais nada) e da atenção à felicidade num seu gesto primeiro, um começar.

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