Jean-Marie Pelt Introduction
2.2 Analyse descriptive
2.2.4 Distributions des différents polluants
Nessa seção da Tese, em que se discute as relações que se constituíram entre o consumo e a modernidade ou modernidade e consumo, estabelece-se um conexão direta com as ideias de Touraine (1992). Ele convoca os leitores a refletirem sobre o termo modernidade, o qual não pode ser compreendido como uma forma simples e capitalista de modernização em que o consumo é o protagonista da história. “A modernidade é a antitradição, a inversão das convenções, dos costumes e das crenças, a saída dos particularismos e a entrada no universalismo” (ibid., p. 242).
As transformações sociais e culturais marcam a sociedade moderna global em suas facetas e características que podem ser expressadas por um traço indissociável: o status de sociedade de consumo. Touraine (1992, p. 172) ao fazer uma crítica à modernidade destaca que “o consumo é a linguagem do nível social, pois aquilo que cada um de nós vê como sendo o seu gosto é determinado pelo lugar que ocupa na sociedade e pela sua tendência a subir ou descer, de modo que o consumo parece estreitamente determinado pelo estatuto social”. Na opinião de Touraine (1992, p. 380), uma sociedade para ser considerada moderna deve transformar “o antigo em moderno sem o destruir”. O conceito de valorização do novo implica, automaticamente, na desvalorização do antigo e fortalece a admiração pela qualidade de moderno. Taschner (2009) desdobra esta ideia para as faces do consumo que tanto podem levar o sujeito a “obter cidadania”, propiciando a visibilidade social e assegurando o respeito, como podem desencadear problemas como o endividamento, insatisfação e busca constante pelo novo.
As pessoas buscam estar sempre em movimento, aparecendo, divertindo-se, mostrando o quanto são felizes, mesmo que por trás disso estejam o endividamento, a depressão, a solidão, os remédios controlados e a falsa aparência de controle. Esse comportamento passivo, embora se pense como ativo, é realimentado constantemente pelos meios de comunicação, em
84 especial os mais modernos, como a internet no celular, que sustentam a efemeridade126 e a superficialidade da sociedade do consumo.
Esta inquietação pelo moderno e pela felicidade alimenta uma corrente de inovações que se propagam, tanto para os setores produtivos quanto para os consumidores. Os utensílios que pareciam o máximo da tecnologia, no século XX, estão sendo substituídos por outros que fazem parte do discurso do moderno e do eficaz, e que estão atrelados a uma mudança energética, como o fogão a lenha pelo fogão a gás, por exemplo. Nos centros urbanos parte as famílias conheceu o aspirador de pó, à máquina de lavar-louça, o micro-ondas e outras máquinas que entraram nos lares. No entendimento de Dias:
As cidades são ecossistemas criados pelos seres humanos. Apesar de ocupar apenas 2% da superfície da Terra, as cidades consomem 75% dos recursos naturais globais e produzem 80% da poluição. Na atualidade, a maioria das pessoas já vive em ecossistemas urbanos, constituindo-se no habitat preferido da espécie humana (DIAS, 2006, p. 19).
Nas cidades, a multiplicidade de negócios, as lojas, o crescimento do setor de serviços e a diversidade industrial crescente avultam as possibilidades de consumo. No comércio, as vitrines são organizadas de forma a atrair os consumidores para dentro dos estabelecimentos. Baudrillard observa que as vitrines formam uma comunicação visual e emocional com os possíveis compradores e exercem sobre eles uma aculturação. “Os objetos e os produtos apresentam-se numa encenação gloriosa e numa ostentação sacralizante” (BAUDRILLARD, 1995, p. 176).
Essas sensações acentuaram-se com a entrada de grandes lojas de departamento127,
grandes magazines que reuniram objetos e criaram novas necessidades ligadas à vaidade, ao belo e à ostentação. O crescimento deste tipo de loja foi acompanhado com transformações de hábitos, costumes, moda, elegância gostos, novas concepções do feminino, da moral, da sexualidade e dos empregados que trabalhavam nas lojas. Na opinião de Bauman (2014) as lojas de departamentos são apenas um dos centros de compras, pois comprar tornou-se inerente às ações humanas.
