IMP|T2 <☻> <---- etiqueta independente antecedida de etiqueta principal 1.ocorrer, vir à memória.
[+Cl-Dat][de+INF]
Antigamente já me lembra a mim de fazerem isso. N-LAR09
(7) agarrar v. T, T2, I, MP
T
3. segurar-se com firmeza; colar-se a.
[a+SN] <flex> <SE> <☻> <---- etiquetas independentes precedidas de etiqueta secundária As solas tinham então uns cadeados que agarrava à grade, àquelas grades atrás como os dentes que ali tem. C-VPC02
2. Etiquetas principais e secundárias
No GloDiP as etiquetas principais apresentam a classificação dos verbos. Nas próximas secções são apresentados os critérios estabelecidos para a classificação dos diferentes tipos de verbos. Esta classificação parte sempre de Duarte (2003a) e Eliseu (2009), para as questões mais gerais; e, para aspetos mais particulares, refere-se bibliografia específica que é devidamente identificada na secção pertinente.
As etiquetas principais do GloDiP classificam os verbos quanto ao sujeito e quanto aos complementos.
Os verbos que são classificados relativamente ao sujeito são de três tipos: (i) os impessoais ('IMP'), que nunca exibem um sujeito podendo, no entanto, ter
A INFORMAÇÃO SINTÁTICA NO GLODIP 43
complementos; (ii) os verbos inacusativos ('INAC'), que têm um argumento interno que é sempre sujeito, podendo igualmente ocorrer com outros elementos e (iii) os verbos intransitivos ('I') que nunca apresentam complementos.
A classificação de todos os outros tipos de verbos é feita a partir dos complementos exibidos: (i) os verbos transitivos ('T'), com um argumento interno que é complemento do verbo; (ii) os verbos ditransitivos ('DIT'), que apresentam um complemento direto e um complemento indireto; (iii) os verbos transitivos com dois complementos ('T2'), que exibem dois complementos que não são um complemento direto associado a um complemento indireto; (iv) os verbos transitivos com três complementos ('T3'), que selecionam sempre três complementos; (v) os verbos copulativos ('COP') com um complemento predicativo do sujeito; (vi) os verbos transitivos predicativos ('T.PRED'), que subcategorizam um objeto direto e um predicativo do objeto direto; (vii) os verbos que selecionam um complemento infinitivo ('INF').
Na identificação de um constituinte como 'complemento', foi tida em conta a classificação proposta por Pustejovsky (1995). Para o português, Barreto (2002) e Antunes (2002) aplicam essa classificação distinguindo diferentes tipos de argumentos, que se apresentam em i) a iv).
i) ARGUMENTOS VERDADEIROS: são os argumentos que têm realização sintática
obrigatória:
(8) *O João pôs. (9) *O João pôs o livro.
(10) O João pôs o livro na prateleira.
(Antunes 2002: 61)
ii) ARGUMENTOS POR DEFEITO: estão implícitos no verbo e, por isso, são
opcionais. Para Duarte e Brito (2003: 184-185) "designam argumentos que participam na descrição do significado da palavra predicativa":
(11) O João construiu uma casa com tijolos / de madeira. (12) O João construiu uma casa.
44 CAPÍTULO 2
iii) ARGUMENTOS SOMBRA43: estes argumentos semanticamente estão
incorporados no verbo mas podem ocorrer autonomamente. Vejam-se estes exemplos com o verbo pintar:
(13) O João pintou o quadro.
(14) *O João pintou o quadro com tinta. (15) O João pintou o quadro com tinta lavável.
(Antunes 2002: 62)
De acordo com Antunes (2002), uma vez que o verbo pintar já denota cobrir com tinta, a frase em (14) é redundante e precisa de mais especificação (como o argumento em (15)) para ser aceitável44.
iv) ADJUNTOS VERDADEIROS: são modificadores relacionados com a
interpretação de uma expressão e não de um item lexical específico45. A sua realização á também opcional, como se verifica nos exemplos:
(16) A Maria dormiu até tarde no domingo. (17) O Rui falou com o João no comboio.
