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Dans le document Visage des sans-papiers en Suisse. (Page 73-78)

Je paie des impôts comme tout le monde et je n’ai plus peur.»

7 Champs de tensions et domaines importants

7.4 autres domaines

107 BOURDIEU, O poder..., p. 71-2. 108 BOURDIEU, O poder..., p. 73. 109 BOURDIEU, O poder..., p. 70. 110 BOURDIEU, O poder..., p. 31.

A construção do objeto científico, como abaixo melhor será explicitado,111 é um trabalho ingente, realizado vagarosamente, paulatinamente, mas solidamente, através de retoques, correções, emendas, enfim, sugestões essas que emergem do ofício de pesquisador, ofício esse que se constitui no conjunto de princípios práticos que orientam opções minúsculas, quase imperceptíveis – muitas vezes discussões sobre aspectos aparentemente ínfimos e insignificantes sobre pormenores –, mas decisivas para a pesquisa e formação do pesquisador.112

A atenção aos pormenores do procedimento da pesquisa é importante, uma vez que há uma dimensão social – público alvo da pesquisa, procedimento de abordagem desse público, forma de inserção no meio a ser estudado – presente e atuando – influindo – nesse ato, e que acaba por colocar o pesquisador em alerta contra o fetichismo dos conceitos e teorias, e da propensão de considerar os instrumentos teóricos que utilizará – habitus, campo, capital etc. – como fechados e importantes em si mesmos, em vez de os colocar em ação, vale dizer, fazê- los funcionar. Deve ser a noção de campo – e de todas as suas implicações, conforme acima visto, como construtor de objetos de pesquisa – que irá comandar ou orientar as opções práticas da pesquisa; “funciona como um sinal que lembra o que há que fazer, a saber, verificar que o objecto em questão não está isolado de um conjunto de relações de que retira o essencial das suas propriedades”. O mundo social, assim, é e deve ser pensado de forma relacional – pensar relacionalmente – escapando de uma forma de pensamento considerada realista e substancialista113 dada pela tradição intelectual. O real é relacional.114

O modo de pensamento relacional ou estrutural, como o que caracteriza a matemática ou a física moderna, tem a propriedade de não identificar o real com as substâncias ou materialidades mais visíveis como se apresentam as coisas, mas, diferentemente, identifica o real com as relações a que se encontram submetidas as coisas, relações essas que acabam dando o sentido e significado existencial das mesmas. Por este ponto de vista, a “realidade social”, da forma que sempre foi descrita pela sociologia objetivista – como a de Durkheim e Marx –, passa a ser vista de outra maneira, vale dizer, é agora formada por uma série de relações invisíveis, exatamente aquelas que constituem um espaço de posições sociais, onde cada uma das posições é exterior em relação às outras posições, bem como definidas pelas distâncias relativas que elas mantém entre si. Trata-se de uma realidade extraída do realismo

111 Vide item 1.1.5.

112 BOURDIEU, O poder..., p. 26-7.

113 A filosofia substancialista, no sentido que Cassirer deu ao termo, quer designar o pensamento que somente reconhece a realidade que venha e se encontre diretamente oferecida à intuição da experiência ordinária. In: BOURDIEU, Poder, derecho..., p. 104.

da relação, ou seja, o real – agora – é o que se obtém do relacional; a realidade não é senão a estrutura social, como um conjunto de relações constantes que são muitas vezes invisíveis, porque estão obscurecidas pela realidade das experiências sensitivas e ordinárias e, particularmente, pelos próprios indivíduos em seu modo de enxergar o mundo, os quais se encontram presos ao realismo substancialista.115

A tradição erudita marcou e fixou o real através do que pode ser visto claramente – grupos, indivíduos, instituições etc. – e passou a refletir sobre elas em termos de substâncias em si, com propriedades e elementos singulares e específicos – ônticos – extraídos de si mesmos. Pensar em tais realidades é mais fácil que pensar em relações, assim como é mais fácil pensar as diferenciações e os antagonismos presentes na sociedade em forma de grupos de populações, definidos como classes, do que em forma de um espaço de relações sociais. A tradição erudita, desta forma, procura construir seus objetos de pesquisa por serem realidades notadas imediatamente, adotando, por exemplo, uma divisão de população mais ou menos delimitada arbitrariamente, ou categorias pré-constituídas – mães solteiras de um dado gueto, jovens, velhos, imigrantes etc. –, sem analisar o por quê é que eles tomam por objeto tais objetos – quais as causas e razões sociais por que eles concebem e constroem assim os objetos de seu estudo –, ou, por outras palavras, porque eles não tomam por verdadeiro objeto de estudo e pesquisa, esse trabalho social tradicional – em permanente reprodução já de forma naturalizada – de construção de objetos pré-constituídos. Aqui haveria uma ruptura epistemológica fecunda teoricamente.116

