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Quelle doit être demain l’empreinte militaire française en Afrique ?

Dans le document RAPPORT D´INFORMATION (Page 120-132)

D. UNE RÉPONSE NÉCESSAIREMENT RÉGIONALE QUI DOIT S’ARTICULER

V. LES CONSÉQUENCES À TIRER POUR NOTRE POLITIQUE DE DÉFENSE

3. Quelle doit être demain l’empreinte militaire française en Afrique ?

O papel da heurística está em, ao prever a deformação do homem futuro a partir da situação atual, auxiliar na compreensão de quais valores e características devem ser preservados, os quais, em caso de não se fazerem presentes na constituição do homem no futuro, afetariam sua existência de forma a pôr em risco a sua vida ou a perpetuação daquilo que se compreende por uma autêntica vida humana. Põe-se, portanto, na perspectiva de um resguardo cauteloso onde, como lembra Oliveira (2014, p. 130), deve-se ter claro “o que se deve esperar, o que se deve incentivar e o que se deve evitar frente ao que se deve esperar”. Essa ameaça à imagem humana não possui analogias na experiência do passado e/ou do presente, tendo que ser representada de forma intencional. Assim como se reconhece o valor da vida porque se sabe da morte e se reconhece o valor da verdade porque se sabe da mentira, deve-se reconhecer a necessidade de preservar autênticas condições de vida em virtude da previsão de uma deformação do homem. A heurística contribui para viabilizar o dever ético de priorizar a possibilidade de consequências negativas decorrentes de ações presentes, orientado a ação humana em vista de não efetivá-las, pois, não se pode ariscar ou pôr em jogo a vida, a existência futura. Trata-se de, por excelência, reconhecer e exercer a alteridade, o que “exige de nós o sentimento respeitoso e o sentido do ser-com-os-outros” (FONSÊCA, 2009, p. 53).

Pensar as consequências tem sido desde sempre parte da ação planejadora, que tem a escolha entre altentativas, mas a margem de previsão era curta, em consonância com a proximidade dos objetivos ao alcance de nosso poder; [...] isto é precisamente o que mudou de forma radical. A magnitude causal dos empreendimentos humanos cresceu incomensuravelmente sob o signo da técnica; a perda do processo se tornou a regra e a analogia com a experiência anterior deixou de ser eficiente [...]. (TME, 74).

Efeitos a longo prazo, ainda que calculáveis, tornam-se cada vez mais imprevisíveis. Mobilizar-se, pelo temor, frente ao medo, é dar-se conta de que a salvação ou a desgraça (destruição das condições de vida) pela técnica moderna decorrem de uma deliberada vivência humana. A representação da perda de algo ou a própria perda resulta em uma valorização do mesmo. Da mesma forma, a constatação de uma ameaça à perpetuação de uma autêntica vida humana, ou seja, a mera representação da aniquilação da vida, auxiliaria a busca por uma ética da responsabilidade, pois, seria essa representação capaz de gerar um sentimento de valorização. O saber e, nesse caso, a ética, originam-se daquilo do qual há que se proteger. Pela heurística do temor, Jonas visualiza uma possibilidade de que um mal imaginado, como a inviabilização da vida, possua um sentido de mal experimentado. Afirma Jonas:

Precisamos da ameaça à imagem humana – e de tipos de ameaça bem determinados – para, com o pavor gerado, afirmarmos uma imagem humana autêntica. [...] o reconhecimento do malum é infinitamente mais fácil do que o do bonum; é mais imediato, mais urgente, bem menos exposto à diferença de opinião; acima de tudo ele não é procurado: o mal nos impõe a sua simples presença, enquanto o bem pode ficar discretamente ali e continuar desconhecido, destituído de reflexão (esta pode exigir uma razão especial). Não duvidamos do mal quando com ele nos deparamos; mas só temos certeza do bem, no mais das vezes quando dele nos desviamos. O que nós não queremos, sabemos muito antes do que aquilo que queremos. (PR, 70-71).