(Antunes 2002: 63)
Um verbo como tecer em (18) apresenta um complemento direto (coisas de lã) que é um verdadeiro argumento, sendo marcado como 'T' com um complemento '[+SN]'. Por sua vez, o verbo ceifar em (19) tem dois argumentos: aveia (um verdadeiro argumento) e com a foice (um argumento por defeito que se encontra sublinhado em (19)), sendo portanto classificado como 'T2'.
(18) tecer v. I, T, T2 T
2. produzir (teia ou tecido). [SN/Acus]
Ele quando eu teço coisas de lã, a gente fazem ali, porque é mais depressa. A-MIG46 (19) ceifar v. T, I, T2
T2
3. cortar, colher cereais, segar.
43 Adota-se aqui a designação de Duarte e Brito (2003: 184). Os argumentos sombra, de acordo com
estas autoras, são também denominados de 'argumentos cognatos'.
44 Os exemplos apresentados em Duarte e Brito (2003: 185) são:
(i) Chovia uma chuva miudinha. (ii) A vítima chorou lágrimas de raiva. (iii) Dormimos um sono reparador.
(iv) Os guerreiros dançam uma dança frenética à volta de um totem.
45 Dado que os adjuntos verdadeiros não constituem nenhum tipo de argumento do verbo, eles nunca
são codificados no âmbito deste trabalho, considerando-se apenas os verdadeiros argumentos os argumentos por defeito e os argumentos sombra.
A INFORMAÇÃO SINTÁTICA NO GLODIP 45
[+SN] [com+SN]
Ó homem, e a gente há pouco tempo que se teve aveia que se ceifava com a foice. A-FLF38
Ainda que o complemento com a foice não seja um verdadeiro argumento, ele contribui para a significação do verbo naquela construção. O mesmo complemento seria incompatível, por exemplo, com o verbo queimar (cf. (20)). Este verbo, por sua vez, apresenta também um complemento que fornece mais informação para o seu significado, como se mostra em (21). O complemento de queimar, por estar ligado semanticamente a este verbo, não pode ser combinado com o verbo ceifar (cf. (22)):
(20) *Há algum tempo, era queimado aquele cabelo com a foice. (21) queimar v. T, INAC, INAC|T, I, T2
T2
11. destruir pelo fogo; fazer em cinzas; abrasar. [+SN] [com+SN]
Há algum tempo, era queimado aquele cabelo com carquejas. C-COV07
(22) *Ó homem, e a gente há pouco tempo que se teve aveia que se ceifava com carquejas.
São, portanto, estes complementos que semanticamente adicionam mais informação à construção verbal que são anotados no GloDiP.
Uma vez que os adjuntos verdadeiros não são marcados, um verbo como cozer em (23) é classificado como 'T' (na aceção 1), por exibir apenas um complemento (cada tabuleiro), e como 'T2' (na aceção 6), apresentando dois complementos: um nulo, mas recuperável no contexto (as meadas, marcado através do símbolo '[-]') e um argumento por defeito (com cinza e água), o complemento sublinhado em (23).
