Structure et évolution physico-chimique de la pâte de ciment IV.3
IV.4 Domaines d’application des ciments
CORPUS: PEIXOTO, Afrânio. Maria Bonita. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.
7.9.1 Síntese da narrativa
―Maria Bonita! Foi o nome que lhe deram, para traduzir, em palavras, a admiração feliz que todos sentiam, ao vê-la. Como não há uma só Maria no mundo, para distingui-la de outras da terra, a formosura do seu rosto e da sua presença fez ao povo, rude na sinceridade, conferindo-lhe esse apelido, pelo qual era conhecida em toda a redondeza‖. (PEIXOTO, s/d, p. 13)
Assim é contada a história da Maria Bonita, personagem do romance homônimo de Afrânio Peixoto. Maria era tida por todos como uma moça muito bonita, bem mais do que todas as moças da cidadezinha onde vivia. Mas sua beleza, como tudo que vem além do limite, não lhe trazia só felicidades. Trazia-lhe também sofrimentos. E a cobiça de todos era a principal razão desse sofrimento. Seu rosto lindo chamava a atenção de todos e os arrastava para a desgraça.
Segundo a mãe, Maria puxara ao pai, André. E isto não era elogioso. Mas a mãe se orgulhava da filha: era educada, tinha prendas, adquirira maneiras. Qualquer dia desses apareceria um moço fino para tornar-se esposo de Maria, era o que todos desejavam.
19. Todas as considerações feita no íten 7.9 são fundamentadas na seguinte obra: PEIXOTO, A. Maria Bonita. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.
172 Maria fora criada na casa do patrão do seu pai, o coronel Joaquim Pedro, dono da Fazenda Boa Vista e de muitas terras de cacau no município de Canavieiras, na Bahia. Ali surgiu uma amizade entre ela e Luís, filho do coronel, a quem era reservado um futuro promissor.
Certo dia o promotor de Canavieiras vai visitar o coronel Joaquim Pedro, pois tencionava casar-se com a filha deste, conhecida com Pequenina. Foi recebido por todos. Soltaram foguetes, os sinos da igreja badalaram de longe. Na fazendo do coronel tudo era alegria.
―O doutor promotor, um mocinho miúdo, de pele sardenta e lunetas grossas de míope, bigodinho negro enristado e falar sibilante, muito pálido, respondeu, gaguejando a princípio, num grande silêncio que fizeram para o ouvir, que ―não se esqueceria jamais da manifestação espontânea recebida naquele instante solene e que o punha em comunhão com o povo, os servos da gleba, na frase dos clássicos, pelo intermédio de um dos seus representantes mais eloqüentes, devorado pelo fogo santo da justiça. Repetia em agradecimento a frase do imortal Victor Hugo: há momentos na vida, em que, qualquer que seja a posição do corpo, a alma está de joelhos‖ (PEIXOTO, s/d, p. 33).
Apesar de estar em visita para estreitar os laços com a filha do coronel, o promotor engraçou-se com a Maria Bonita, a quem dá mais atenção do que à sua futura noiva. E nesta mesma festa, o filho mais velho do coronel, Diogo, tenta conquistar a moça, mas ela o repele. O rapaz, contudo, jura vingar-se. Contrariado nos seus instintos, certa vez Diogo, acompanhado de outros rapazes, planeja raptar Maria, mas é recebido à bala pelo irmão dela, que a defende do ultraje. Mas o irmão de Maria tem que fugir para não ser preso.
O caso estoura na fazenda do coronel. Diogo fôra ferido na perna, tivera de se arrastar até a beira do rio, onde fôra abandonado pelos companheiros, pessoas mais simples do que ele, que o incentivavam nas arruaças. A história de que Diogo havia ido raptar a moça, aproveitando-se de que o pai e o irmão dela não estavam em casa logo se propagou. Mas ao contrário do que ele esperava, fora recebido por uma descarga de balas e ficara ferido gravemente. Mas os poderosos não viam mal naquela atitude e queriam justiça. Aos poucos, maldavam a família de Maria, que era de retirantes de longe. E a culpa seria de Maria, que certamente se engraçara com o moço, mas na hora, se fazia de rogada.
173 Dona Mariana, mãe de Diogo, toma as dores do filho e se indispõe com os agregados. Mas Luís, irmão, não aceitara a decisão da mãe. Ele já nutria, nesta altura, uma paixão por Maria Bonita e recriminava a atitude do irmão Diogo. Luís tencionava casar-se com a moça, para reabilitá-la perante a sociedade. Vendo esta disposição do filho, o coronel manda-o estudar em Salvador, e ele sai se sequer se despedir de sua amada.
A mãe de Maria morre pouco depois, o pai torna-se alcoólatra e ela, abandonada por Luis, se envolve com João, que a amava, respeitava e lutava com quem quer que fosse para protegê-la e para fazê-la feliz, e com ele se casa.
Os anos se passaram. Luís, agora formado e famoso, retorna à Boa Vista:
―Entretanto a sua chegada, de doutor da terra e formado, filho dos poderosos senhores da Boa Vista, despertava pelo vale do rio Pardo sério interesse e profunda curiosidade. Os que não vieram às festas de recepção chegaram, mais dia, menos dia – velhos, rapazes, senhoras ou meninas, para vê-lo, como se não o conhecessem, tivesse mudado, ou virasse bicho raro‖. (PEIXOTO, s/d, p. 71)
Mas agora Maria Bonita já morava com o marido, o pai invalidado pela bebida, e tinha um filho. Viviam numa casinha afastada da cidade. Luís, visitando os lugares de sua infância, reacende sua paixão por Maria Bonita. E começa a assediá-la, sem sucesso.