Também a tradição erudita formula questões para serem respondidas pelo mundo social, mas que deveriam ser melhor refletidas, enfim, se a resposta encontrada efetivamente revelaria a verdade procurada pela indagação. Por exemplo, a questão do poder é sempre uma indagação quanto à localização dele em termos substancialistas e realistas, qual seja, onde ele está e quem o detém e o exerce, ele vem de cima ou ele vem de baixo etc. Para escapar a essas alternativas vinculadas a um modo de pensamento realista e substancialista, é possível pensar a existência num dado espaço social de um campo de poder, com uma classe dominante – população verdadeiramente real de detentores da realidade tangível que se chama poder –, onde esse campo seria definido como as “relações de forças entre posições sociais que garantem aos seus ocupantes um quantum suficiente de força social – ou de capital – de modo que estes tenham a possibilidade de entrar nas lutas pelo monopólio do poder, entre as quais

115 BOURDIEU, Poder, derecho..., p. 104-5. 116 BOURDIEU, O poder..., p. 28.

possuem uma dimensão capital as que têm por finalidade a definição da forma legítima de poder”.117

A análise relacional impõe dificuldades, e uma delas é que, se não for feito um trabalho intelectual de definição e distribuição de propriedades entre os indivíduos, fica praticamente impossível apreender os espaços sociais; assinale-se que a informação acessível é associada a indivíduos. Ora, isso obriga, em todos os tempos e épocas – conforme diferentes contextos –, bem como espaços, ao pesquisador definir e atribuir as propriedades dos indivíduos que pertencem ao campo objeto de estudo para, somente a partir daí, extrair todas as conseqüências passíveis de serem demonstradas e verificadas, explicações que revelam a verdade e funcionamento de um objeto de estudo social. Por isso, Pierre Bourdieu compreende necessário interrogar os duzentos maiores e mais importantes executivos franceses para apreender e compreender, em um âmbito de completude maior, relacionalmente, o sub-campo econômico e como ele se reproduz socialmente e economicamente – suas práticas, opções, omissões, racionalidade etc.118

Um instrumento de construção de objetos de efeitos práticos muito úteis, utensílio – ferramental, instrumento – de um pesquisador que tem a faculdade de obrigar, durante o seu levantamento e após sua conclusão, uma forma de estimulação ao pensar relacional das unidades sociais que ele compara, com suas respectivas propriedades, é o Quadro de

Caracteres Pertinentes de um Conjunto de Agentes ou de Instituições. Por ele, por exemplo,

se se deseja fazer uma análise de diversos estabelecimentos de ensino, “inscreve-se cada uma das instituições em uma linha e abre-se uma coluna sempre que se descobre uma propriedade necessária para caracterizar uma delas, o que obriga a pôr a interrogação sobre a presença ou a ausência dessa propriedade em todas as outras (...); depois fazem-se desaparecer as repetições e reúnem-se as colunas que registram características estrutural ou funcionalmente equivalentes, de maneira a reter todas as características – e essas somente – que permitem descriminar de modo mais ou menos rigoroso as diferentes instituições, as quais são, por isso mesmo, pertinentes”.119

É por via de um trabalho de construção dessa qualidade – trabalho meticuloso, feito por aproximações, e que necessita paciência e atenção – que se constroem espaços sociais que vão se revelando paulatinamente de forma original, pois embora os dados ofereçam formas de relações objetivas muito abstratas, são, ao final, “o que constitui toda a realidade do mundo

117 BOURDIEU, O poder..., p. 28-9. 118 BOURDIEU, O poder..., p. 29. 119 BOURDIEU, O poder..., p. 29.

social”. Fora das relações com o todo, por exemplo, uma instituição nada é. Além disso, a propósito da consistência dos resultados obtidos relacionalmente, não se pode esquecer que fazer ciência é também “evitar as aparências da cientificidade, contradizer mesmo as normas em vigor e desafiar os critérios correntes do rigor científico (...). A verdadeira ciência, na maior parte das vezes, tem má aparência e, para fazer avançar a ciência, é preciso, (...) correr o risco de não se ter todos os sinais exteriores de cientificidade”. Fora das relações com o todo, por exemplo, já foi ressaltado que uma instituição nada é.120

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