Estamos na corrida enquanto andamos pelas lojas, e não só as lojas ou supermercados ou lojas de departamentos [...]. Se “comprar” significa esquadrinhar as possibilidades, examinar, tocar, sentir, manusear os bens à mostra, comparando seus custos com o conteúdo da carteira ou com o crédito restante nos cartões de crédito, pondo alguns itens no carrinho e outros de volta às prateleiras – então vamos às compras tanto nas lojas quanto fora delas; vamos às compras na rua e em casa, no trabalho e no lazer, acordados e em sonhos. O que quer que façamos e qualquer que
126 Passageiro; transitório.
127 “Surgidas na sociedade burguesa do século 19, após a Revolução Industrial e que se tornaram as grandes
responsáveis pela associação do consumo ao lazer, ao prazer, ao lúdico e pelo desenvolvimento de técnicas cada vez mais eficazes de sedução do consumidor” (TASCHNER, 2009, p. 74).
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seja o nome que atribuamos à nossa atividade, é como ir às compras, uma atividade feita nos padrões de ir às compras (BAUMAN, 2014, p. 95).
A cultura do consumo também se deu por meio de “lindas vitrines no exterior e
displays dentro da loja. Vidro, cor e luz foram os novos elementos usados com profusão nas
fachadas” (TACHNER, 2009, p. 85). Com esse modelo de loja, que se tornou um espaço público e de socialização, as barreiras entre os produtos e o consumidor foram extintas, tornando “possível tocar as mercadorias [...], os produtos passaram a ter etiquetas com preços: acabava-se o espaço para a barganha” (ibid., p. 84).
Nesse lugar confortável, agradável, de conquista, acessível, atraente, para fazer compras de uma variedade de artigos, se diversificaram as formas de negociação, com liquidações, parcelamentos, datas comemorativas e catálogos. O consumo passou a se relacionar com o lazer das famílias e ampliou o significado das lojas de departamentos, na medida em que se explorou a arte e a tecnologia do vidro, do espelho e da luz. Consequentemente, ruas e bairros adquiriram importância pelo impacto da presença das lojas.
[...] o consumo, especialmente o de certos itens, torna-se um meio de construção e expressão de identidades dos sujeitos individuais que vivem nas cidades, especialmente nas metrópoles. Eles passam a precisar de um novo meio para projetar suas identidades no espaço social. Tal fenômeno decorre da dissolução, no anonimato da vida metropolitana, das referências típicas da vida em pequenas localidades [...]. A embalagem para seus corpos passa a realizar esse papel, por meio do consumo, especialmente o de certos itens, tornando-se ícones de determinadas posições nas hierarquias sociais (TASCHNER, 2009, p. 18-19).
Nesta sociedade moderna, o indivíduo, isolado pela decomposição da família, encontra-se à mercê dos poderes sociais, tal como o espectador de cinema é manipulado pelas indústrias culturais” (TOURAINE, 1992, p. 184-185). Na opinião do autor, a modernidade não acontece sem a racionalização, tampouco “sem a formação de um sujeito-no-mundo que se sinta responsável em relação a si próprio e à sociedade”. A autora Beatriz redobra esta ideia quando discorre sobre a busca constante pelo moderno, a qual pode parecer revolucionária, porém divide espaço com a passividade.
A modernidade não mais cria, nem critica e muito menos renova. [...] A utopia da modernidade está consagrada em oposições, em contrariedades porque como toda a utopia é uma projeção, há necessidade de saltar obstáculos e de lutar pelo desejo e o desejo sempre está mais além, adiante no enfrentamento do futuro (BEATRIZ, 2016, não p.).
Com a vinda da internet e a combinação de imagens que encadeiam e estimulam as relações entre as pessoas e os produtos, verdadeiras vitrines colocadas na palma das mãos, ampliou-se a aculturação e expandiram-se as fronteiras do consumo. A rápida comunicação entre as pessoas oculta uma “ruptura lenta, mas inevitável entre o indivíduo, a sociedade e a
86 natureza. [...] Existe um não lugar que se constitui no ciberespaço128 na contemporaneidade, onde se encontram pessoas de todo o mundo para falar de qualquer coisa. “Os não-lugares estão a tornar-se zonas comerciais repletas de produtos básicos, mas também de marcas, de produtos culturais e artigos de luxo” (LIPOVETSKY, 2015, p. 90). Combinam-se dimensões técnicas e culturais assemelhadas ao conceito de “revolução passiva” de Vicenzo Cuoco129, do período do renascentismo italiano, conforme Gramsci (1978).