―- Você por aqui?
- Não achei outro meio de vê-la... Vim do cemitério. - E desde quando está aí?
- Muito antes de você chegar...Passou tão alheia e ocupada, que não me viu. Se eu fosse cobra estava mordida.
Dizia estas frases num tom risonho, para disfarçar a comoção. - Podia eu imaginar isso?‖ (PEIXOTO, s/d, p. 90).
João pressente o perigo da aproximação de Luis, o filho do coronel Joaquim Pedro. Luís a assedia, mas Maria Bonita o repele por várias vezes. João tenciona mesmo mudar para longe, mas percebe que Maria tem uma conduta digna, honrada, de esposa fiel e correta. Uma noite, Luís rondava a casa de Maria Bonita e foi rechaçado por João, que saiu armado em defesa da esposa.
Na novena de Nossa Senhora que se realizava nesta mesma noite, durante um leilão, um lenço bordado por Maria foi posto à venda. Luís quis arrematá-lo, mas João disputava com ele.
174 ―- É o presente de Maria.
- Que Maria?
- Maria do João... Maria Bonita.
- Lulu teve um sobressalto, ouvindo-o. Continuou atento. Prosseguia a informação. - Levou três meses a bordar... É uma perfeição... Também só pra santo... A gente teria dor de consciência se assoasse num lenço daqueles...
- Dez mil-réis, dês mil-réis.... Ninguém mais dá? Vai ser arrematado por dez mil-réis o lindo lenço de crivo de Nossa Senhora... Dou-lhe uma, dou-lhe duas...
Não se pôde Luís ter em si: lançou sem refletir: - Vinte mil-réis!
Houve um movimento geral de curiosidade. Dobrar a parada, nestas circunstâncias, já chamava a atenção. Circulara logo quem tinha sido a doadora da prenda e, conhecido o licitante, olharam-se, maliciosos, os que se avizinhavam.‖ (PEIXOTO, s/d, p. 103).
João, homem pobre, não conseguiu vencer o filho do coronel rico, que lhe levou o lenço da esposa. Engoliu a raiva, guardou as mágoas, recolheu o ressentimento e a vergonha. Encontrando Luís numa estrada, mata o rapaz, foge, mas é preso. Maria fica sozinha com o filho.
Ela, então, sozinha, sem marido, sem família, desesperada, arranha o rosto com as próprias mãos, para estragar aquela beleza que só lhe trouxe sofrimento, tristeza e dor. Uma beleza fatal.
―[Maria] Entrou em casa, numa imensa aflição, que resumia todas as de sua vida dolorosa. Os olhos secaram, e ardentes, e vários, tinham um aspecto sinistro. Embora sem culpa, era a causa de tudo. Por quê? ... E com as mãos em garra, num desespero, arranhou o rosto formoso, culpa de tanta desgraça, causa de todo o mal...‖ (PEIXOTO, s/d, p. 108).
7.9.2 Análise Literária
Maria Bonita, de Afrânio Peixoto, foi publicado em 1914. A ação do romance passa no
agreste baiano. A protagonista é uma mulher sertaneja, filha de agregados e de rara beleza. Seu rosto formoso ascendia a paixão nos homens e os tornavam seres atávicos, movidos pelos instintos mais primários. Moça inocente, alheia à maldade humana, não entendia porque todos se transmutavam diante dela, e menos ainda, porque a perseguiam, quando ela só desejava viver em paz com seu marido e seu filho.
Afrânio Peixoto era médico e escritor. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras e é tido como um grande romancista. Conhecedor profundo do ambiente sertanejo de sua
175 decantada Bahia, dele se serviu para dar amplo colorido a três de seus romances: Maria
Bonita (1914), Fruta do Mato (1920) e Bugrinha (1922).
Maria Bonita, sua obra mais relevante, situa-se na confluência do realismo com o simbolismo, notadamente pelas descrições impressionistas que apresenta. Há uma intensa descrição da paisagem agreste do sertão baiano, no qual vivem seres embrutecidos pelo lugar. Maria, embora viva aí, ainda não está de todo tomada pela brutalidade do sertão, ainda é uma moça doce e amável, além de intensamente bonita.
O romance de Afrânio Peixoto dá início a um grande ciclo da literatura brasileira, o ciclo do cacau, que depois terá continuidade com a obra de Jorge Amado e Adonias Filho. A obra esmera-se na fixação dos tipos do interior, na caracterização da religiosidade dessa gente, dos seus festejos, dos valores e desvalores desses homens. O sertão descrito no romance ainda é patriarcal e feudal, no qual quem tem o poder econômico tem também todos os outros poderes. Na história de Maria Bonita tudo se mistura: a rusticidade e a delicadeza, o amor e o ódio, a ternura e a paixão, a fé e a superstição, a clemência e a maldade, num emaranhado extraordinário.
Maria Bonita é a típica heroína do sertão: autêntica, destemida, de uma beleza estonteante e trágica, especialmente para ela mesma, vítima de seu viço, de seu colorido, de sua tez. A adoração dos seus admiradores arrastavam-na sempre para as tragédias, até que João casa-se com ela e passa a protegê-la, consequentemente, lhe proporcionando uma vida mais tranqüila e feliz. Entretanto, tal tranqüilidade foi temporária em sua vida. Moça típica do sertão, bonita e simples, atraía para si os desejos e preconceitos de um sociedade que ainda não respeitava nem direitos, nem o corpo da mulher, julgando-se sempre detentora do poder de violentar ambos.
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