Descrever um grupo de alunos partindo das suas interações e da sua relação com a leitura literária exigirá do investigador participação, observação e documentação pormenorizada da “vida” do grupo que assentará “numa descentração de nós próprios para entender o Outro no seu contexto e modo de ser e estar” (Vasconcelos, 2006: 87).
Refere ainda Vasconcelos, a propósito da investigação etnográfica, que “Ao investigador etnográfico interessa mais o processo – como é que? De que modo? Do que a quantificação da experiência.” Neste trabalho, a recolha de dados responderá a estas questões de forma indutiva valorizando o ponto de vista dos sujeitos em estudo, num diálogo contínuo entre o investigador e investigado tal como assinalam Bogdan e Biklen (1994: 51). Este tipo de estudo, situa-se assim, “numa teia de significados tecida através das interacções entre os sujeitos da investigação na sua busca de sentido para o mundo em que vivem” (Vasconcelos: 2006:88). Mais do que uma investigação “sobre”, trata- se, aqui, de uma investigação “com” este grupo de alunos, eles próprios atores na construção de conhecimento acerca de si próprios. Como investigadores, ouvimos, vimos, perguntámos, propusemos… e é o que documentámos que aqui apresentamos.
No século XXI, em que a mudança é uma constante, este “entendimento” que procuramos acerca do Outro é importante e tem de ser estudado segundo a perspetiva dos “sujeitos de investigação”, aprender com eles e promover alguma mudança, relativamente à leitura literária, a partir do grupo de alunos.
Foi necessário, assim, recolher informação, analisá-la e interpretá-la numa permanente negociação entre o que é observado e o que é interpretado pelo investigador. A técnica utilizada foi a observação participante, na qual o observador participante se usa a si próprio como “instrumento de investigação”, mantendo um registo detalhado de todas as suas observações através de um diário de campo. Neste diário, além das observações registadas adiantar-se-ão as decisões metodológicas que se forem tomando ao longo de todo o processo.
Segundo Carmo e Ferreira (2008: 123), é necessário ter especial cuidado na negociação, desenvolvida com a população-alvo, e ponderar seriamente sobre o papel
Visualidade e (re)criação do imaginário com Ana Saldanha: Experiência num Clube de Leitura
75 social que se propõe desempenhar”. Neste âmbito, o “papel social” desempenhado não pôde ser outro senão o de professora bibliotecária e esperamos não ter sido nunca identificável com um papel antipático ou temível. Antecipamos desde já que, apesar de tudo, temos consciência que, parafraseando os mesmos autores, alcançámos também um “horizonte limitado” que não nos permitiu “visibilizar” partes da realidade observada. Do mesmo modo, o envolvimento com o grupo observado teve alguma limitação que podemos analisar segundo o modelo de Johari60: quanto maior for o distanciamento do investigador, mais dificilmente acede à “área secreta” do observado. Isto é, a nossa distanciação não permitiu a observação de aspetos relacionados com os interesses, vivências e motivações do sujeito de investigação, exteriores ao contexto de Clube de Leitura. Por outro lado, registámos alguns benefícios: acedemos mais facilmente à “área cega” do observado embora não cheguemos a considerar-nos observadores exteriores. A “área cega” do observado é, afinal, aquela que nos interessa investigar: aquela que integra elementos que são conhecidos apenas pelo Outro.
Outros instrumentos que se consideraram foram o inquérito por questionário e a entrevista. Esta facilitou a completação dos dados recolhidos pela observação participante e realizou-se na forma de uma entrevista de grupo, nos moldes definidos por Bogdan e Biklen (1994:138): “As entrevistas de grupo podem ser úteis para transportar o investigador para o mundo dos sujeitos. (…) geralmente revela-se uma boa forma de obter novas ideias sobre temas a discutir em entrevistas individuais”. Aquele facilitou o conhecimento mais aprofundado do Outro, relativamente a hábitos de leitura.
Foram ainda recolhidos alguns dos documentos produzidos no âmbito do Clube de Leitura da BE (reais e virtuais). Para descrever todo o processo e realçar aquilo que de mais importante se verifica quando se enceta uma “observação participante” Vasconcelos (2006: 94) cita Freud, referindo que este tipo de observação consiste em: ”olhar as mesmas coisas vezes sem conta até que elas comecem a falar por si”. E não descurámos o processo de triangulação que, segundo a mesma autora (2006: 97-98), se efetiva com a “recolha dos mesmos dados por métodos diferenciados de modo que as imperfeições de um possam ser colmatadas pelas vantagens do outro”.
60
Luft, J. e Ingham, H. (1955), The Johari Window, a grafic model for interpersonal relations, Los Angeles, University of California, (UCLA), Western Training Laboratory for Group Development.
Visualidade e (re)criação do imaginário com Ana Saldanha: Experiência num Clube de Leitura
76 Através de um processo flexível, dinâmico e cíclico, recorrendo a métodos qualitativos e quantitativos diversos, pretendemos mudar o “núcleo” a partir do qual o conhecimento é normalmente produzido, assegurando uma análise mais exata e autêntica dos interesses e necessidades do público leitor juvenil.
Todo o processo envolveu, citando Vieira (2004:67), “a reflexão, a acção, novamente a reflexão, o refinamento da acção e o desencadear de uma nova acção, repetindo-se esta sequência tantas vezes quantas o conjunto formado pelo investigador externo e pelos participantes considerar necessárias para a prossecução das metas que, colectivamente, se propuseram alcançar.”
Não esquecendo a natureza cíclica de todo o processo, o plano de investigação constou essencialmente de quatro fases (Vieira: 68-70): a) Identificação do problema, b) Inventariação dos recursos e planeamento da ação; c) Utilização dos resultados – desencadear de ações; d) Reavaliação/reflexão. No que diz respeito à identificação do problema que, neste caso, foi definido pelo investigador, os alunos participantes da investigação foram informados da importância da sua resolução logo no início da investigação; relativamente à inventariação de recursos e planeamento da ação, foram utilizados os recursos habituais da Biblioteca Escolar, tendo-se facilitado ainda a interação entre os elementos do clube pela criação de um espaço virtual (que funcionou também como portal de recolha de dados, acessíveis a todos os elementos em estudo); o desenvolvimento das atividades definidas - participação no clube de leitura da Biblioteca Escolar (real e virtual) foi acompanhado de uma reflexão contínua, mais à frente registada no “diário de campo”.
Essas reflexões poderão dar lugar a ações concertadas entre todos os elementos com vista à aplicação subsequente da “experiência vivida” a outros sujeitos, de forma mais alargada.
Visualidade e (re)criação do imaginário com Ana Saldanha: Experiência num Clube de Leitura
77