O termo “revolução” não atribui mudanças na formação social, segundo Gramsci, e sim nas forças produtivas quando elas não encontram lugar para um desenvolvimento progressivo. O termo “passivo”, refere-se à proposição de tarefas que já tenham as condições necessárias de existir. Consequentemente, as modificações ocorrem com fundamentos na composição precedente das forças e são matrizes para as transformações que seguem.
A partir de 1990, pesquisas sobre conceitos e imagens se voltaram para investigar a força das ideias que circularam na modernidade (GALVÃO, 2014). Vale destacar que, paralelo a este movimento, se dava a exploração imperialista colonial, definindo centralidades e periferias.
O Ocidente (especialmente os Estados Unidos) é um exportador líquido de cultura popular. Muitos consumidores associam os estilos de vida ocidentais em geral e a língua inglesa em particular com modernização e sofisticação, e muitas marcas americanas lentamente conquistam as culturas locais. Aliás, algumas marcas globais são tão disseminadas que muitas pessoas têm apenas uma vaga consciência de seu país de origem (SOLOMON, 2016, p. 114-115).
Existe um dilema nacional e cosmopolita130 entre o preservar símbolos, mitos e tradições, ou absorver os modelos de “felicidade” herdados das tradições europeias e norte- americanas. Comer enlatados como a população norte-americana, vestir-se como os italianos, dirigir automóveis alemães e usar um bom perfume francês são estratos almejados pelos consumidores e que trazem a esperança pela felicidade.
Na visão de Volpi (2007), a felicidade deixou de ser um estado de espírito que exprime somente um sentimento de alegria e satisfação. Essa euforia pode atingir níveis mais elevados quando a pessoa adquire uma mercadoria. “A felicidade, o bem-estar, o conforto e o sucesso couberam dentro de objetos e projetos de consumo” (ibid., p. 91). Assim, é mais feliz quem compra, e não basta comprar. A felicidade é medida de maneira diferente para cada ser, de acordo com o que aspira comprar e o que de fato consegue. Consequentemente, os gastos impossibilitam a visualização do futuro, a necessidade de poupança de recursos e as
128 Espaço das comunicações por redes de computação que possui grande concentração de tecnologia avançada.
129 Italiano, advogado e estudioso de economia. 130 O que é de todas as nações.
87 possibilidades de projetar prosperidade e novos postos na hierarquia socioeconômica.
O uso de computador pessoal, do telefone celular, cartão de crédito e do automóvel intensifica outra face deste movimento em direção à individualidade. “Com o advento da tecnologia, em qualquer parte do mundo, o indivíduo tem conhecimento do que se passa em outros lugares. É afetado, pois, pela cultura consumista e levado à homogeneização131 cultural” (MANDARINO, 2015, p. 63). Embora as pessoas estejam cada vez mais conectadas pelas redes sociais, a individualização prevalece. O compromisso com o outro, com a natureza e com a coletividade torna-se frágil e valores importantes da vida em comunidade, como lealdade, companheirismo, gratidão e generosidade, se perdem nas relações cada vez mais superficiais.
Nos processos de construção social, a concepção de consumo para atender as necessidades de sobrevivência foi se expandindo para a busca por posição social privilegiada, estilos de vida e satisfação. Todavia, sempre haverá produtos que não se pode dispensar, seja por faixa etária, riscos e imprevistos, como remédios, alimentos, roupas, energia, água, combustíveis e materiais para asseio e limpeza. Existem outros que, embora sejam necessários, têm a flexibilidade de serem consumidos com menor frequência ou substituídos, como por exemplo, o transporte individual pelo transporte coletivo ou por uma bicicleta. E por fim, mencionam-se produtos e serviços que podem ser considerados supérfluos por não estarem diretamente ligados às necessidades humanas, como joias, carros de luxo, excesso de roupas e calçados, imóveis muito amplos, substituição constante de telefones celulares, cirurgias plásticas estéticas, entre tantos outros.