(23) cozer v. T, INAC, I, T2 T
1. preparar alimentos para serem consumidos, usando água (ou outro líquido) em ebulição. [+SN]
Cada tabuleiro que se lá ia cozer, pagava-se um pão. S-AAL18 T2
7. submeter (objeto) à ação do fogo. [+SN] [com+SN]
Coze-se ali as meadas que a gente quiser, cozem-se ali [-] com cinza e água. S-LUZ21
O verbo dormir em (24) recebe a etiqueta de 'T', uma vez que exibe um argumento sombra (o meu sono, que se encontra sublinhado em (24)):
(24) dormir v. I, T T
7. repousar no sono, estar entregue ao sono. [+SN]
E eu, uma ocasião, estava a dormir - a dormir o meu sono tão bem… N-VPA38
Quando um verbo tem obrigatoriamente um complemento locativo, ele é codificado apresentando-se a etiqueta secundária adequada. Veja-se o verbo amassar:
46 CAPÍTULO 2
(25) amassar v. T2, T, I T
3. transformar em massa ou pasta. [em+SN]
Portanto, antigamente amassava-se em alguidares de barro, em selhas de cedro. A-CDR28
No caso das passivas, consideram-se para efeitos de codificação os complementos da frase ativa correspondente. Seguem-se exemplos com os verbos ceifar e fiar:
(26) ceifar v. T, I, T2 T
1. cortar, colher cereais, segar. [+SN] <PRED>
Porque a fava é ceifada sempre verde - um bocadinho verde. S-SRP14 (27) fiar v. T, I, T2
T2
3. reduzir a fio. [+SN] [com+SN]
Os liços são fiados com linho bom, bom! N-OUT19 [+SN] [a+SN]
A lã de ovelha era tudo fiado à mão. C-VPC26
O verbo fiar na aceção 3 é classificado como 'T2'. Os exemplos de uso que ilustram essa aceção são construções passivas, as quais indicam que as ativas correspondentes têm dois complementos. São esses complementos que são codificados, mesmo quando o exemplo é uma frase passiva, o que implica a classificação do verbo como 'T2'.
No sistema de codificação do GloDiP, os sujeitos nunca são marcados, à exceção dos verbos impessoais. Veja-se o contraste entre (28) e (29) que ilustram exemplos com sujeito nulo e sujeito explícito, respetivamente, sem que as etiquetas principais e secundárias sejam alteradas:
(28) beber v. T, I T
1. ingerir líquidos. [+SN]
E se houvesse castanhas, até assavam castanhas e bebiam a pinga. N-OUT14 (29) ler v. T, I, T2
T
1. percorrer com a vista e conhecer (letras), reunindo estas em palavras. [+SN]
Eu tenho lido vários livros". S-ALV47
Se nos exemplos houver algum argumento interno lexicalmente nulo46 ele é marcado no próprio exemplo na posição mais canónica para a sua ocorrência. Neste caso,
46 Ao referirem os argumentos vazios, Peres e Móia (1995: 45-50) fazem a seguinte distinção:
(i) argumentos vazios ligados textualmente: "apesar de nulos, estes elementos têm um valor semântico e constituem argumentos das predicações em que ocorrem". (cf. Peres & Móia 1995: 47);
A INFORMAÇÃO SINTÁTICA NO GLODIP 47
procura-se sempre apresentar outras atestações em que esse argumento aparece realizado. Os verbos achar e ouvir servem aqui de ilustração:
(30) ouvir v. T, I, T2, DIT T
1. escutar, sentir (alguma coisa) por meio da audição. [+SN]
Estava a rezar o terço e ouvi assim uma coisa: N-PFT18; o homem, foi-o sempre a guiar, o cão – ouviste [-]? A-PIC04
(31) achar v. T, T.PRED, T2, DIT, MP T.PRED
6. considerar, julgar. [+SN] [+adj]
E depois a mulher vem de lá, mas a mulher achou logo a roupa assim muito coisa, muito… S- AJT29; Acho [-] muito engraçado. N-GIA30
Se para uma dada construção ou aceção só houver exemplos sem realização lexical do complemento verbal, esses exemplos são apresentados. A aceção 10 do verbo voltar é ilustrada apenas através de um exemplo que contém um complemento verbal sem realização lexical:
(32) voltar v. INAC, INAC|T, T, T2, INF, I T2
10. virar; dar uma volta a alguma coisa; remexer. [+SN] [de+SN]
E ata-se, voltam-se [-] do outro lado e atamos e enchemos. S-STJ03
O GloDiP codifica ainda um outro tipo de construção, as Unidades Multipalavras ('MP')47, em que o verbo ocorre em expressões lexicais formadas a partir dele. Sob esta designação são classificadas as construções de predicados complexos em que ocorrem os verbos leves do tipo <verbo + nome deverbal / nome psicológico> (cf.
