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Diversité des interfaces numériques et des pratiques territoriales

Introduction du chapitre I

4. Innovations et impacts territoriaux du numérique

4.2. Diversité des interfaces numériques et des pratiques territoriales

O termo “foodshed” (“bacia alimentar”) é utilizado e conceptualizado pela primeira vez em 1929 (de acordo com KLOPPENBURG, 1996) por W. P. Hedden no livro “How Great Cities Are Fed15”, cujo segundo capítulo se intitula “Watersheds, Milksheds, and Foodsheds”. Esta publicação faz parte de um conjunto de livros da série “Agricultural Economics” do editor D.C.Heath and Company, especializado em manuais escolares.

Figura 7 - Frontispício de HEDDEN, 1929, onde pela primeira vez se utilizou e definiu o termo de “bacia alimentar”

15 HEDDEN, W.P. – HOW GREAT CITIES ARE FED, D.C.HEATH AND COMPANY, BOSTON, 1929, capítulo II disponível em

Numa recensão publicada em 1930 no The Journal of Business of the University of Chicago16, Joseph G. Knapp (do North Carolina State College of Agriculture), considera que “How Great Cities Are Fed” é de leitura útil para os estudantes de marketing agrícola, nomeadamente pelo esclarecimento do processo de formação de preços no consumidor final, maioritariamente urbano, e pela indicação de oportunidades para redução de custos ao longo da cadeia de comercialização e logística tradicional (produtor > grossista > retalhista > consumidor).

Hedden (que se apresenta no frontispício como “Chief, Bureau of Commerce, The Port of New York Autorithy”), tem pela sua experiência profissional direta, uma visão abrangente sobre o ciclo de formação de preços, nomeadamente no papel das barreiras económicas no fluxo dos produtos alimentares até à chegada ao consumidor final.

Esta elegante noção de fluxo leva-o a assim a comparar o sistema das bacias hidrográficas às bacias alimentares sendo que, o que numa são divisórias físicas, são noutra, económicas.

Figura 8 - A primeira definição de bacia alimentar enquanto comparação com a bacia hidrográfica em HEDDEN, 1929

Mas outra diferença entre aqueles dois conceitos de “bacia” reside no facto da rigidez das fronteiras ao longo do tempo: as bacias hidrográficas tendem a ser estáticas e temporalmente imutáveis; as alimentares são altamente dinâmicas, dependendo, entre outros, de fatores sociais, culturais, tecnológicos, fiscais, financeiros e legais.

Um exemplo desta situação, para Hedden, são as bacias alimentares específicas da “bacia leiteira”, que o autor analisa em maior detalhe para as cidades da costa oriental norte-americana de Boston, Nova Iorque e Filadélfia e para a cidade do centro-norte norte-americano de Chicago. Nas primeiras, é o preço de transporte

16 The Journal of Business of the University of Chicago,Vol. 3, No. 2 (Apr., 1930), pp. 263-266, Published by The University of Chicago Press, disponível em:http://www.jstor.org/discover/10.2307/2349347?uid=3738880&uid=2129&uid=2134&uid=376731573&uid=376731563&uid=2&uid=70&uid=3&uid=60&

e distância em rodovia que condiciona os limites da bacia; por outro lado, em Chicago, a introdução do carro- tanque refrigerado reduz esses custos face à ferrovia e permite que a bacia leiteira se alargue.

A questão da refrigeração e do modo de transporte é bastante significativa no entender de Hedden: as produções e consumos de alimentos perecíveis graças ao transporte refrigerado já não estão dependentes da distância (até porque nem todos os locais próximos da cidade têm clima e/ou solo com características que permitam a produção em quantidade e qualidade de todos esses alimentos); por outro lado, questões de data de início de venda em função do clima da zona de produção (sazonalidade) fazem com que a bacia alimentar de determinados produtos (Hedden dá os exemplos da alface e da batata) varie também ao longo do ano.

Figura 9 - Distribuição geográfica e temporal dinâmica de produtos numa bacia alimentar; o caso da distribuição geográfica da batata e da distribuição temporal da alface no abastecimento a algumas das maiores cidades norte-americana, in HEDDEN,

1929.

Quando há várias regiões a produzir em simultâneo, então o mercado normalmente opta pelo produto de melhor relação preço/qualidade, sendo o preço influenciado por vários fatores (nomeadamente custos de transporte e logística, política monetária e fiscal, política protecionista). Hedden refere, para ilustrar esta situação, o caso dos citrinos em produção temporalmente simultânea na Florida e na Califórnia, sendo a distância entre aqueles estados e Nova Iorque de 3 vezes de diferença, com vantagem para a Florida, mas não impedindo esse facto de serem os citrinos da Califórnia os mais vendidos no estado de Nova Iorque, pela política de menores custos de transporte entre aqueles estados.

Por essas razões, defende Hedden, mesmo distâncias de 10 vezes de diferença não têm impacto no preço do produto, como no caso apontado por aquele autor, dos pêssegos da Califórnia consumidos no estado de Nova Iorque, embora este mesmo estado também os produza.

No entender do autor em análise, as tarifas aduaneiras são um dos principais fatores à regulação do fluxo de produtos nas bacias alimentares, tais como as barragens o são nas bacias hidrográficas. O caso do limão italiano versus o californiano é por ele utilizado para demonstrar que será este o fator que mais peso representa na formação do preço de entrada no mercado nova-iorquino das duas proveniências daquele fruto. Outros aspetos referidos como controladores de fluxos, são as barreiras sanitárias e de qualidade de produto; obrigando a um conjunto significativo de elementos de inspeção, são contudo um fator acrescido ou mesmo limitante para a origem de determinados produtos.

Sobre este tema Hedden cita especificamente o caso do leite canadiano e apresenta tabela de proibição de importação para batatas europeias, frutos mexicanos e citrinos asiáticos. O caso particular das uvas espanholas, com embargo desde 1922 até 1927 (supõe-se por ser esta a data de redação do livro em análise), colocou mesmo em causa a assinatura de acordos bilaterais entre Espanha e os EUA, tal a importância económica daquela exportação do país ibérico.

Tendo em consideração a situação específica de Nova-Iorque, com porto internacional e facilmente acessível por via-férrea e principalmente rodoviária (o autor reporta-se aos finais dos anos 20), a bacia alimentar daquela cidade é considerada delimitada essencialmente por fatores de tarifas protecionistas, controlos sanitários e custos de transporte.

Analisando os possíveis desenvolvimentos futuros, Hedden prevê que, dado o sentido das medidas protecionistas e sanitárias, cada vez mais se recorrerá à produção doméstica versus estrangeira.

Para os produtos mais influenciados pelo custo de transporte, será a distância a determinar a sua bacia alimentar; para os restantes, nomeadamente os de elevado valor acrescentado, a bacia alimentar não terá limites geográficos, exceto os decorrentes das condições de produção.