No turbilhão da vida moderna, as pessoas se sentem instigadas a consumir constantemente motivadas por ganhos, marketing e ascensão social. Os imperativos dos padrões de consumo modificam os comportamentos dos consumidores e reforçam as crenças de que o modelo desenvolvimentista garante o acesso às condições básicas para a sobrevivência e felicidade. Esse modo de pensar não leva em consideração questões sobre equidade social e o desenvolvimento cultural e político das nações.
[...] a sociedade que entra no século XXI não é menos “moderna” que a que entrou no século XX: o máximo que se pode dizer é que ela é moderna de um modo diferente. O que a faz tão moderna como era mais ou menos há um século é o que distingue a modernidade de todas as outras formas históricas do convívio humano: a compulsiva e obsessiva, contínua, irrefreável e sempre incompleta modernização (BAUMAN, 2014, p. 40).
88 As políticas reinventam ideais, determinam o fim e o início de ideologias, de utopias e distopias, associadas às tentativas de criar uma sociedade diferente e renovar pensamentos e a imaginação utópica. O que se pode inferir deste panorama é que no espaço modernista são introduzidas rupturas nas formas de viver, por meio do inovações tecnológicas. Dinâmica, flexibilidade, impermanência e rapidez reproduzem e intensificam a “própria lógica do sistema”, “transferindo o espírito de racionalização e funcionalismo, de positivismo terapêutico e estandardização132 a um espaço construído ainda nem sequer imaginado” (JAMESON, 1996, p. 180).
Em nome de um conjunto de práticas e organizações, os detentores do poder econômico interferem na jornada de trabalho, na organização da indústria mecanizada, nos direitos dos trabalhadores, na implementação de políticas ambientais e nos acelerados processos de degradação ambiental de áreas, associados aos programas de desenvolvimento. Trata-se de uma mudança na forma de exercer o poder, que se agrega aos produtos e seus imperativos de uso. “A modernidade substitui a determinação heterônoma133 da posição social
pela autodeterminação compulsiva e obrigatória. Isso vale para a “individualização” por toda a era moderna – para todos os períodos e todos os setores da sociedade” (BAUMAN, 2014, p. 45). Os artefatos tecnológicos dão a falsa sensação de que a heteronomia foi superada, ou seja, este sistema ético de aceitar as normas por acreditar que elas são válidas não perduram mais. Por outro lado, com o acesso à grande quantidade de informação, os conceitos de saberes e conhecimentos se renovam e a sociedade vai perdendo o domínio sobre a realidade. A modernidade contemporânea pode ser compreendida como aquela que possui uma “produção rígida e em série, de produtos padronizados; [...] na qual o trabalho intelectual também é dividido, entre especialistas, numa organização com estrutura burocrática” (TASCHNER, 2009, p. 31). Se o moderno está sendo definido desta forma, a determinação heterônoma da posição social fica resguardada dentro das paredes das fábricas. Esta burocracia aliada à mercantilização do conhecimento faz com que haja controle de informação e o “moderno” acaba tornando-se um negócio.
As informações podem ser controladas, manipuladas ou vendidas como o caso da rede social Facebook, que vendeu dados de seus usuários para que as empresas oferecessem produtos de acordo com seus perfis. Com essa oferta direta e certeira, as pessoas acabam sendo envolvidas na trama do consumo, e consumindo, muitas vezes, por impulso, buscando satisfação momentânea. Outro exemplo é o caso é a busca de cura para determinadas doenças.
132 Padronização; uniformização.
89 Muitas negociações estão envolvidas entre pesquisadores, laboratórios, academias, indústrias químico-farmacêuticas para a pesquisa e o lançamento ou não de medicamentos. Na área de eletroeletrônicos, por exemplo, o lançamento de novos produtos aguarda um momento estratégico enquanto seus antecessores ainda são um sucesso de vendas.
A compreensão da complexidade do fenômeno do consumo está atrelada aos processos de inovação, produção, publicidade, meios de aquisição e de aculturação. O consumo está alinhado com o prazer instantâneo e não somente à satisfação de necessidades da sobrevivência humana. O moderno está nos objetos e não nas definições e conceitos de moderno. Os conflitos e as contradições entre este modelo social e o que, quanto, quando e onde consumir são os efeitos da instabilidade e das incertezas sobre as possibilidades de satisfação de necessidades da humanidade que vive em busca de novidades.