a. argumentos subentendidos: necessitam de uma interpretação implícita bem definida:
(i) O Tiago pediu uma bola [ ].
b. argumentos anulados: não necessitam de um antecedente no discurso nem de uma interpretação implícita bem definida para serem interpretados. "O que acontece nestes casos é que a informação é sentida como completa, e a explicitação dos argumentos anulados, que é sempre possível, ou é irrelevante ou é omitida por estratégia comunicativa, que pode visar, por exemplo a formulação de asserções de carácter genérico". (cf. Peres & Móia 1995: 50)
(ii) A Joana deu os livros de estudo [ ]. A biblioteca empresta livros [ ].
Quem dá [ ] aos pobres empresta [ ] a Deus. Quem dá [ ] [ ] e tira [ ] [ ] ao Inferno vai parar.
Os argumentos vazios que são anotados neste trabalho são apenas os argumentos vazios ligados textualmente.
47 Do inglês Multiword Expression (MWE), adota-se a tradução presente, por exemplo, em Ranchhod
& Carvalho (2006). Para uma tipologia destas unidades em inglês, cf. Mel’cuk (1996), Viegas et al. (1998), Sag et al. (2002), entre outros; para o português, cf. Bacelar do Nascimento et al. (2006) e Ranchhod e Carvalho (2006).
48 CAPÍTULO 2
Duarte 2009; Gonçalves et al. 2009) e algumas frases fixas, como se exemplifica em (33) e (34) respetivamente:
(33) dar v. DIT, T, T2, T.PRED, T3, INF, IMP|T, IMP|T2, IMP, I, MP MP
dar ajuda a. 87. ajudar. [+SN]
Eles disseram que talvez me dessem uma ajudazinha, que eu tenho, para pagar o livro, tenho este tempo até ao fim do mês. S-LUZ20
dar a mama a. 88. amamentar. [+SN]
Eu fui pôr o tabuleiro ao forno e vim a correr dar-lhe a mama à rapariga. C-GRJ37; dar autorização a. 89. autorizar.
[+SN]
"Pois então eu não tinha que te dar autorização. A-STE16 dar banho. 90. banhar.
[a+SN/Dat]
Mas não deixava de não lhe dar o seu banhozinho de manhã - só adoçar o cuzinho -, pôr-lhe a sua fraldinha, e usava as suas calcinhas plásticas. A-PIC27
[com+SN]
Até há muita gente que dá banhos com água desta de malvas. C-VPC30 (34) morrer v. INAC, INAC|T, INAC|T2, MP
MP
a morrer. 7. enfraquecer.
Mas esses cantadores vão-se manter já mais a morrer … A-TRC34 estar morto por. 8. estar ansioso por.
[+SN]
E quando veio, ainda era por lhe eu dizer que estava mortinha cá por ele, eu e as minhas filhas. N-PFT21
morrer a rir. 9. rir muito.
Era de a gente morrer a rir, os três juntos! A-CRV49
Nas secções seguintes, apresenta-se a classificação de verbos usada no GloDiP de forma mais detalhada, a partir das etiquetas principais. As etiquetas secundárias são referidas à medida que são indicados os tipos de complementos de cada verbo.
2.1. Construção Impessoal – 'IMP'
Os verbos que ocorrem em construções impessoais recebem a etiqueta 'IMP'. São considerados nesta classe todos os verbos cuja grelha argumental não contém um argumento externo com função de sujeito. Os verbos calhar, dar e parecer ilustram essa construção nos exemplos que se seguem:
(35) calhar v. T, I, IMP, IMP|T, IMP|T2, MP IMP
11. acontecer em certo tempo, por acaso; coincidir.
Mas, um dia que calhe, depois a gente ainda lho pede. C-UNS12
(36) dar v. DIT, T, T2, T.PRED, T3, INF, IMP|T, IMP|T2, IMP, I, MP IMP
78. ser viável ou possível.