Qual a credibilidade de a possibilidade de um mal futuro e proveniente da imaginação possuir prevalência nas tomadas de decisões sobre as ações presentes? O temor heurístico de Jonas defende a prioridade ao mal (ainda que hipotético) porque a dignidade e o valor da vida não permitem jogar com sua autenticidade. “[...] embora se possa duvidar da imaginação, como critério a serviço da ciência é preferível estar errado quanto ao que foi imaginado, do que ameaçar a autenticidade da vida” (SGANZERLA, 2012, p. 227). Privilegiar o prognóstico negativo decorrente do esforço heurístico é a possibilidade de viabilizar uma antecipação à ocorrência efetiva e real do mal imaginado, defendendo o frágil e o vulnerável. É um recurso ao critério do in dubio pro malo. O método do temor heurístico não poderá antecipar todos os impactos e a completude das consequências da ação humana presente. No entanto, sensibiliza e põe a humanidade em alerta diante de seu potencial de ação e, ao mesmo tempo, diante de sua impotência de controlar os efeitos decorrentes de sua ação. De nada adianta uma antecipação precisa, exata dos efeitos da ação humana, se a humanidade se mostrar indiferente a tais constatações (FONSÊCA, 2009, p. 52ss). Por isso, a heurística precisa do temor e o temor da heurística, para que as previsões possam, estando sensibilizada a humanidade, motivar e desmotivar incursões humanas.

Aqui retorna e se pode melhor compreender o elemento-chave constituidor desta heurística: segundo Jonas, o conhecimento ético deve ter sua origem naquilo que devemos proteger e, por isso, o temor deve ser posto antes do desejo. O temor possui uma imagem pouco cativante e Jonas reconhece que porta, quando equiparado ao medo, uma má reputação psicológica e moral em muitas matrizes do pensamento. Contudo, assume-o e defende-o por considerar que “ele é hoje mais necessário do que foi em outros tempos, quando, confiando-se no rumo correto das ações humanas, se podia desprezá-lo como uma fraqueza dos pusilânimes e dos medrosos” (PR, 351). A esperança supõe que aquilo que será é aquilo que se desejou. A responsabilidade ganha espaço no momento em que se reconhece o caráter incerto da esperança, não podendo a responsabilidade deter-se pelo mesmo tipo de incerteza. Assim, “o temor que faz parte da responsabilidade não é aquele que nos aconselha a não agir, mas aquele que nos convida a agir” (PR, 351). Estando ligado com o objeto da responsabilidade, esse temor

representa o temor que o homem deve ter de que algo aconteça com o objeto de sua responsabilidade. Ao assumir tal temor o homem o transforma em dever de ação e a responsabilidade emerge como cuidado que significa uma obrigação em relação a outro ser, ou seja, o sujeito ético “pré-ocupa-se” com a vulnerabilidade de seu objeto. Quanto mais vulnerável o objeto da responsabilidade e quanto mais assustadores os riscos que possam decorrer de um não compromisso para com a preservação de tal objeto, maior é a responsabilidade e o temor será a obrigação preliminar, portanto, de uma ética fundada neste princípio. Ao tomar o mau prognóstico como primeiro dever para a ética da responsabilidade, o temor desponta como atitude fundamental, sendo vontade (efetiva e ativa) de evitar o pior.

Jonas reconhece a insegurança das projeções futuras, sobretudo pela “[...] complexidade das relações causais na ordem social e na biosfera, que desafia qualquer cálculo (inclusive o eletrônico); [e pelo] caráter essencialmente insondável do homem, que sempre nos reserva surpresas” (PR, 73). Em função disso, é necessário que o homem mobilize toda a lucidez de sua imaginação e sensibilidade de seus sentidos, aliados aos conhecimentos e probabilidades advindos dos experimentos científicos, numa investigação em que, pautando-se pela heurística do temor, seja interpelado pelo objeto a partir de sua particularidade moral. A heurística do temor tenta ser um método pelo qual se compense, na medida do possível, a imprevisibilidade de efeitos futuros em decorrência do avanço científico e tecnológico, sendo ferramenta para refletir o destino da humanidade e não de covardia ou angústia (PR, 353).

Quando se discutiu sobre a técnica moderna, na primeira seção, elencou-se a automaticidade de sua aplicação como um de seus traços constitutivos. Este modo da dinâmica da moderna técnica camufla eventuais riscos e tende a manipular ou descreditar a percepção de consequências negativas. Assim, como recorda Sève, o primeiro trabalho da heurística é o de “revelar os perigos contidos no desenvolvimento técnico. [...] O medo torna-se um instrumento de conhecimento e ele nos revela, ao mesmo tempo, o valor do que está ameaçado e nossa ligação com esse valor” (2007, p. 169). Aliado ao “conhecimento” das consequências futuras da ação humana, o temor é “o sentimento adequado que move a ação” e uma vinculação necessária para “humanizar os conhecimentos científicos-técnicos” (TME, 75). Em caso de dúvida, deve-se dar atenção ao pior prognóstico “porque as apostas se tornaram demasiado elevadas para arriscar” (TME, 77). Pelo temor, a humanidade pode dar-se conta de que, como pontua Hoepers (2005, p. 72), “não é mais a natureza que amedronta o homem, mas, sim, poderes de intervenção do homem sobre ela e sobre outros homens”.

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