A partir dos memoriais apresento uma síntese da trajetória de vida de cada uma das professoras participantes da pesquisa, elegendo “momentos charneiras”12 nos projetos biográficos individualmente. O memorial torna-se um suporte narrativo das histórias de vida de cada uma das professoras para compreender os sentidos do corpo teórico, dos sentidos guardados nas falas emitidas no grupo focal: a ideologia, o contexto sócio-cultural, a forma como se percebem e se relacionam com o mundo e como se percebem na profissão.
Em minhas leituras, em minhas idas e vindas, dei uma volta lá em meados do século 300 depois de Cristo e encontrei nas já mencionadas Confissões de Santo Agostinho um dos primeiros textos memorialísticos registrados na historia. Permeado de conflitos existenciais e sob os preceitos cristãos a escrita se delineia abordando uma teoria da graça e da predestinação, num texto escrito na primeira pessoa, ora dialogando com Deus, ora com o leitor, ou emergindo em reflexões numa conversa íntima com ele mesmo, dissertando sobre a memória especificamente nos Livros X e XI.
Foucault (1992) também me diz em seu texto “a escrita de si” que essa é uma prática remota na cultura greco-romana nos primeiros anos do império, e apresenta
um texto de Atanásio, a Vita Antonii, como um dos mais antigos textos da literatura
cristã, escrito num período próximo à publicação das Confissões de Santo
12
Josso (2004) define o “momento charneira” como momento da narrativa portador de um poder de mudança no projeto biográfico do indivíduo, nessa compreensão o presente está sempre prenhe de “momentos charneiras” que experienciamos no passado.
Agostinho. A Vita Antonii, contudo, pretende instruir os seguidores cristãos a usar a escrita para substituir o olhar dos companheiros “enrubescendo tanto para escrever, como para serem vistos” (FOUCAULT, 1992, p. 144). A escrita de si aparece para atenuar uma solidão e para resguardar do pecado. A cultura filosófica da escrita de si como companhia e ampliação do pensamento, ainda segundo Foucault (1992) já se encontrava disseminada mesmo antes de Cristo através dos escritos de Sêneca, Plutarco e Marco Aurélio.
Conforme Lejeune (apud PASSEGGI, 2001) o memorial de formação, enquanto gênero textual surge do desmembramento de um paradigma nas ciências sociais e humanas que, nos movimentos de pesquisas realizadas na França toma as histórias de vida como “um fragmento do mundo sócio-histórico” por volta das décadas de 1970 e 1980. Na área de Educação, a narrativa de vida, dentro do mesmo movimento, foi adotada como um processo de mediação, colocando-o a serviço daquele que narra, e tendo como fim a tomada de consciência do sujeito do seu processo de formação.
Diante do reconhecimento paulatino dos professores como protagonistas de mudanças significativas na educação e da perspectiva da formação de professores reflexivos, bem como a discussão sobre a formação do adulto, o memorial de formação como instrumento a serviço da formação dos professores tem sido gradualmente utilizado nas instituições de ensino superior, tornando públicas experiências, opiniões, angústias, inquietações e a própria vida dos professores, dando status de texto ao que é dito cotidianamente nos corredores das escolas.
O ato de ler esses textos é uma busca por compreensão de novos significados que estão entre a forma como o sujeito narra, sua literalidade, e o fato narrado. Na compreensão dos dados, diante dos memoriais assumo duas posturas específicas e investigativas de leitura dos memoriais, o primeiro movimento é a busca pelo fio epistemológico instaurado nas memórias eleitas, os saberes que delas emergem, certa que “um dos desafios da abordagem biográfica é, pois, uma prática epistemológica do sujeito cognoscitivo que sirva de referência prévia a toda e
qualquer aprendizagem intelectual” (JOSSO, 2004, p. 121). Esse primeiro movimento torna a pesquisa formativa, possibilitando reunir saberes em cada participante, não só no texto tecido pela compreensão a partir dos dados da pesquisa. O segundo movimento é de assumir a curiosidade da pesquisadora que quer compreender o percurso formativo plantado nas experiências que moveram cada uma no projeto biográfico.
A postura dessa experiência de leitura com necessária abrangência “parece exigir mais criticidade por parte de quem executa. Ao invés de me “chegar como uma visita”, a fruição de uma obra literária, científica ou informativa é função de uma busca de novos significados” (SILVA, 1988, p.35-36) que estão além das palavras ditas, mas como elas brotam no texto, que imagens, sensações e saberes remetem.
Assim a existência do texto é coberta de sentidos que estão invisíveis até que seja lido. O sentido é silenciado, até ato da leitura. Somente quando a compreensão do leitor faz contato com o escrito é que o texto ganha vida e movimento, o destino da escrita está fadado aos caminhos tomados pelas referências que o leitor leva consigo. O corpo multifacetado que abarca o texto narrado do memorial formativo o torna um gênero literário, científico e informativo. E a leitura deste exige a compreensão de que,
Enquanto leitores não temos o direito de esperar, muito menos de exigir, que os escritores façam sua tarefa, a de escrever, e quase a nossa, a de compreender o escrito, explicitando-a passo a passo [...] A compreensão do que está lendo, estudando, não estala assim, de repente como se fosse um milagre. A compreensão é trabalhada, é forjada, por quem lê [...] Por isso mesmo, ler [...] é um trabalho paciente, desafiador, persistente. (FREIRE, 1995, p.46)
A leitura do memorial é o movimento de tecer algumas compreensões determinantes. Compreender que há uma memória selecionada e é essa seleção que determina a linha do tempo e não a linearidade temporal histórica socialmente estabelecida; me deparar no texto com o particular e o coletivo, onde a história contada pelo indivíduo
está dentro de um contexto macro; compreender que as intenções do narrador são vestidas por suas concepções teóricas, seus ideais políticos, seus desejos e crenças; conceber o memorial como o contexto da tessitura hermenêutica pois “nenhuma história tem interpretação única, seus significados são múltiplos – não existe um procedimento racional para determinar se uma interpretação é única e possível” (SOLIGO e PRADO, 2005, p 49).