A INFORMAÇÃO SINTÁTICA NO GLODIP 49
(37) parecer v. IMP|T, IMP|T2, T, COP, IMP, T2, MP IMP
13. dar a impressão.
Era pontais, parece, que se chamava. S-MLD46
Também são codificados como impessoais os verbos que podem selecionar complementos. Nestes casos, a etiqueta 'IMP', que é uma etiqueta que classifica as construções quanto ao sujeito, é combinada com outra etiqueta principal, que informa sobre o tipo de complemento envolvido. A etiqueta 'IMP' é sempre a primeira e é separada da segunda por uma barra vertical, sem espaços. Veja-se 'IMP|T' em (38) e 'IMP|T2' em (39) e (40):
(38) correr v. I, T, T2, T3, IMP|T, MP
IMP|T <---- a etiqueta 'IMP' separada por barra vertical da outra etiqueta
[de+SN] <---- etiqueta secundária
13. passar, decorrer ( o tempo).
E depois aprendi, a correr do tempo, fui vendo e fui pensando-me em urdir e assim. N-FIS23 (39) lembrar v. IMP|T2, T
IMP|T2<☻> <---- a etiqueta 'IMP' separada por barra vertical da outra etiqueta
1.ocorrer, vir à memória.
[+Cl-Dat][de+INF] <---- etiquetas secundárias
Antigamente já me lembra a mim de fazerem isso. N-LAR0948
[+Cl-Dat][de+SN]
Mesmo a dizer o que eu ouvia, eu chorei tanto porque eu lembrou-me sempre do meu. A- CLH18
[+Cl-Dat][+SN]
Só me lembra um verso e lembra-me então o estribilho. S-CPT07
[+Cl-Dat][+QU-]
Já não me lembra quanto é que ganhava. A-CLH11
[+Cl-Dat][que+ind]
Lembra-lhe que eu estive a morrer com ela? C-GRJ33 [+Cl-Dat] [Ø]
E eu lembra-me assim: ó que esta gente não terá?… C-COV19
[+Cl-Dat][+INF]
Lembrou-me ser estevas. S-STJ55 (40) esquecer v. IMP|T2, T, I
IMP|T2 <☻> <---- a etiqueta 'IMP' separada por barra vertical da outra etiqueta
1. sair da lembrança.
[+Cl-Dat] [+SN] <---- etiquetas secundárias
Nunca me esqueceu esta. A-TRC53 [+SN] [+Cl-Dat]
Muitas coisas esquece-me. C-GRJ05 2. largar, deixar por descuido. [+Cl-Dat] [+SN]
ao ir-se embora, lá lhe esqueceu qualquer coisa: N-OUT15
O verbo correr em (38), além de impessoal, é também codificado como transitivo, uma vez que exibe um complemento oblíquo49 introduzido pela preposição de,
48O GloDiP não marca os casos de redobro de nenhuma forma. Assume-se que apenas o clítico é
complemento obrigatório e as etiquetas secundárias não codificam, portanto, o complemento dativo introduzido pela preposição.
50 CAPÍTULO 2
recebendo, por isso, a etiqueta secundária '[de+SN]'. Os verbos em (39) e (40) são classificados de 'T2' porque exibem dois complementos: um desses complementos é codificado através da etiqueta secundária '[+Cl-Dat], ou seja, é um experienciador que ocorre sob a forma de um pronome clítico dativo; a outra etiqueta secundária dá conta da natureza sintagmática do outro complemento, que pode ser: (i) '[de+INF]', quando se trata de um complemento oracional correspondente a uma oração infinitiva introduzida pela preposição de; (ii) '[de+SN]', para os casos de um complemento preposicional introduzido por de; (iii) '[+SN]', se o complemento é um sintagma nominal; (iv) '[+QU-]', quando o complemento é uma oração interrogativa indireta; (v) '[que+ind]' para os casos é selecionada uma oração completiva cujo verbo está no indicativo; (vi) '[Ø]', se o complemento verbal se encontra realizado sob a forma de uma oração independente; (vii) '[+INF]', nos exemplos em que há uma oração completiva não finita como complemento do verbo.
