Uma das principais obras sobre romaria no Brasil foi realizada pelo historiador americano Ralph Della Cava. Sua obra, intitulada ―Milagre em Joaseiro‖ 30
, foi publicada em 1976. Baseada numa pesquisa em arquivos da Igreja Católica e em entrevistas realizadas com
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O período consultado serviu, a princípio, para mapear a produção acadêmica a respeito do tema das romarias.
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A grafia ―Joaseiro‖, do original em inglês, será utilizada apenas para fazer menção à obra de Ralph Della Cava, e não à cidade de Juazeiro do Norte, Brasil.
moradores locais, o livro aborda as diversas dimensões do fenômeno: política, religiosa e histórica, propondo-se a elucidar as variadas facetas que compuseram o processo de desenvolvimento da romaria em Juazeiro do Norte – CE, que teve como ícone a pessoa do Padre Cícero.
Della Cava afirma que os estudos que o precederam, apesar de considerar as dimensões política e econômica das peregrinações, entendiam as peregrinações como testemunho da religiosidade popular e principalmente da existência de duas culturas: uma moderna e outra atrasada, típica das massas rurais. Em contraponto, Della Cava (1976), assim como Hobsbawn (1959, apud DELLA CAVA, 1976), decidiu estudar esse fenômeno sob outro prisma, a partir do contexto social e global. Seu estudo vai assim ao encontro do pressuposto epistemológico que orienta a sociologia durkheimiana, no qual a sociedade explica o indivíduo (SELL, 2009).
No momento anterior ao surgimento da peregrinação a Juazeiro, a Igreja católica estava de certo modo enfraquecida no Brasil, pouca influência exercia, inclusive sobre a moral dos padres locais; muitos tinham amantes e filhos assumidos publicamente. Nesse período, entre os brasileiros, o catolicismo ortodoxo não conseguia superar as práticas paralitúrgicas e as chamadas crendices populares. Afinal, as crendices, como afirma Della Cava (1976, p. 28), eram o meio de aplacar a fome e qualquer outro tipo de adversidade, como a seca. Era corriqueiro o ato de levar santos de um lado a outro em procissões pedindo providência divina. Diga-se de passagem, tal prática é exercida até hoje em Maracás- BA.
O período entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX ficou na história eclesiástica do Brasil conhecido como Romanização (MARIN, 2001), no qual se tentava reaver os laços entre Roma e Brasil, além de reafirmar a Igreja como única depositária da verdade e da fé, foi criada uma diocese no Ceará com o objetivo de formar novos e zelosos padres brasileiros que pudessem salvar almas no Ceará. Nessa mesma época, aconteceu a derrubada do Império e o nascimento da República. A igreja, apesar de achar interessante tal acontecimento, por achar que aí estaria sua alforria do Império, não podia publicamente compactuar com as ideias que embasavam o novo regime, diga-se: o positivismo, a maçonaria, o protestantismo, dentre outras. Foi precisamente nesse período de mudanças que surgiu a figura de Padre Cícero, um dos ícones do Milagre em Juazeiro.
Padre Cícero era um homem pobre e que praticava o desapego, dependendo por vezes de mendicância e regalos para alimentar sua
família - mãe e irmãs - e calçar sapatos. Tais valores até hoje são cultivados e apreciados por romeiros no nordeste do Brasil.
Foi durante a realização de uma de suas missas que uma hóstia transformou-se em sangue na boca de uma beata lavadeira31, o que desencadeou, nesse mesmo ano, uma romaria de três mil pessoas até o povoado de Juazeiro; essa romaria, apesar de liderada por um padre, não teve apoio da Igreja Católica, que considerava precipitado julgar tal acontecimento como sobrenatural e principalmente divino. A Igreja temia as consequências doutrinárias32 de aceitar tal evento como uma manifestação de Cristo, preocupação que nem de longe atormentava as massas de peregrinos que começavam a inundar o lugarejo. Deste evento, subentende-se o caráter voluntário com o qual se iniciam as peregrinações e a tensão na qual estes eventos estão inseridos. As romarias pendulam entre a religiosidade popular e a religião institucionalizada, entre a política e a religião, entre os pobres e os ricos. A propósito, sobre esse tema, Della Cava afirma que apesar das camadas populares serem as que demonstravam mais entusiasmo com os milagres, em Juazeiro, pessoas de alto poder aquisitivo, como barões, financiavam com altos montantes em doações a causa e defendiam politicamente o padre Cícero, suspenso de suas atividades clericais.
A Igreja também temia que o Milagre em Juazeiro pudesse desencadear o surgimento de uma seita33, reiterando, aqui, o temor da Igreja frente às peregrinações, como apontado por Turner (2008). Para, além disso, o Milagre em Juazeiro transformou-se numa espécie de nacionalismo que surgia na disputa entre padres franceses e padres brasileiros. A negação do Milagre de Juazeiro passou a ser considerada uma negação do prestígio aos fiéis brasileiros e ao Brasil que também poderia ser solo de milagres como já ocorridos na Europa e reconhecidos por Roma.
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A beata, que se chamava Maria de Araújo, estava na capela de Juazeiro para assistir à missa, ao receber a Comunhão caiu no chão e a hóstia que acabara de receber tingiu-se de sangue. O evento repetiu-se por todas as quartas e sextas da Quaresma durante dois meses, depois voltou a ocorrer diariamente por 47 dias a partir do domingo da Paixão (DELLA CAVA, 1976, p. 40).
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Caso a Igreja admitisse ser esse o sangue do próprio Cristo, isso implicaria a noção de uma segunda Redenção, o que seria contrário a doutrina já estabelecida pela Igreja que afirma que a Redenção ocorreu apenas uma vez. 33
Temia-se que Juazeiro pudesse ser o celeiro do nascimento de uma igreja dentro da Igreja, a princípio houve uma forte ofensiva contra Juazeiro no intuito de nulificar Juazeiro e seus eventos miraculosos.
Enfim, o retrato que monta Della Cava é de um milagre que se tornou fonte de, e ao mesmo tempo, origem de vários conflitos. Padre Cícero, figura eminente dos acontecimentos extraordinários, acabou por morrer ―apartado‖ da Igreja, suspenso de suas atividades enquanto padre, acusado de heterodoxia e desobediência. Mas ainda aclamado pelo povo como um santo, de uma nova Jerusalém. A cidade onde ocorreram tais fatos e onde padre Cícero foi enterrado atrai até hoje centenas de milhares de romeiros, todos os anos.
3.2 UMA PERSPECTIVA SIMBÓLICA DAS PEREGRINAÇÕES