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LES DITS DE MATHIEU

Dans le document L'Educateur n°3-5 - année 1966-1967 (Page 80-90)

A primeira notícia colocada, no capítulo 3, sobre a possibilidade da existência dos doces na cidade foi da viagem de Saint-Hilaire na então São Francisco de Paula. Para melhor entender os doces pelotenses, buscou-se, em relatos de viajantes e escritores, a visão deles sobre a cidade como produtora de doces.

Entre os escritores citados por Mário Osório Magalhães em sua obra “Doces de Pelotas: Tradição e História e, referenciado pelo Inventário Nacional de Referências Culturais da Região Doceira de Pelotas e Antiga Pelotas, foram trabalhados três. Destes, dois são escritores, radicados no centro do país, com reconhecimento nacional, que relatam as suas vivências na cidade; o terceiro é Érico Veríssimo, autor gaúcho, de reconhecimento nacional.

Não são relatos ficcionais, mas de viajantes ou de conhecedores da região que nos fornecem subsídio para entendermos a dinâmica do doce no século XX. São três autores de fora da cidade que podem ver detalhes que os que estavam inseridos no cotidiano poderiam não perceber e que se mostram ausentes em outras fontes.

A primeira vez que encontramos uma descrição dos doces pelotenses é no livro “Jornadas no Meu País”, de Júlia Lopes de Almeida23, publicado em 1920, pela

Editora Francisco Alves.:

E esta encantadora velhinha que me chama a atenção para o sabor especialíssimo dos doces de Pelotas. Oh, um poema! Estes, sim senhores, merecem todos os meus cumprimentos. Não sei por aqui houve conventos, mas se não foram ensinadas por mãos de freiras, exímias na fabricação de guloseimas, caíram do céu para as cozinhas pelotenses as receitas destes papinhos de anjos, casadinhas fofas e queijinhos de ovo, que tenho no meu prato e que são mesmo uma tentação! Eu já sabia serem famosas as passas de pêcego, que nesta cidade se fazem como em parte alguma, mas para a delícia das outras complicações de ovos e açúcar é que não estava prevenida. Pois é uma especialidade digna de menção não só pela maneira por que ela agrada á vista como pelo bem que sabe...ao coração. (Almeida, 1920, pg.206)

Júlia esteve em Pelotas em 1920, numa viagem, em que os diários vão se transformar em livro. Carioca, nascida em 1862, morou em Lisboa e em Campinas. Uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras. Ela passou alguns dias na cidade e escreveu as suas impressões sobre a “Princesa do Sul”, segundo ela, a cidade mais aristocrática do sul do país. Diz que encontra amigos na cidade, dando grande destaque a Bruno Chaves. No relato da autora, algumas coisas chamam a atenção. Primeiro, quando ela coloca que as passas de pêssego feitas em Pelotas são famosas e que não há igual em outro lugar; e o segundo é que, para ela, os doces de ovos ou de bandeja são uma novidade serem produzidos na cidade. A autora não diz como ela conhecia as passas, mas ela já as apreciava; pelo tom da frase, esses doces já eram bem conhecidos em outros lugares.

Alguns anos depois, foi publicado o livro Pampas e Coxilhas: Impressões do Rio Grande do Sul, de Berilo Neves, em 1932 pela Livraria do Globo. Jornalista e escritor, morador no Rio de Janeiro, escreve o livro baseado nas suas impressões de viagem que fez pelo Rio Grande do Sul em 1931. Como o próprio autor coloca,

é uma crônica de viagem sobre a sua estada de, aproximadamente, cinco meses no estado.

O autor diz que, antes de iniciar a sua viagem, esperava que o Sul fosse um exílio para ele; esperava encontrar uma terra bárbara, em que a vida humana valia menos do que um novilho Hereford (1932, pg. 05). As suas impressões, no entanto, durante a sua escrita, são de uma pessoa que se encantou com o que viu nas diferentes cidades. Em relação a Pelotas, já começa de forma muito elogiosa:

Pelotas é uma cidade de boa família. Nasceu de pais nobres e teve, desde criança, toalhas de renda e bacia de prata. Chamam-na a “Princesa do Sul”; fica-lhe bem o título. (...) Cheguei a Pelotas num dia de sol, em que os pessegueiros cantavam a canção cor-de-rosa das suas flores de seda. (...) Fazem-se em Pelotas, os melhores doces do Rio Grande. As suas compotas são, quase tão famosas quanto as suas mulheres. E essa glória é extremamente gostosa porque feita de açúcar e de damas, de babas de moça e de moças que não babam. Aqui até as confeitarias tem nome doce: Dalila... (Neves, 1932)

Berilo chega a Pelotas, pouco depois da vitória de Yolanda Pereira no concurso de miss universo. Faz um relato da visita que fez à miss. Parece pela sua descrição que este fato o influenciou na descrição das mulheres pelotenses. Neste momento, Yolanda era conhecida no país, pelo seu título, então, entende-se que as compotas já tinham fama fora do estado.

Em 1964, Érico Verissimo, respondendo a uma escritora nordestina, que, sem visitar o RS, afirma: Vocês, os gaúchos, são acastelhanados, parecem pertencer mais à órbita platina do que à brasileira: fanfarrões, autoritários, teatrais, portam-se como se possuíssem o monopólio da coragem. (VERISSIMO, 1994, p. 242).

Érico convida a autora para conhecer o estado. Como cicerone, passa por todas as regiões do estado, levantando os pontos positivos de cada uma delas, afinal ele está defendendo o seu estado de origem. Pelotas, ele descreve da seguinte maneira:

Como as distâncias são largas e curto o seu tempo, tenho de correr ao tapete mágico para levá-la a duas importantes cidade de nosso litoral. Pelotas, aristocrática e tradicionalista, está para o resto do Estado assim como Boston está para os Estados Unidos. A cidade tem uma graça gentil, um certo recato feminino e uma tradição de cultura. E se você gosta de doces, este é o paraíso. Os desta terra são famosos. Entre, pois numa

dessas confeitarias ou casas-de-chá e regale-se com rebuçados, bolos, tortas, pudins, quindins. Mas seria um pecado se fosse embora sem provar as famosas passas de pêssego. (Verissimo, 1994, pg.250)

A descrição de Pelotas, feita pelo autor, é mais reduzida que para outras regiões do estado, mas rapidamente ele salienta dois pontos importantes da cidade: a cultura e os doces. Ele ressalta, de maneira mais incisiva, a fama dos doces de Pelotas, chega a definir como o paraíso dos doces. E, ainda, vai falar de uma diversidade um pouco maior, citando bolos, tortas, pudins, quindins e doces caramelizados. No entanto, o que mais chama a atenção é a deferência às passas de pêssego - impossível ir embora da cidade sem provar uma.

Estas três publicações de autores brasileiros de destacada atuação em suas áreas nos colocam que Pelotas é reconhecida pela produção de doces desde as primeiras décadas do século XX até meados da segunda metade deste. Destacando-se, neste cenário, os doces derivados do pêssego, principalmente as passas. Como já colocado no capítulo 3, este é o período de maior desenvolvimento dos pomares e das indústrias de pêssego, Pelotas sendo considerada a capital nacional da fruta.

Dans le document L'Educateur n°3-5 - année 1966-1967 (Page 80-90)

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