Vejam-se outros exemplos de verbos impessoais que exibem complemento, sendo-lhes atribuída a etiqueta 'IMP|INF', como em (41), ou 'IMP|T', nos exemplos (42) e (43), ou ainda 'IMP|T2' como em (44):
(41) costumar v. INF, IMP|INF IMP|INF
3.ter por hábito; acontecer ou ter lugar habitualmente. Isso costuma quase sempre é dar nos matos. A-MIG21 [+a]
Ele costuma sempre a ser por o dia 18 de Junho, ou dia 19. N-STA27 (42) chegar v. INAC, INAC|T, T, INF, T2, I, IMP|T2, GER, MP IMP|T2 <☻>
16. ser suficiente, bastar.
[+Cl-Dat][+SN]
"Ó mãe, para mim chega-me as gorjetinhas"! C-GRJ20
(43) dar v. DIT, T, T2, T.PRED, T3, INF, IMP|T, IMP|T2, IMP, I, MP IMP|T
75. ser suficiente para, bastar; servir. [para+inf]
As manhãs não dá para fazer o serviço para se poder caminhar; A-PIC08; e ter aquilo assim como este terreirito, onde mal dá para dar a volta. N-GIA26
(44) dar v. DIT, T, T2, T.PRED, T3, INF, IMP|T, IMP|T2, IMP, I, MP IMP|T2
76. ser vítima (psicológica ou física) de algum acontecimento. [+Cl-Dat] [+SN]
Há lá um lugar – que eu agora dá-me vontade de rir, assim certas coisas –, A-TRC67; Deu-me umas dores de cólica. C-UNS44; Eu dá-me muita pena, que isto é que é verdade. N-MIN07; E eu dá-me pena de ver aí as pessoas tristes, de ver o tempo que vai. S-AJT05
49 Adota-se o termo "oblíquo", seguindo Eliseu (2008: 53-54), para designar outros complementos, para
além do complemento direto e indireto. Os complementos oblíquos são sempre introduzidos por preposição.
A INFORMAÇÃO SINTÁTICA NO GLODIP 51
Estes verbos, que se caracterizam por indicar atitudes subjetivas ou por apresentar eventos ou estados, são denominados, em algumas tradições gramaticais, de verbos pseudo-impessoais50. Neste trabalho são anotadas como impessoais as construções em que o verbo está na terceira pessoa do singular e não há nenhum argumento externo com o qual o verbo estabelece concordância. Veja-se os diferentes tipos de construção para a mesma aceção do verbo lembrar: em (45), uma construção impessoal com dois complementos, não existindo nenhum argumento externo do verbo; em (46), há concordância entre o verbo e um argumento que é o sujeito. As construções são ambas transitivas:
(45) lembrar v. IMP|T2, T IMP|T2<☻>
1.ocorrer, vir à memória.
[+Cl-Dat][+SN]
Mas ainda há uns outros engenhos que eu me lembra de outros tempos, que têm uma roda muito grande. A-CLH07
(46) lembrar v. IMP|T2, T T <☻>
3.ocorrer, vir à memória. [+Cl-Dat]
Metade das coisas não me lembram! S-CPT49
Note-se, contudo, que nem todos os verbos presentes em estruturas que não apresentam concordância são tratados como impessoais. Veja-se seguidamente o casos dos verbos inacusativos que quando não apresentam marcas de concordância, mantêm a classificação de 'INAC' à qual é associada a etiqueta independente que se refere à flexão ('<flex>',cf. secção 3.4.)51.
50 Veja-se, por exemplo para o espanhol, Melis & Flores (2007) que estabelecem uma classificação
sintática e semântica deste tipo de verbos, reconhecendo três classes distintas: (i) verbos modais de sentido epistémico (como parecer e constar) e deôntico (incumbir e convir); (ii) verbos modais de afeição psíquica ou atitude afetiva (doer e, no caso do espanhol, gostar); (iii) verbos de existência, que incluem os verbos de estado (como bastar e sobrar) e os verbos dinâmicos de eventos (suceder e ocorrer).
Para a identificação destes verbos, estas autoras apontam três características fundamentais: a) possuem valores modais;
b) preferencialmente selecionam sujeitos não canónicos que ocorrem muitas vezes sob a forma de oração;
c) combinam-se frequentemente com um sujeito experienciador (dativo).
52 CAPÍTULO 2
2.2. Construções Inacusativas – 'INAC'
Sob esta classificação encontram-se os verbos que selecionam apenas um argumento interno que tem a função gramatical de sujeito (cf. Duarte 2003a: 300)52. São classificados com esta etiqueta verbos de mudança de estado devido a causa externa (como abrir, fechar, queimar e cozer, em (47)), verbos que denotam eventos com causa interna (como crescer, morrer, nascer, em (48)) e verbos de movimento (como chegar, entrar, sentar e cair, em (49)) (cf. Duarte 2003b: 514-520):
(47) cozer v. T, INAC, I, T2 INAC
4. preparar alimentos para serem consumidos, usando água (ou outro líquido) em ebulição. Porque o leite coze, aquilo põe-se ao coalho. S-SRP32
(48) nascer v. INAC, INAC|T INAC
1. germinar.
Depois nasce uma cepa. S-ALC15
(49) cair v. INAC, INAC|T, INAC|T2, COP, MP INAC
1. soltar-se do lugar onde estava preso, ligado, ou do ponto de inserção, da raiz, etc..
Com o vento, a bolota caía e a gente aproveitava todos os dias a bolota para dar aos porcos. S- EXB07
52 Nem sempre é clara a distinção entre verbos intransitivos e verbos inacusativos. Para a classificação
proposta no GloDiP, foram seguidos os testes sintáticos apresentados em Duarte (2003a: 300-301): I. Construção de particípio absoluto
O sujeito dos verbos inacusativos, por oposição ao dos verbos intransitivos, pode ocorrer nesta construção. Os exemplos são extraídos de Duarte (2003a: 300):
(i) *Trabalhado [o João] vs. [O João]SU trabalha intransitivo
(ii) Chegado [o João] vs. [O João]SU chegou inacusativo
Este teste permite também tirar algumas conclusões sobre o papel semântico do sujeito dos verbos inacusativos e intransitivos: sempre que um argumento tem o papel de Tema (como é o caso do sujeito do verbo inacusativo em (ii)), a construção de particípio absoluto é gramatical; se um argumento tem o papel de Agente (como é o caso do sujeito do verbo intransitivo em (i)), a construção de particípio absoluto não é possível.
II. Posição predicativa e atributiva
Apenas as formas participiais dos verbos inacusativos podem ocorrer nesta posição, em contraste com as dos verbos intransitivos:
(iii) O rapaz desmaiado é nosso amigo inacusativo (iv) *O rapaz rido é nosso amigo intransitivo
Além disso, a possibilidade de ocorrer em posição predicativa e atributiva parece estar ligada ao papel semântico do sujeito da ação: se ele for um Tema permite passivas com o verbo estar e o verbo é inacusativo (A rapariga está desmaiada / O livro está lido); se ele for um agente, o verbo é intransitivo e as passivas com estar não são possíveis (*A rapariga está rida vs. A rapariga ri).
III. Nominalização em –or
Os verbos intransitivos, ao contrários dos inacusativos, admitem a formação de um nome terminado em –or:
(v) *nascedor, *caidor, *desmaiador inacusativo (vi) corredor, trabalhador intransitivo
A INFORMAÇÃO SINTÁTICA NO GLODIP 53
Quando um verbo exibe alternância causativa53, a seguir à forma de citação aparecem as etiquetas 'INAC' e 'T' (cf. secção 2.4.). Veja-se, como exemplo, o verbo parar:
(50) parar v. INAC, INAC|T, INAC|T2, T, INF